Fernando Gabeira faz 80 anos. Ninguém vai me convencer de que ele é um homem de direita

Gabeira volta do exílio. De tanga no verão do Rio.

Gabeira aos 80 anos. Comentarista na Globo News.

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O jornalista e escritor Fernando Gabeira faz 80 anos nesta quarta-feira (17).

Em 1969, depois de trocar as redações pela clandestinidade, ele integrou o grupo que sequestrou Charles Burke Elbrick, o embaixador dos Estados Unidos no Brasil.

O episódio é narrado em O que é isso, companheiro?, de 1979.

O livro conta também a experiência do autor no exílio e já traz seus primeiros questionamentos sobre a esquerda. Questioná-la, criticá-la, não é, necessariamente, ser de direita. Tanto que, na volta ao Brasil, Gabeira retomou a militância filiando-se ao PT (mais tarde, ao PV).

Mas a esquerda nunca assimilou direito as suas ideias depois do exílio. Até transformá-lo no homem de direita que ele nunca foi. E nem é, agora aos 80 anos.

Fernando Gabeira tem história para contrapor aos que, com pouca ou nenhuma história, o questionam.

É lúcido, admirável e, com a liberdade que a vida lhe deu, pensa o Brasil e os seus destinos enquanto Nação.

É isso o que temos nele. Nas reportagens especiais que produz para a televisão, nos livros que escreve, em seus artigos e comentários na Globo News.

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Vocês não precisam concordar com Gabeira. Mas ele merece respeito. É uma voz que deve ser ouvida nesse Brasil comandado pelas forças mais atrasadas do pensamento e da ação política.

Muitos dos críticos de Gabeira não leram, ao menos, O que é isso, companheiro?.

Já seria um bom começo.

Em primeiro lugar, o livro resistiu, por mais de 40 anos, como boa literatura.

Texto fluente, narrativa sedutora, coisa de quem sabe escrever.

Depois, porque conta uma história importante de um Brasil não tão remoto ainda.

Por último, porque as reflexões do autor são instigantes, provocativas, indispensáveis mesmo.

Li na época. Reli há quatro anos. Está tão íntegro quanto seu autor me parece quando o vejo, velho, na televisão.

A história narrada em menos de 250 páginas começa com um homem fugindo da polícia, em busca de uma embaixada, no Chile que se seguiu à deposição do presidente Salvador Allende, em setembro de 1973.

E termina com um “tchau, Brasil”.

É uma frase sugestiva agora em 2021.

Não podemos dizer tchau ao Brasil.