Sivuca morreu há 14 anos. Fiz a última grande entrevista com o músico e conto como foi

Nesta segunda-feira (14), faz 14 anos que Sivuca (foto: André Cananéa) morreu aos 76 anos.

Se estivesse vivo, teria completado 90 em 26 de maio de 2020.

Fiz a última grande entrevista de Sivuca poucos dias antes da sua morte.

Conto como foi.

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João Pessoa, novembro de 2006.

32 anos se passaram entre a primeira vez em que vi Sivuca ao vivo e a última em que estive perto dele. Não mais como espectador, sentado na poltrona de um teatro, a alguns metros do palco, mas na sala do seu apartamento, no bairro de Manaíra, com a missão de entrevistá-lo.

Dias antes, recebi o convite num telefonema que fiz a Glorinha para parabenizar o casal pelo lançamento do DVD O Poeta do Som.

Na conversa, ela disse que alguém precisava fazer uma longa entrevista com Sivuca.

Ele estava no fim (todos sabiam), e Glorinha tinha o desejo de que contasse histórias para a posteridade. De que desse uma extensa entrevista. Certamente, a última.

Cheguei ao apartamento no final da tarde de uma terça-feira, dois dias antes do concerto em que Sivuca se despediria da Orquestra Sinfônica da Paraíba.

Sivuca estava abatido, cansado, quase vencido pela doença que o consumiu durante mais de três décadas.

Tinha um fio de voz, perdera muito peso.

Vestia calças jeans e uma camisa xadrez, azul e branca.

Conversamos durante duas horas sobre temas que levei anotados num papel.

Uma conversa com pouca improvisação e, para poupar o entrevistado, menos extensa do que eu desejava.

Sivuca em suas próprias palavras – foi o conceito que me guiou quando fiz a pauta. Era esse o resultado desejado.

Já era noite quando a entrevista terminou.

Ainda falamos rapidamente sobre a homenagem que ele receberia, dois dias depois, da Orquestra Sinfônica da Paraíba.

Seria sua última performance ao vivo, numa breve apresentação no Espaço Cultural José Lins do Rego.

Voltei para casa dividido. Profissionalmente feliz com a sensação de que tinha feito uma boa entrevista. Triste pela confirmação de que Sivuca estava no fim.

Esgotavam-se todas as alternativas da luta contra o câncer, iniciada em 1974, quando Glorinha o conheceu, apresentados um ao outro pelo amigo comum José Bezerra Filho. Na época em que, vindo do Zaire, reencontrara seus conterrâneos naquela noite inesquecível, no palco do Teatro Santa Roza.

Três semanas se passaram até que, no final da noite de 14 de dezembro de 2006, Sivuca morreu no Hospital Memorial São Francisco, no bairro da Torre, em João Pessoa.

A última entrevista de Sivuca foi publicada no jornal O Norte na edição de 24 de dezembro de 2006.

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Seguem trechos da entrevista de Sivuca.

É texto de notável valor documental.

SIVUCA ARRANJADOR

O arranjador começou em 1950, quando o maestro Guerra Peixe veio para o Recife assumir a direção musical da Rádio Jornal do Commércio. Ele resolveu escolher alguns colegas para ensinar, e eu estava entre eles. Eu, o maestro Clóvis Pereira, o próprio Capiba. Aliás, o meu sonho começou quando escutei a Orquestra Tabajara pela primeira vez, lá em Itabaiana, em 1943, 1944, nos bailes que Severino Araújo fazia no Itabaiana Clube. Verifiquei que aquele tipo de arranjo era diferente do que eu escutava nas bandas, e aquilo era o que eu queria fazer. Tanto que a minha sanfona soava diferente das outras porque eu tocava o instrumento como se estivesse tocando um saxofone.

SANFONEIROS

Veja o “Sivuca Sinfônico”. Esteve aqui um grande compositor, ele ouviu tudo, olhou pra mim e disse: “Quem fez esses arranjos?”. Ora, eu quase que digo: sou um músico pobre, eu mesmo fiz. Mas isso tudo, com trabalho, com tenacidade e com convicção daquilo que a gente vai fazendo, a gente vai derrubando as muralhas, porque muralha não foi feita pra se derrubar facilmente. Por exemplo, se eu tocasse piano, todo mundo já sabia que eu seria um arranjador. Quem toca sanfona geralmente é tido como músico que não estudou. O que, aliás, no Brasil existem exceções. No Recife, nós temos um acordeonista (vamos chamá-lo assim), Toninho Ferraguti, ele faz arranjo para tudo quanto é forró, no entanto ele é um grande músico, é um grande arranjador. Osvaldinho sabe música. Agora, tem uns que não sabem. Dominguinhos não sabe uma nota de música, mas harmoniza tão bem ou melhor do que nós todos. Quer dizer, Dominguinhos é pura intuição, mas é uma intuição privilegiada. Para mim, é o melhor deles, de nós todos. E ninguém toca forró nordestino melhor do que Dominguinhos.

