Amizade. Pessoas tóxicas. Romantizar. Deixar ir embora. Vamos ouvir a opinião do psicanalista?

Nesta quinta-feira (29), a coluna abre espaço para o psicoterapeuta e cronista Nelson Barros.
GENTE. QUAL A DISTÂNCIA SEGURA
Nelson Barros
Chica Da Silva é uma escritora maravilhosa que conheci no Facebook. Para minha sorte, ficamos amigos virtuais e, vez em quando, trocamos umas palavrinhas.
Numa dessas postagens sobre o prosaico da vida, o tema era o hábito, largado pelos dois, de fumar. Eu não sinto mais falta, o que é quase um milagre, pois todo mundo que conheço que abandonou o cigarro, por mais tempo que faça, parece ainda sentir falta. Não sinto falta, mas lembro. Por exemplo, quando termino de escrever algo, relendo e fazendo correções, me imagino com um cigarrinho entre os dedos.
Das vontades do cigarro, a conversa pulou para “sentir falta das pessoas e ao mesmo tempo ter medo delas”…
Eita, Chica. que me bota pra pensar!
Vou usar uma palavra da moda: Romantizar.
Nas redes, nos livros de autoajuda, nas frases de efeito atribuídas a Clarices e Pessoas, amigos são a melhor coisa do mundo. Os melhores amores, “abrigos para as emoções”, “coisas pra se guardar do lado esquerdo do peito”. E isso é verdade. Nem consigo imaginar a vida sem os meus. Até  “o rei” queria ter um milhão deles, embora o Facebook limite essa cota a apenas cinco mil.
Mas gente romantiza gente. Nas mesmas redes e livros de autoajuda também encontramos, o tempo todo, recados atribuídos a Sigmunds e Laíres, falando sobre desapontamentos e – outra expressão da moda – pessoas tóxicas. Sobre a hora de tirá-las da vida, se afastar das que não estão lhe fazendo bem.
Depois de um tempo, que nem precisa ser tanto, nem um milhão nem cinco mil. A gente mal dá conta de uma meia dúzia. E quanto mais nas redes, menos na vida real.
Quanto tempo demora até a gente se deparar com o “ladinho b” que até então se resguardara do amigo dileto. Ou ter o nosso próprio “ladinho b” acessado por uma coisa qualquer? Um segredo saído da caixa, uma verdade ‘mal dita’, um dinheiro emprestado, um convite recusado, um WhatsApp que ficou azulzinho, mas não foi respondido.
Amizades são relacionamentos elásticos. A gente pode se afastar e se aproximar, convenientemente. E isso é saudável. Mas essa arte, como muitas outras coisas da vida, necessita de tempo de exercício. E um dos exercícios mais sábios do tempo é o da desilusão.
Com o tempo a gente precisa aprender qual a distância segura. É como uma dança… Anavantu, anarriê. Nem tão perto, que dê pra sentir o bafo, nem tão longe, que se perca de vista.
Qual a distância até o mal entendido, o desencontro, a inveja, o ressentimento?
Qual a distância entre um encontro para um café, uma visita no hospital, um telefonema (ainda existe?) demorado ou a segurança filtrada das redes sociais?
O outro exercício é o do desapego.
Pode ser pra sempre. Pode não ser. E é assim mesmo.
Saber deixar ir é preciso.
Com o tempo a gente não romantiza nem muro, nem perdão.
Muro é membrana. A célula precisa da membrana pra manter a sua integridade.
E tem dois lados, o de lá e o de cá. Dois lados pra se cuidar. Não existe relação que não careça de limites. E perdão não significa necessariamente recolocar o outro no lugar anterior, de uma confiança que pode ter ido embora, graças a uma membrana rompida ou violada.
O terceiro exercício é o do espelho. Às vezes, é a gente mesmo que está do outro lado.
Talveza seja quando, olhando pra nós mesmos e pra nossas próprias falhas, possamos saber quem manter longe ou perto, dentre o milhão, cinco mil ou dos que se contam nos dedos de uma mão, mas entendendo que todos valeram a pena, o risco, o gasto e o desgaste. Os que venceram o prazo de validade, os que chegaram até aqui e os que ainda estão por vir.
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Nelson Barros é psicoterapeuta e cronista. 

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