Cinema 6:19

DVDs com filmes de Glauber voltam ao mercado em setembro

Nesta quarta-feira (22), aniversário da morte de Glauber Rocha (são 37 anos), tenho uma boa notícia para os admiradores do grande cineasta brasileiro.

Em setembro, a Versátil vai repor no mercado cinco DVDs duplos com filmes de Glauber.

Em cópias avulsas, serão relançados Barravento (o primeiro longa), Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (os três mais importantes) e A Idade da Terra (o último trabalho).

Ao mesmo tempo, num box, serão acondicionado todos esses, à exceção de Deus e o Diabo na Terra do Sol.

São cópias restauradas em edições cheias de material extra.

Já que o assunto é Glauber, fiquem com esse texto primoroso do crítico Antônio Barreto Neto, retirado do livro Cinema por Escrito.

GLAUBER, UM GUERRILHEIRO DE CÂMERA NA MÃO

Por Antônio Barreto Neto

Polêmico, anárquico, violento, delirante, agressivo, o cinema de Glauber Rocha foge radicalmente dos códigos e normas usuais da narrativa cinematográfica. Esta é a primeira dificuldade que o espectador comum, viciado pela linguagem padronizada do cinema importado, enfrenta diante de seus filmes. Infatigável, demolidor de estruturas – como Godard, um de seus modelos – Glauber desarticulou o signo fílmico, libertando a imagem cinematográfica dos liames literários e teatrais, instaurando uma linguagem nova, mais adequada à expressão do universo de pobreza e miséria do chamado Terceiro Mundo, que representa uma das maiores perspectivas de transformação social da História contemporânea.

Essa práxis cinematográfica desmistificou o realismo enquanto reconstituição fiel do real, promovendo a dissociação entre a realidade do Terceiro Mundo e suas aparências institucionais para denunciar as formas de alienação do povo e os mecanismos de opressão do poder – uma coisa se alimentando de outra e vice-versa, no ciclo fechado de miséria social e atraso cultural. Para Glauber, as relações entre a ficção e a realidade que a inspira devem ser dialéticas mais do que imediatas e precisas. Por isso, Corisco, o cangaceiro de Deus e o Diabo na Terra do Sol, embora sendo um personagem real, não se comporta no filme exatamente como seu modelo, mas como um símbolo dinâmico, uma ideia em movimento.

Síntese de antíteses aparentemente inconciliáveis, o cinema de Glauber Rocha compreende duas vertentes básicas: a mitologia popular e a consciência social. Seus filmes mergulham fundo no subsolo das mitologias do Terceiro Mundo, nas quais se integram os arquétipos da realidade brasileira. Glauber seleciona as combinações possíveis desses discursos míticos, erigindo os fragmentos do real captados pela câmera à condição superior de signos representativos do universo cultural terceiromundista, através dos quais denuncia as lei e axiomas sociais de que são corolários aqueles mitos. Daí a torrente de alegorias, metáforas e símbolos em que se articula sua antinarrativa demolidora e tangencial.

Esse cinema fenomenológico, analítico, feito de ideias em movimento constante e dialético, exprime o conflito de uma personalidade inquieta e rebelde com a realidade que o cerca. O sentimento desse conflito é dado, em termos de encenação, pelo comportamento dos personagens, sempre em luta constante com o meio em que se agitam. No cinema de Glauber, a reflexão do autor está no interior do plano, é um elemento substancial de sua arquitetura cênica. E a ação dos personagens torna-se função dessa reflexão. No cinema de Glauber, o temperamento do autor e a personalidade da obra se confundem na mesma força telúrica, no mesmo vigor lírico, no mesmo grito de revolta e inconformismo. Glauber foi um guerrilheiro de câmera em punho. (13/09/1981)