GONZAGÃO, A VIGA MESTRA

Tive o convite para fazer a primeira peça sinfônica propriamente dita, que foi para uma instituição de caridade da então primeira dama de Pernambuco, Madalena Arraes. Foi o maestro irlandês Eugene Egan que me pediu a música. Eu disse: tá bom, agora vou fazer, mas como se trata de um evento nordestino, vou trabalhar em cima de “Asa Branca”. Aliás, foi o primeiro concertino para sanfona e orquestra que eu fiz. A estreia foi no Teatro Santa Isabel, e no ensaio geral, Gonzagão estava lá e, com lágrimas nos olhos, me agradeceu o que fiz pela “Asa Branca”. Ele disse que gostou muito do trabalho, que gostaria de ter estudado para fazer a mesma coisa, mas que ainda bem que eu estava lá para dar continuidade ao trabalho dele. Gonzagão, para mim, é a viga mestra da expansão da música nordestina no Brasil e na América do Sul.

SIVUCA ANTES DO BAIÃO

Eu, por exemplo, tocava um pouco de jazz, copiava alguns arranjos de Severino Araújo para a sanfona, mas o principal era choro. Vamos dizer assim, seria um bom sanfoneiro aquele que soubesse tocar fluentemente “Saxofone, Por Que Choras?”, de Ratinho, e “Espinha de Bacalhau”, de Severino Araújo. O repertório era bem esse. E tinha os tocadores de fole de oito baixos. Esses sim, tocavam uma música que depois resolveram chamá-la de forró. Mas havia uma diferença entre quem tocava fole de oito baixos e aqueles que tocavam o acordeon com teclado de piano.

O VISTO PERMANENTE

Em 1964, meu irmão de Recife me trouxe de volta. Voltei a trabalhar na Rádio Jornal do Commércio. Foi quando Carmem Costa me convidou para ir para os Estados Unidos. Aí aconteceu uma coisa engraçada. Em 1946, fui para Fernando de Noronha, onde existia ainda um contingente americano. Fizemos algumas apresentações e notei que um soldadinho ficava sempre me observando. Pois quando foi na hora de tirar aqui o meu visto de entrada nos Estados Unidos, o cônsul me chamou e disse: “Mr. Sivuca, vou lhe dar aqui o visto permanente porque o que o senhor fez por mim lá em Fernando de Noronha matou muito a saudade da boa música. O senhor vai sair daqui com o visto permanente em agradecimento pelo o que fez por nós lá em Fernando de Noronha”.  

ESTADOS UNIDOS

Eu cheguei nos Estados Unidos em 1964. Ia passar uns seis meses lá, mas fui ficando porque tinha um visto permanente. Conheci Miriam Makeba, com quem comecei a trabalhar, e de repente assumi a direção musical dela. Trabalhei quatro anos e meio, depois fui contratado por Harry Belafonte, com quem trabalhei seis anos, mas eu cheguei à conclusão de que, apesar de tudo, lá eu era um forasteiro, sem poder exercer aquilo que sabia fazer, que era tocar a minha música. Ainda consegui organizar um grupo, todos porto-riquenhos e alguns americanos. Fiz dois shows magníficos no Village Gate, um dos quais foi gravado ao vivo. Mas, sabe de uma coisa, eu disse: prefiro ser músico onde posso tocar a minha música. Lá, a proteção musical é um fato. Não é como aqui. Aqui, chega um gringo, faz o que quer, depois vai embora. Lá não é assim. Eu quis levar dois músicos brasileiros para uma excursão com Belafonte, e o sindicato não deixou. Tudo isso você vê que faz diferença.

FEIRA DE MANGAIO

Eu, graças a Deus, conheci Glorinha e, pronto, foi um relacionamento magnífico. E foi Glorinha que me trouxe de volta para o Brasil, materialmente e espiritualmente, porque aqui a gente trabalhou junto. Tive a sorte de lançar logo dois grandes sucessos. Inclusive o que eu reputo um dos mais importantes, que, aliás, a música, Glorinha me deu de bandeja, “Feira de Mangaio”. A primeira gravação é nossa, foi naquele disco do Seis e Meia. Quando Clara Nunes ouviu a música, ela disse: “Sivuca eu quero gravar”. Eu disse que a música já tinha sido gravada, mas ela disse que não importava. Aí Clara explodiu “Feira de Mangaio”.

MÚSICO URBANO

Eu defendo os valores, que continuem e que o músico não esqueça que existem. Mas isso não pode impedir o músico de sair tocando e criando de acordo com suas próprias convicções musicais. Ora, sou um músico urbano, se me convidam para improvisar num festival de jazz, vou improvisar tranquilamente, sem nenhum preconceito. Agora, dou umas pinceladas de temas nordestinos, que é para mostrar a minha origem.

