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Como seria mundo sem Beatles? Yesterday pergunta. Tento dizer

O mundo de Yesterday é um mundo sem os Beatles.

O filme dirigido por Danny Boyle estreia nesta quinta-feira (29) nas salas brasileiras.

Nele, um apagão varre os Beatles do mapa, e só um jovem sabe que eles existiram.

Mais do que isto: o cara desponta como autor das canções que apenas ele conhece.

Como seria o mundo sem os Beatles?

Yesterday, o filme, pergunta.

Tento responder. À minha maneira.

Começo por uma grande obviedade: num mundo sem os Beatles, não teríamos as 200 e poucas canções que eles gravaram entre 1962 e 1970.

Sem o quarteto, não conheceríamos joias do cancioneiro popular como Yesterday ou Strawberry Fields Forever ou Something ou Let It Be.

Nem In My Life ou Eleanor Rigby ou A Day in the Life ou Golden Slumbers.

Nem a juventude impetuosa que há em She Loves You ou I Saw Her Standing There.

Ficaríamos privados das vozes – sobretudo – de John Lennon e Paul McCartney, as mais marcantes do quarteto.

E da assinatura Lennon & McCartney, uma das mais poderosas da música popular que o homem produziu no século XX.

Seria um mundo menos alegre, menos ousado, menos transgressor, menos livre, menos terno, menos sonhador, menos solidário. Mais careta.

Seria um mundo sem aqueles rapazes filmados em preto & branco por Richard Lester em A Hard Day’s Night.

Um mundo sem o marco chamado Sgt. Pepper.

Um mundo sem que, por causa de uma simples fotografia, uma faixa de pedestres mobiliza gente de todos os cantos do planeta há meio século.

Um mundo sem “tudo o que você precisa é amor”.

Ou: “Dê uma chance à paz”.

Um mundo em que, no Ocidente, não ouviríamos os sons de Ravi Shankar.

Nem os arranjos de George Martin.

Um mundo em que talvez não tivesse havido o encontro do rock – um negócio tão banal – com a música erudita contemporânea.

Um mundo em que seria preciso outro homem para bradar: “A guerra acabou, se você quiser”.

Ou: “O sonho acabou”.

Num mundo sem os Beatles, Joe Cocker não teria feito With a Little Help From My Friends no agora cinquentenário Woodstock.

Num mundo sem os Beatles, o que teria sido do rock psicodélico?

Num mundo sem os Beatles, o que seria dos nossos Mutantes?

Num mundo sem os Beatles, o que Rogério Duprat teria escrito para os tropicalistas brasileiros?

Num mundo sem os Beatles, para quem Milton Nascimento teria feito uma canção como Para Lennon & McCartney?

Num mundo sem os Beatles, será que o maestro Leonard Bernstein teria ficado fascinado pelo rock tanto quanto pelo jazz?

A música (como a arte) humaniza o homem.

Otto Maria Carpeaux disse isso da música erudita naquele imprescindível livro Uma Nova História da Música, que eu passo a vida relendo.

Bernstein disse algo semelhante dos Beatles quando reconheceu que a relação deles com quem os ouviu transformava aquelas canções tão simples em algo mais importante do que a música erudita do século XX.

Claro. Porque o diálogo entre criadores e ouvintes era mais produtivo, mais fértil, mais intenso, mais amoroso.

Como seria o mundo sem os Beatles?

Não sabemos porque não há mundo sem eles.

Felizmente.

Só na ficção que o cinema agora traz como mera diversão.