Fora Bolsonaro é tradução da realidade. O presidente perdeu as condições de permanecer no cargo

Em 1992, no impeachment do presidente Fernando Collor, o então presidente do STF, o ministro Sydney Sanches, tinha 59 anos.

Em 2016, no impeachment da presidente Dilma Rousseff, já aposentado, ele estava com 83 anos.

Prestei atenção numa fala do Sanches de 2016. Ele disse que nunca pensou que testemunharia outro impeachment, além do de Collor, e estava testemunhando.

Fiz as contas com a minha idade. Ora, eu, que tinha 33 anos em 1992 (portanto, 57 em 2016), não esperava ver outro impeachment no Brasil, imaginem Sydney Sanches.

Esses números me ocorrem sempre que me posto diante da discussão sobre um provável impedimento do presidente Jair Bolsonaro (Foto: reprodução). Ao menos como tese, penso que não é boa ideia banalizar esse instituto.

E, aí, tomo para mim uma frase de Fernando Gabeira, que é de 2018, mas deveria valer para qualquer eleição: “O Brasil precisa eleger alguém que vá governar no ano que vem”.

Nem é necessário dizer, então, que, como princípio, resisto ao “Fora A!”, “Fora B!”, “Fora C!”. Precisamos, sim, de uma democracia em que o povo eleja o seu presidente, e este cumpra o seu mandato.

A despeito de toda essa introdução, cá com minha obsessão por números e datas, estou convencido de que Sydney Sanches, às vésperas dos 88 anos, e eu, às vésperas dos 62, precisamos testemunhar outro impeachment.

O fato é que o presidente Jair Bolsonaro perdeu as condições de permanecer no cargo.

Crimes de responsabilidade? Já cometeu vários – garantem os que entendem do assunto.

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Mas nem é preciso entender.

A postura de Bolsonaro diante da pandemia do novo coronavírus é, a essa altura, mais do que suficiente para que seja defenestrado do cargo para o qual foi eleito por quase 58 milhões de brasileiros. Desses, não todos, obviamente, mas, alguns milhões, tão insanos quanto o próprio presidente.

Bolsonaro fez 66 anos neste domingo (21). A cena dele discursando para meia dúzia de fanáticos em frente ao Alvorada, foi patética, ridícula e absolutamente incompatível com a figura de um presidente da República no instante em que o país enfrenta essa tragédia monumental.

Bolsonaro, de um lado, ensaia recuos. Do outro, radicaliza.

Agora mesmo, quer conversar com os chefes dos outros poderes. Dizem que busca uma união, mas acaba de cogitar a decretação do estado de sítio, medida extrema que daria ao Executivo poderes que, em definitivo, um homem como Bolsonaro não pode ter nas mãos.

Enquanto isso, aqui fora, na vida real, o Brasil se aproxima dos 12 milhões de contaminados pelo novo coronavírus e dos 300 mil mortos pela Covid-19.

Nem ministro da Saúde temos direito. O general Eduardo Pazuello ainda não deixou o cargo, e o médico Marcelo Queiroga, que, até aqui, só envergonha a Paraíba, ainda não assumiu, embora, nesta segunda-feira (22), já faça uma semana que seu nome foi anunciado.

Até onde iremos?

Até onde suportaremos?

Até onde irá a permissividade daqueles a quem compete fazer alguma coisa?

Até onde o presidente Bolsonaro seguirá em sua jornada louca de destruição do Brasil?

Fora Bolsonaro?

Se não há outra saída, fora Bolsonaro!