Música 6:55

Hermeto Pascoal, um bruxo de todos os sons, completa 85 anos

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Começo dizendo que a caricatura que ilustra a coluna é de William Medeiros, grande artista com quem tive a alegria de trabalhar na TV Cabo Branco e no Jornal da Paraíba e de vê-lo em pleno processo de criação.

Nesta terça-feira (22), Hermeto Pascoal faz 85 anos.

É um dos maiores músicos do mundo, no mesmo nível dos grandes músicos do jazz.

Nasceu em Alagoas em 1936. Foi para o Recife. Morou em João Pessoa, onde atuou como pianista na Rádio Tabajara.

Na era dos festivais (segunda metade dos anos 1960), é dele a flauta que ouvimos em Ponteio, que venceu o festival de 1967.

Com o Quarteto Novo, fez um único e grande disco e se mandou para os Estados Unidos.

Lá, trabalhou e impressionou profundamente o último dos gênios do jazz: Miles Davis.

Talvez indevidamente, Davis se apropriou de um tema de Hermeto chamado Igrejinha.

O Hermeto do Quarteto Novo era um.

O Hermeto depois dos Estados Unidos era outro.

Miles Davis havia feito uma das suas revoluções no jazz – a fusão com o rock -, e Hermeto, admita ou não, foi marcado por esse acontecimento.

A despeito de toda a influência do jazz, sua música nunca tirou os pés do Nordeste.

O seu senso de improvisação é extraordinário.

A sua ousadia como experimentador de sons é de uma singularidade estupefaciente.

Vê-lo ao vivo é como se você estivesse diante de algo inacreditável.

O clássico do jazz Round Midnight tocado numa chaleira cheia d’água parece impossível, mas não com Hermeto.

Compositor, multi-instrumentista, tudo em Hermeto Pascoal é música.

Você pede um autógrafo (já vi, estarrecido, essa cena), e ele faz uma música na hora, um tema para improvisação jazzística.

Depois tira a carteira do bolso e mostra a identidade:

“Sou eu mesmo, Hermeto Pascoal” – foi assim que descobri sua idade e o dia do seu nascimento, para nunca mais esquecer.

Hermeto Pascoal é um bruxo de todos os sons que você possa imaginar. E dos que ninguém imagina.

Comemoremos seus 85 anos ouvindo sua música nesse Brasil mergulhado na ignorância e na barbárie.

Hermeto Mont.

Esse texto foi escrito ao som do seu álbum gravado ao vivo no Festival de Jazz de Montreux, em 1979.

É um dos grandes e mais lindos discos ao vivo da música popular do Brasil.