A SANFONA

A sanfona foi um instrumento inventado na Europa para matar a solidão dos fazendeiros. Lá, como aqui, você ainda hoje vai ao interior da Europa, em toda fazenda tem um acordeon, eles tocam à noite aquelas rancheiras. Pra mim, eu entendi que era um instrumento como outro qualquer e aí resolvi estudá-lo a ferro. Quer dizer, pegar o instrumento, ler partitura e adaptar algumas músicas que eram consideradas quase impossíveis. Eu comecei com o “Vôo do Besouro”, de Rimsky-Korsakov, isso ainda na década de 1940. Foi um dos sucessos que eu tocava. Eu era, na época, o único a tocar com orquestra essa música. Independente disso, tocava música com influência jazzística, improvisava, mas só que à minha maneira. Depois, quando fui para o exterior, eu levava a sanfona como contra-peso, porque sou registrado na União dos Músicos de Nova York como guitarrista.

MILES DAVIS

O acordeon é um instrumento altamente detestado pelos americanos. Fiz uma música incidental para a NBC, quando morava em Nova York, e recebi um telegrama de Miles Davis que dizia o seguinte: “Finalmente, encontrei alguém que me fizesse as pazes com este maldito instrumento, o acordeon”. 

A IMPROVISAÇÃO

O jazz está nos Estados Unidos em 4/4. O Brasil é o único país onde sua música popular é toda em cima do 2/4. As improvisações que nós fazemos no Brasil são em 2/4. O americano tem a tendência de fazer um 4/4 como se fosse 12/8. Essa é a diferença. O brasileiro, quando toca em 2/4, ele arredonda. Isso se deve ao choro. A improvisação do brasileiro é tão boa quanto a improvisão do músico americano, vamos dizer assim.

O ROCK

De todo movimento musical, sempre sai alguma coisa aproveitável. Pra mim, o rock foi uma abominação, mas, negar a competência de um John Lennon como compositor, seria burrice. Do movimento rock pintou coisa boa como aquelas músicas modais que os Beatles cantaram, um tipo de música que eles fizeram bem. Eu só não gosto definitivamente é do rock de Elvis Presley. É a anti-música, eles fizeram aquilo pra chocar. A partir do momento que você usa a música como trejeito, ela perdeu o valor pra mim. Ele usou aquela fórmula do blues o tempo todo. Como profissional, pegou a estrada e fez sucesso, mas sucesso, nos Estados Unidos, nem sempre corresponde ao verdadeiro valor.

HOMENAGEM À VELHA GUARDA

Eu tinha 25 anos, em 1955, quando sonhei com uma música. Aí despertei, peguei um pedaço de papel e escrevi os primeiros compassos. Dois meses depois, estava gravando “Homenagem à Velha Guarda” e, provavelmente, foi a primeira vez que se gravou choro com coral, o Coral de Joab. A gravação ficou linda. E “Homenagem” ganhou as rodas de choro e hoje é um clássico. Aquilo era uma homenagem que fiz a Pixinguinha. Numa noite, na casa dele, eu disse que fiz uma homenagem a ele e toquei. Ele disse: “Meu filho, não faça isso com o coração do velho, o coração do velho não aguenta, o seu choro é muito bonito mesmo e eu agradeço de coração ser homenageado com uma melodia como essa”.

PIXINGUINHA

Olha, Pixinguinha era um dos melhores melodistas que nós conhecemos, mas, infelizmente, não teve o trato merecido. Como arranjador, ele era muito chegado a arranjo de banda de música. Tanto que ele dizia: “Meu filho, eu faço música para vocês harmonizarem”. Ele não conseguiu estudar o que a mente dele sabia. Mas considero Pixinguinha uma espécie de Duke Ellington do Brasil. Sou fã incondicional das melodias de Pixinguinha. Acho que ele criou um estilo, deu conotação definitiva ao choro.

OS DISCOS DE SIVUCA

Esse “Seis e Meia” foi uma surpresa pra mim porque foi um disco quase feito de improviso e foi considerado um dos cem grandes do século passado. Um disco não chega a um ponto desse à toa. “Forró e Frevo” foi ótimo. Fiz um disco sofisticado chamado “Cabelo de Milho”. Quando terminei, o dono da gravadora pediu um disco mais popular. Me veio logo à cabeça “Forró e Frevo”. A gente aprontou em quatro dias e foi o disco da casa que mais vendeu. “Pau Doido” já foi da nova série da Kuarup. Ficou bom. É um disco feito para uma viagem à Europa. “Enfim Solo” não saiu como eu gostaria, mas tem, por exemplo, uma música chamada “Canção que se Imaginara”, que foi a última que cantei que eu gosto. “Cada um Belisca um Pouco” foi a brincadeira minha, do Dominguinhos e do Osvaldinho com a música do Gonzagão. Foi uma festa. 

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