Dessa vez, foi o pai de Madu, jovem e talentosa jornalista. Precisamos entender que estamos na fila da morte

Um dia desses, escrevi que a Covid-19 levara o professor Wellington Pereira e que amanhã seríamos eu e você.

Depois, que chegara a vez do jornalista Eduardo Carneiro e que amanhã seremos nós.

Agora, quem se foi, somente aos 59 anos, era um anônimo, mas pai da jovem e talentosa jornalista Madu.

Eu a chamo de Duda. Fomos colegas na CBN João Pessoa. Eu, fazendo a Sexta de Música. Ela, atuando como estagiária.

Um dia, a garota entrou numa cabine para gravar um áudio, e os meus velhos radares (ainda funcionam!) disseram mais ou menos assim: “Essa menina linda tem talento e futuro”.

A morte do pai de Madu e a conversa telefônica que tivemos no domingo (23) me entristeceram.

Eu chorava, e Duda, com uma voz serena, nem sabia que era por ela. Preferi dizer que havia outro motivo.

Sobretudo quando ouvi que a ela coube identificar o corpo do pai.

A morte está batendo à nossa porta. O que é preciso ainda para entendermos que estamos na fila e que o governo Bolsonaro não está nem aí para os nossos quase 500 mil mortos?

Nesta segunda-feira (24), quem pela primeira vez publica aqui na coluna é a jornalista Meiry Alves, indignada com o Brasil, essa grande pátria desimportante em que estamos tentando sobreviver.

QUALQUER EXISTÊNCIA É POLÍTICA

Meiry Alves

Podem vir CPI, Pazuello, o Ministro da boiada, o Véio da Havan, e até o rapaz de terno da segurança do shopping; podem vir uma separação, o fim de um lance legal, a sua namorada de cabelo cacheado, o silêncio daquela gente que antes era minha, uma gravação de três minutos da claro sobre a qual é impossível interagir, e inclusive uma tartaruga morta na Praia do Bessa. Podem vir o desamor, as obras no condomínio em meio ao home office, os negacionistas, e até a Escola Remota, que, na verdade, deveria se chamar Escola sem Alma, já que ninguém ensina sem presença — e esta, lamento informar, faz parte tanto do ar que se respira quanto do jeito como se dá bom dia ou se pede licença.

Qualquer existência é política, meus caros inimigos. Mas isso aqui não importa: pode vir o que vier, e olha que tem vindo muita coisa ruim pra nossa terra brasilis, mas uma pessoa que perdeu a mãe — com 65 anos, o que torna a morte injusta — e tomou duas ou três rasteiras que deram uma certa intimidade com o chão, já entendeu que qualquer adversidade ou mesmo alguma alegria primitiva sempre dará a impressão de que amadurecer é meio isso, e, como dizia o Gonzaguinha, “é bonito e é bonito”. Assim foi até o dia de ontem, quando, talvez pela primeira vez em muito tempo, eu tenha ficado na dúvida a respeito das regras do jogo.

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Mas quando a doce Madu, ao se despedir do pai, que morreu aos 59 anos por complicações da Covid-19, disse que não desejava a ninguém a dor que estava sentindo, eu entendi que talvez ela seja a pessoa mais feliz que eu conheço, e nem a pior dor do mundo a fez perder o olhar pro outro. E quando me dei conta, estava diante de outra revolução, dessa vez, dentro de mim.

Nunca fomos tão tristes, prezados parceiros de língua. Nunca a água doeu tanto, nunca a chuva foi tão feia, nunca o amor valeu tão pouco, eu pensei, diante da minha janela — minha Majestade nessa pandemia.

O fato é que, anestesiada com os números catastróficos de mortes em pandemia e sob o poder transformador de um hino de ousadia e suavidade que eu acabei de ouvir — que parece inaugurar uma era de homens gigantes e canções sentidas, onde é quase possível tocar no tempo e agradecer, obrigada Tom, Zeca, Moreno e Caetano, todo homem precisa mesmo de uma mãe —, eu tomei uma decisão que não muda a vida de ninguém, mas que pode revolucionar a minha pequena jornada até 2022: eu nunca mais vou falar mal do Bolsonaro. Aliás, eu não vou nem mais pronunciar o nome desse cidadão. Nem dele, nem de alguns prefeitos do meu DDD. Eu sei, parece simples. Banal. Talvez até óbvio, uma vez que a vitória desse sujeito nas urnas é um fato que já dura quase três anos.

Mas pra mim, embora pareça uma decisão ingênua e quiçá infantil, é praticamente uma conversão ao budismo, só que meu Dalai Lama atende por outro nome. E minha religião agora é recuperar o prazer de ser brasileira — a tal alegria primitiva a qual me referi no início dessa coluna. Não é preciso muito para apagar uma pessoa: basta convencê-la de que ninguém precisa do que ela faz, Dostoiévski disse isso. E não é de um instante pro outro, é? Quando a gente menos espera. “Distraídos venceremos”, já dizia Leminski. O fato é que, de mãos dadas, vamos perder o medo de chegar até 2022

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Meiry Alves é jornalista.