Viver? Sobreviver? Eu queria muito estar vivo aos 64 anos

A gente sabe, mas se comporta como quem não sabe.

Morrer é a coisa mais fácil do mundo.

Estou aqui escrevendo, tenho um enfarte e caio morto.

Ou moro numa comunidade e sou atingido por uma bala perdida, dentro de casa.

Para mim, essa consciência se consolidou em definitivo quando, aos 42 anos, meu único irmão surgiu com algo que lembrava uma dessas viroses que todos temos e três meses depois estava morto.

E agora, com a Covid-19, aí, sim, é que ficou ainda mais fácil morrer.

Começo com uma conversa dessa para chegar aos Beatles.

Como será?

Um dia desses, creio que em 2019, vi no Face que Buda Lira, nosso queridíssimo ator, estava fazendo 64 anos.

Liguei pra ele todo animado. “Rapaz, 64 anos, que beleza!”.

E ele veio com o papo de que está ficando velho, etc.

“Mas, Buda, 64 é bom demais. When I’m 64. Olhe aí, você alcançou esse referencial que é tão importante para milhões de fãs dos Beatles espalhados pelo mundo” – argumentei.

Buda Lira, como a maioria das pessoas, não conhecia a história.

Lá fui eu contar, enviar o áudio. Acabei botando uma cor a mais no aniversário do amigo.

Paul McCartney tinha 15 anos quando compôs ao piano a melodia de When I’m 64. Os Beatles ainda não existiam, e a gravação é de 1967, quando Paul tinha 25.

A canção é inspirada na música de cabaré que o pai de Paul, Jim McCartney, tocava na década de 1920. E Jim tinha justamente 64 anos quando a música foi gravada pelos Beatles para o álbum Sgt. Pepper.

A letra é uma carta. Um rapaz perguntando à namorada como será quando eles estiverem velhos – vou resumir assim.

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Só que a idade dos velhos da letra é 64 anos. 64 anos, velhos sob os olhos de quem vivia em 1967. Hoje, nem tanto.

De todo modo, o fato é que o “quando eu tiver 64 anos” se transformou num referencial para os admiradores dos Beatles.

Um referencial de velhice, é bem verdade.

Os mais apaixonados pelo grupo e por sua música querem, todos, estar vivos aos 64.

John Lennon morreu aos 40 anos, em 1980.

George Harrison morreu aos 58 anos, em 2001.

Ringo Starr, o mais velho do quarteto, fez 64 em julho de 2004.

Paul McCartney, em junho de 2006.

Em 1991, no aniversário do maestro George Martin, Paul e Linda McCartney enviaram ao produtor e arranjador dos discos dos Beatles uma garrafa de vinho com um pequeno cartão.

Estava escrito: “Birthday greetings, bootle of wine” (Parabéns pelo aniversário, garrafa de vinho) – tal como na letra da canção.

Só que Paul errou. Martin tinha feito 64 anos em 1990.

Viver? Sobreviver?

Está tão difícil num lugar onde uma doença, em pouco mais de um ano, levou quase meio milhão de pessoas.

Eu, que vou fazer 62 anos daqui a alguns dias, gostaria, muito sinceramente, de estar vivo em junho de 2023 para festejar os 64 – como os velhinhos da canção dos Beatles.

“Você ainda vai precisar de mim quando eu tiver 64 anos?”