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Saída de Edilane Araújo encerra capítulo fundador da televisão em JP

Erialdo Pereira, nosso editor regional, uma vez me disse, lá no comecinho de 1987:

Osias, a televisão em João Pessoa será o que nós fizermos dela.

Sabedor do meu amor pelos Beatles, ele brincou com a frase (“o rock será o que nós fizermos dele”) de Lennon. É claro que Erialdo tinha senso de proporção e tão somente adaptou a fala do músico à nossa diminutíssima realidade.

Mas, ao afirmar que a televisão em João Pessoa seria o que nós fizéssemos dela, ele chamava minha atenção para a importância daquele momento que vivíamos e para a responsabilidade que tínhamos nas mãos.

O anúncio de que Edilane Araújo está deixando o vídeo me faz pensar naquele tempo de 32 anos atrás. Na tela da TV Cabo Branco, ela é a última remanescente do grupo fundador da televisão em João Pessoa.

O que foi feito, o que se construíu, o que ficou estabelecido como cânone – tudo vem daquela equipe que pôs a emissora no ar e a fez crescer.

À frente do telejornal de maior audiência da televisão paraibana, entrando nas casas de milhares de pessoas todas as noites e “conversando” com elas, Edilane se transformou num ícone, num símbolo, num verdadeiro marco de competência e credibilidade.

O legado do que foi sedimentado ao longo dos anos encontrou nela a sua melhor tradução.

Quem mais tarde fez televisão como se estivesse fazendo rádio popular, seguiu outro caminho, bastante diferente do nosso. E muito menos crível.

O jornalismo no qual críamos era rigoroso com alguns parâmetros que foram caindo em desuso desde que o terremoto digital mudou a vida do homem do século XXI.

Vinda do teatro e do rádio, Edilane chegou muito cedo à TV (tinha apenas 22 anos). Sempre penso que o estúdio passou a ser o seu palco. Como Arnaldo Jabor, que, ao deixar de dirigir filmes, disse que seu cinema eram os comentários que fazia na televisão.

Edilane Araújo foi difusora da informação correta, precisa, bem checada. O inverso do que temos hoje na era das notícias falsas, que contaminam não apenas os não jornalistas soltos nas redes sociais, mas também jornalistas e até veículos de comunicação.

A âncora do telejornal noturno da TV Cabo Branco sai do ar num instante em que não se sabe como será o futuro da televisão. Nem do jornalismo.

Descobrir e pô-lo em prática não são mais nossos desafios. Nos próximos anos, com erros e acertos, os garotos e garotas que estão chegando às redações vão cuidar disso.

Da geração de Edilane, os que quiserem ainda permanecerão conectados, ligados nas transformações, atentos aos sinais. Ela própria, ao cuidar agora de uma gerência de qualidade na Rede Paraíba de Comunicação. Mas – como na bela canção de Milton Nascimento – nada (nunca mais) será como antes.