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Estou em “prisão domiciliar” há um ano e não sei por quanto tempo vou cumprir essa pena

Minha editora na CBN João Pessoa informa que, nesta quinta-feira, faz um ano do primeiro caso paraibano de contaminação pelo novo coronavírus.

18 de março. Também faz um ano que entrei em isolamento social. Pensava que por uns três, quatro meses, mas, logo, vi que não.

Na Paraíba, terminamos março de 2020 quase em lockdown. Fora os serviços essenciais, fechou tudo. Até os ônibus foram retirados de circulação.

O primeiro sinal de que o Brasil enfrentaria uma tragédia de verdade veio do presidente Jair Bolsonaro. Um pronunciamento à TV revelou que tínhamos nele não um aliado na luta contra o vírus, mas um sabotador.

Sabotador é muito forte, mas suas atitudes só confirmam a propriedade da palavra.

O médico Mandetta parecia bem à frente do Ministério da Saúde. O presidente mandou embora.

O médico Teich, que veio em seguida, não aguentou um mês.

O general Pazuello comandou o desastre e agora dá lugar ao médico Queiroga, cuja presença no cargo só orgulhará a Paraíba se conseguir fazer a coisa certa.

Ter livros para ler, filmes para ver e discos para ouvir não é tudo.

Não quando o mundo lá fora está desmoronando.

Se enfrentar uma depressão não é fácil, imaginem no momento atual.

Superado o episódio, há umas tristezas que permanecem, e o psiquiatra explica:

“Claro. Você está há um ano numa espécie de prisão domiciliar”.

Não se passaram duas semanas do início de tudo, e um amigo me deu a notícia da morte do filho.

E essas notícias não pararam mais nos meses que se seguiram.

Uma pessoa próxima, outra conhecida, uma figura pública, um artista admirado.

Ver o Jornal Nacional se tornou um sacrifício. A tragédia traduzida em imagens, o rosto dos mortos no fundo do cenário.

A vida ou a economia?

Logo a discussão se instalou e está aí até hoje, um ano depois.

Vimos o que só é possível ver porque o presidente se chama Jair Bolsonaro.

Não use máscara. Aglomere. Vacina? Não. Cloroquina.

A burrice e a ignorância foram transformadas em método pelo Estado e aplaudidas pela barbárie de milhões de brasileiros que votaram em Bolsonaro e votarão de novo quando 2022 chegar.

A pandemia é uma tragédia em escala planetária. A pandemia não foi inventada por Bolsonaro, mas, para nós, brasileiros, é muito pior com ele. Penaliza mais, mata mais. E espalha pelo mundo a imagem de um país do qual devemos ter muita vergonha.

Nossa bandeira sempre será verde e amarela. Nossa bandeira nunca será vermelha. Diziam (ainda dizem) os idiotas que perderam a modéstia com a chegada da ultradireita ao poder.

Pois bem, quem agora é quase todo vermelho é o nosso mapa.

18 de março.

Estou em “prisão domiciliar” há um ano. A condição de aposentado permite. Os compromissos que tenho, cumpro de casa.

Mas a vida em liberdade é sempre melhor.

A sessão semanal de cinema, o café com os amigos, a ida à livraria, a visita que a gente recebe em casa, a Sexta de Música feita presencialmente no estúdio da CBN.

A felicidade possível, não há mais.

Mais de 11 milhões de brasileiros foram contaminados.

Quase 300 mil morreram.

Cairemos um a um?

Teremos o socorro hospitalar?

Teremos vacina para todos?

Sobreviveremos à Covid-19?

Morreremos de repente?

Tenho sonhos recorrentes.

Num deles, estou na rua, no meio de muita gente.

Procuro a máscara no meu rosto, e ela não existe.

Procuro as máscaras nas pessoas, e elas também não existem.

Quando acordaremos?

Quem, afinal, nos tirará desse pesadelo?