A Paraíba, afinal, ganha uma associação que vai cuidar da memória musical

Nesta segunda-feira (30), será realizada em João Pessoa a assembleia de fundação da Associação Memória Musical da Paraíba, a Memus-PB.

Hoje, a coluna abre espaço para uma entrevista com a professora Ana Elvira Steinbach (foto), idealizadora do projeto.

A “PARAIBANIDADE” PELO OLHAR DA ASSOCIAÇÃO MEMÓRIA MUSICAL DA PARAÍBA

Entrevista a Sheila Raposo

Ao longo dos anos, o território que, desde finais do século XVIII, é conhecido pelo nome de Paraíba, deu guarida e espaço a vozes artísticas diversas. Cada uma dessas vozes, a seu modo e a seu tempo, colaborou na tessitura do que hoje se conhece por “paraibanidade”, essa ideia do que são a Paraíba e os paraibanos. Entre os componentes dessa fórmula, a música foi (e continua sendo) um dos ativos mais fortes e midiáticos.

Baião, ciranda, forró, xote, rock, choro, rap, samba, pop, música erudita. A produção musical paraibana é polifônica, sem limites de gêneros. Nomes como Antônio Barros & Cecéu, Sivuca, Jackson do Pandeiro, Zé Ramalho, Chico César, Elba Ramalho, Lucy Alves, Parafuso, Flávio José, José Alberto Kaplan, Renata Arruda, Roberta Miranda, José de Lima Siqueira, Genival Lacerda, Geraldo Vandré, Herbert Vianna, Abdon Milanez, Bastinho Calixto, Biliu de Campina, Pinto do Acordeon, Barros de Alencar, Zé Pacheco e Bartô Galeno, entre outros, dão uma ideia da diversidade musical paraibana.

Para reverenciar e divulgar esse patrimônio, será formalmente constituída, nesta segunda-feira (30), a partir das 9h30, sob o arvoredo do Parque Parahyba II, a primeira entidade civil a se dedicar à preservação e à divulgação da música paraibana: a Associação Memória Musical da Paraíba (Memus-PB).

A seguir, uma entrevista com a idealizadora desse projeto, Ana Elvira Steinbach Silva Raposo Torres – filha da educadora e produtora cultural Márcia Steinbach Silva Kaplan e enteada do maestro José Alberto Kaplan –, para quem a entidade estreitará a relação entre história, música e identidade local.

Quando teve início a ideia para criar uma associação memorialista da música paraibana?

A minha mãe, Márcia Steinbach Silva Kaplan, faleceu no ano passado. Entre os meses de agosto e novembro, conversei com várias pessoas sobre o acervo que recebi dela, que foi casada durante mais 40 anos com o professor, maestro, compositor e escritor José Alberto Kaplan, falecido em 2009. Busquei conselhos sobre o que fazer com os guardados extraordinários que encontrei. Os primeiros a me ajudarem foram Ana Andréa de Castro, arquivista do NDHIR/UFPB, e o compositor e professor do Departamento de Música da UFPB Marcílio Onofre, que me fizeram enxergar e abraçar a dimensão e o valor daqueles documentos, que precisam ser colocados à luz para o conjunto da sociedade compreender a construção de um meio que hoje está totalmente consolidado, o meio musical da Paraíba. O legado é constituído de documentos pessoais históricos importantíssimos sobre um período longo da história da música na Paraíba, protagonizado por meu padrasto e pela geração dele, por jovens talentos que se tornaram grandes músicos. Alguns não mais entre nós, mas ainda há muitos que se lembram e podem falar, até com mais propriedade do que eu. Como não sou profissional da área de música, sou da área de Educação e Saúde, fiquei atônita, por não saber que instituição poderia receber esse acervo e ficar responsável pela sua conservação e disseminação. Conversei com vários compositores que integram o Compomus, da UFPB, e que estudaram com Kaplan, a exemplo do próprio Marcílio, do querido irmão da música Eli-Eri Moura (minha mãe e Kaplan chamavam a todos eles “os filhos da música”); com o pianista José Henrique Martins, a pianista Isabella Perazzo, outros irmãos da música com quem convivi no seio de minha família, durante as suas formações musicais, como o maestro Carlos Anísio, o arquiteto e pianista Germano Romero e a pianista Yara Borges, hoje com carreira na Suíça. Também conversei e recebi apoio de amigos e amigas queridos do casal, como a professora e compositora Ilza Nogueira, e, de forma especial, o carinho observador do amigo e parceiro de Kaplan, W.J. Solha.  A indagação sobre o que fazer, tendo em conta a vulnerabilidade e a fragilidade desse tipo de acervo, levou-nos a considerar a necessidade da criação de uma entidade para a qual pudéssemos nos dirigir e receber orientações sobre acervos, e que tivesse a missão de preservar a memória musical da Paraíba. Há uma grande lacuna na preservação da memória, tanto na Paraíba quanto no restante do Brasil.

