Mais Cultura 7:59

Chorei por Paulo Gustavo. Chorei pelo Brasil e por nosso destino enquanto Nação.

“Uma brisa suave de alegria. Um vento forte de tristeza.
Ou isso ou aquilo. Sorrir ou chorar.
Os dias têm sido assim.
Um vai e vem de emoções.
Ora feliz pela vitória da menina linda que conquistou o Brasil com sua espontaneidade.
Ora de coração partido pela partida do menino irreverente
que conquistou o Brasil com seu talento.
Os dias têm sido assim.
Uma gangorra de sentimentos.
Sobe e desce. Sobe e desce”.

 

Esse texto, meio prosa, meio poesia, não é meu. É de Edilane Araújo, que há muito é um dos amores da minha vida.

Ele traduz de forma fidelíssima coisas sobre as quais temos – eu e ela – conversado com grande frequência.

E aí?

O que faremos depois?

Seremos piores do que já somos?

Se sobrevivermos à Covid-19, vislumbraremos alguma travessia que nos leve a um lugar melhor?

Será que encontraremos o nosso caminho de tijolos amarelos, como em Oz ou na canção de Elton John?

Mas tudo isso está nas entrelinhas.

Na verdade, o texto é sobre a noite a um só tempo alegre e triste da terça-feira (04) passada.

Alegre por causa da vitória de Juliette Freire no BBB21.

Triste por causa da morte do ator Paulo Gustavo.

Foi uma noite que nos colocou nos extremos do que temos hoje em nossas vidas mínimas.

Uma alegria fugaz aqui, outra acolá, em contraposição a grandes tristezas.

Eu, que não vi o BBB, parei para testemunhar a vitória de Juliette, torcendo para que ela tenha lucidez e bom senso na vida depois do confinamento.

Eu, que, por dever de ofício, vejo os noticiários da TV, praticamente não acompanhei a cobertura da morte de Paulo Gustavo.

Era uma violência à qual preferi não me submeter. Tanto talento, tanto êxito, tantos fãs – tudo destruído em poucas semanas.

No meio dessa conversa, lá venho eu com um fanzine feminista de uns vinte anos atrás. Apareceu na redação da TV Cabo Branco, acho que nas mãos de Jô Vital.

Foi bem antes desse momento atual de intensa luta das mulheres.

O fanzine trazia um texto com um perfil masculino que era considerado bacana, positivo, afinado com o pensamento feminista.

Lembro de algumas características:

Homem não deve ter nenhum problema de dizer que broxa. Todo mundo broxa, menos – acrescentaria hoje – o presidente Jair Bolsonaro, que andou dizendo que é imbroxável.

Homem não deve diferenciar quem é hétero de quem não é. É tudo gente, igual a mim e a você.

Homem não deve ter vergonha de dizer que chora vendo um filme ou uma telenovela.

Vou confessar: fiquei todo orgulhoso por me identificar com o perfil do fanzine feminista.

Conto essa história agora por causa do choro.

Sempre chorei. Não falo nem das situações mais graves, como a morte de uma pessoa próxima.

Refiro-me a coisas triviais do cotidiano. E me fazia um bem imenso.

Só que o uso de antidepressivos inibe o choro, e meus olhos secaram.

Vi, num leito de hospital, minha queridíssima amiga Nelma Figueiredo morrer, diante dos meus olhos, e não derramei uma lágrima. Aquilo me fez tanto mal que corri em busca de alguém do serviço social do hospital, mas de nada adiantou.

Finalizo voltando à prosa poética de Edilane, à final do BBB, à morte de Paulo Gustavo, à tragédia da pandemia, ao país desgovernado. Ao instante em que inventei de ver, no G1, um depoimento de Regina Casé, essa nossa notável atriz.

Não. Não era uma pequena sonora que – soube – entrou no Jornal Nacional.

Era um vídeo de uns três, quatro minutos.

Regina falando de Paulo Gustavo. O amigo, o cara imensamente talentoso, o cidadão de alma generosa.

A morte de Paulo Gustavo tem um caráter simbólico muito forte porque ele se foi levado pelo mesmo mal que está levando milhares e milhares de brasileiros, famosos como ele, ou simplesmente anônimos.

É bem provável que ele tenha sido, até agora, a maior celebridade brasileira a ter a vida ceifada pela Covid-19.

E há algo de muito violento nisso, dizia Regina Casé.

Algo da relação profunda da gente com o melhor do Brasil, com a nossa alegria, com as coisas extremamente ricas e importantes que temos e que estão sendo roubadas de nós.

Aí, não teve antidepressivo que me segurasse.

As palavras de Regina Casé me devolveram o choro convulsivo, as lágrimas guardadas sei lá há quanto tempo, os soluços que assustaram minha mulher. Tudo a que a gente tem direito num momento assim.

Chorei por Paulo Gustavo, chorei pelos mortos da Covid-19, chorei por esse governo que nos adoece, que nos deprime.

Chorei pelo Brasil e pelo nosso destino enquanto Nação.