Música 8:29

Sivuca 90 anos/Aquela noite no Santa Roza confirmava a lenda

Se estivesse vivo, Sivuca faria 90 anos nesta terça-feira (26).

Ele morreu aos 76, em dezembro de 2006.

Conto hoje uma história que já contei outras vezes: a noite em que vi Sivuca ao vivo pela primeira vez.

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João Pessoa, outubro de 1974.

A placa (como um pequeno outdoor), colocada no jardim do Teatro Santa Roza, anunciava a quem passava pela Praça Pedro Américo: Domingo, Sivuca.

Radicado em Nova York há uma década, Sivuca vinha de um show no Zaire, integrando a banda de Miriam Makeba na programação musical montada para coincidir com a luta entre Muhammad Ali e George Foreman.

De passagem pela Paraíba, receberia uma homenagem do governo do Estado no palco do velho teatro. Também tocaria para seus conterrâneos.

Tinha apenas 44 anos e já era uma figura lendária.

Severino Dias de Oliveira – sanfoneiro, violonista, pianista, compositor, arranjador.

Um músico completo que chamara a atenção de todos, ouvintes e colegas de ofício, por onde passara. Dentro e fora do Brasil. Desde que, aos 15 anos, saíra da sua pequena Itabaiana para tentar a sorte no Recife.

No domingo, o Santa Roza estava lotado. Poltronas, camarotes, corredores.

Sivuca chegou ao teatro num fusca branco dirigido por Glória Gadelha, estudante concluinte de medicina, compositora, que viria a ser sua mulher por mais de três décadas.

Ovacionado pela plateia, o homenageado recebeu uma placa da Secretaria da Educação e Cultura e depois tocou.

Nada ajudava. O som precário, o calor, o excesso de público. Mas a música se sobreporia a todos os obstáculos.

Sanfona, violão, voz, temas instrumentais, canções, histórias.

A versão multinacional do frevo Vassourinhas; o standard Moonlight Serenade, da orquestra de Glenn Miller; a já clássica Adeus, Maria Fulô, da parceria com Humberto Teixeira; a novíssima Reunião de Tristeza, letra e melodia escritas em Nova York por um homem com saudade de casa – estava tudo no set list daquele recital.

Um Sivuca solo raro de se ver.

Uma noite inesquecível que confirmava a lenda.