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Qual a pretensão dessa associação?

Queremos ser de utilidade pública. Vislumbramos a sua importância para a construção da identidade, a cultura, a educação e a cidadania paraibana. É preciso saber quem são e de onde vieram esses artistas. É preciso conhecer a produção musical feita a partir da Paraíba, com a influência de pessoas que vieram de fora e que aqui se tornaram cidadãos e cidadãs por meio da música, como também o trabalho dos que por aqui passaram, e de paraibanos e paraibanas que foram para outros lugares do mundo levando a nossa música, a nossa cultura ou o que aqui aprenderam. Esse trabalho estará apoiado principalmente em atividades de organização, preservação e disseminação de acervos, sonoros ou não, e da constituição memorialista da música na Paraíba.

Quem está à frente do projeto?

Somos 35 membros fundadores. Nossa primeira diretoria será escolhida nesta segunda-feira, dia 30. Ainda estamos recebendo alguns contatos para agregar mais pessoas a esse momento inaugural. Qualquer pessoa que tenha o ofício ou a paixão pela música e o interesse comum é bem-vinda, desde que comungue dos objetivos, direitos e deveres dos associados. Este grupo está à frente dessa iniciativa. Por enquanto, eu estou na missão de organizar todas as estruturas para o nosso funcionamento. Tivemos a assistência da advogada Marília Maia, na elaboração do estatuto, e do contador Felipe Sodré, nas orientações para que a parte financeira seja bem resolvida. Ao criarmos a Associação Memória Musical da Paraíba, queremos servir à sociedade paraibana, e que a sociedade se enxergue nela e nos valores e princípios que nos norteiam, da conservação, disseminação, respeito e apreço pela arte e por sua memória coletiva.

Como a Memus-PB funcionará?

O nosso começo será virtual, por meio do nosso website, devido à covid-19. Com o controle da epidemia, abriremos a nossa sede ao público, no sítio histórico de João Pessoa. Também queremos contribuir para a revitalização daquela área, tão castigada pela poluição do intenso tráfego de carros, pela falta de valorização estética e arquitetônica e pela migração do movimento de pessoas do centro para as praias.

Ela estará aberta a qualquer pessoa que tenha um acervo particular e queira doar?

Exatamente. As famílias que tiverem um acervo podem doar de várias formas. Podem, inclusive, manter a posse dos acervos, e nós ajudaremos a torná-lo visível para toda a sociedade, salvando a memória.

Onde será instalada?

Por enquanto, a nossa instalação será com o lançamento de nosso website. O local físico é na Rua Maciel Pinheiro, 187-A, Varadouro, em João Pessoa, que somente será aberto após o fim da crise sanitária na qual o mundo está metido.

A Memus-PB terá algum apoio governamental?

É uma associação civil, sem fins lucrativos. Então, começamos com recursos privados. Qualquer indivíduo pode apoiar com doações financeiras, sejam grandes ou pequenas. Queremos o engajamento e a ação voluntária e filantrópica de toda a sociedade paraibana. Acordos e parcerias com órgãos públicos, nacionais e internacionais, poderão ser feitos, e receberemos de bom grado o apoio de qualquer órgão que assim o deseje, desde que idôneo. Podemos dizer que recebemos apoio indireto de alguns órgãos públicos, por meio do engajamento individual dos seus gestores, como o jornalista Fernando Moura, presidente da Fundação Casa de José Américo, ou o diretor do CCTA/UFPB, Ulisses Silva, entre outros. Eles veem, na iniciativa, o claro interesse público.

Qual foi a reação dos primeiros músicos contatados?

Entusiasmo intenso e emoção genuína. Formamos uma grande família, cheia de afetos e memórias. Tivemos apoio incondicional, como o que recebemos por meio de uma mensagem de Glorinha Gadelha, que luta com o acervo de nosso querido Sivuca. A luta dela, vitoriosa, também nos inspirou a lutar.