Música 7:31

Gilberto Gil é uma das grandes belezas do Brasil. E Juliette, até aqui, só tem feito bem ao Brasil

Peço permissão ao leitor para escrever nesta segunda-feira (14) num tom muito pessoal. Além do que já costumo fazer.

Conheci Gilberto Gil em abril de 1975. Dois meses antes de completar 16 anos.

Ele estava a dois meses de fazer 33.

Somos separados por 17 anos, mas fazemos aniversário no mesmo dia – 26 de junho.

Entre o São João e o São Pedro.

Nossa primeira conversa, eu morrendo de timidez, foi sobre o conjunto – ainda não dizíamos banda – que o acompanhava naquela turnê que fazia pelo Brasil e que o trouxe a João Pessoa para duas noites no Teatro Santa Roza.

Era um trio inspirado no Jimi Hendrix Experience.

Ele na guitarra (e violão), Moacir Albuquerque no baixo e Chiquinho Azevedo na bateria.

Lá se vão 46 anos. Muito tempo.

E nós fomos nos acolhendo como amigos.

É assim que o tenho. E sei que é assim que ele me tem.

Amigos dados pela vida, para os irreligiosos. Amigos dados por Deus, para os religiosos.

Daqui a pouco, farei 62 anos. Já ultrapassei o limiar da velhice.

Gil fará 79.

Não vi a sua live junina às seis da tarde deste domingo (13), dia de Santo Antônio.

Estava com uma amiga muito querida em casa e deixei para ver no silêncio da madrugada desta segunda-feira.

Vi dividido entre a alegria e a tristeza.

Esse repertório associado às festas juninas vem de nossas regiões mais profundas, mexe muito com a gente.

E parece que o passar do tempo vai acentuando tanto essa alegria quanto essa tristeza.

Por mais de duas décadas, vi inúmeras vezes os shows juninos de Gil. No Recife, em João Pessoa, em Campina Grande.

São lindos.

Emocionam.

Comovem.

Têm surpresas arrebatadoras – como Procissão, que ouvimos na live deste 2021.

Procissão, de inspiração totalmente nordestina, era assim no seu primeiro álbum, em 1967.

Logo depois, ganhou as guitarras dos Mutantes, em 1968.

No show de 1975, tinha algo de blues, se minha memória não está sendo imprecisa.

No Recife, numa conversa no comecinho dos anos 1980, na noite em que conheci Flora e jantamos juntos com Jomard Muniz de Britto, Gil olhou pra mim e disse:

“A Paraíba é avant-garde”.

Ouvi aquilo com tanto orgulho.

E pensei naquilo com tanta saudade quando, na live do Globoplay, ele cantou o baião Paraíba, antes de chamar Juliette ao palco.

“Hoje eu mando um abraço pra ti, pequenina”, que Caetano Veloso usou com tamanha beleza na letra de Terra.

É tão bonito. Toca tanto no coração da gente.

E lá veio Juliette. Linda, emocionada, incrédula de estar ali, com seu canto espontâneo.

Juliette diante de Gil, um dos gigantes da nossa canção popular.

Gil com sua bondade, sua generosidade, seu poder de acolhimento.

“Agora você tem um dindo”, disse ele a ela, semana passada no programa de Fátima Bernardes.

Para mim, foi o momento mais bonito do show. Asa Branca, a fala de Juliette e o choro de Gil.

Sim. O choro de Gil e os significados nele encerrados.

Um choro que já vi de perto, diante dos meus olhos, e que, dessa vez, me fez botar para fora muitas das lágrimas que estavam guardadas dentro de mim.

Gilberto Gil, seus filhos José, Bem e Nara, Mestrinho na sanfona e Jorginho Gomes na percussão nos conduziram através de um repertório irresistível, num show impecável.

Gilberto Gil – e não é a primeira vez que digo isso – é uma das grandes belezas do Brasil.

Pela música que faz e nos oferta há mais de 50 anos, e pelo homem imenso que ele é.

E Juliette, nossa conterrânea, até aqui, só tem feito bem ao Brasil, num momento em que estamos precisando sobrepor o bem ao mal.

Torço, sinceramente, e me desculpem se estou sendo maniqueísta, para que seu caminho seja este, o caminho do bem.