Música 7:10

Chico Buarque podia ter parado jovem e já era um gigante

Chico Buarque lança seu novo disco nesta sexta-feira (25). O primeiro de inéditas desde 2011.

Caravanas é disco físico num momento em que os discos físicos estão acabando.

Enquanto o CD não chega às nossas mãos, vou fazer um exercício que já fiz outras vezes. Só para mostrar que Chico, se tivesse parado bem jovem, já era um gigante da música popular do Brasil.

Vamos à quantidade de grandes músicas que ele gravou entre os 22 e os 24 anos, em apenas três discos. Naquela época, era muito comum o disco ter o nome do artista. Chico Buarque de Hollanda volume 1 (1966), Chico Buarque de Hollanda volume 2 (1967) e Chico Buarque de Hollanda volume 3 (1968). Os três, lançados pela RGE em plena era dos festivais.

Vale a pena enumerar: A Banda, Tem Mais Samba, A Rita, Madalena Foi pro Mar, Pedro Pedreiro, Olê, Olá, Meu Refrão, Sonho de um Carnaval, Noite dos Mascarados, Com Açucar, com Afeto, Quem te Viu, Quem te Vê, Morena dos Olhos D’Água, Ela Desatinou, Retrato em Branco e Preto, Januária, Carolina, Roda Viva, Até Pensei, Sem Fantasia, Até Segunda-Feira, Funeral de um Lavrador. Somemos a estas Sabiá, que é de 1968, mas não está no disco daquele ano. São 22 músicas. Todas gravadas entre os 22 e os 24 anos. Ali, seu legado já era um songbook extraordinário, à altura dos maiores clássicos do nosso cancioneiro popular.

Se estendermos a lista até 1970, quando troca a RGE pela Philips e grava o último disco usando o Hollanda no nome artístico (Chico Buarque de Hollanda volume 4), acrescentaremos, então, Essa Moça Tá Diferente, Agora Falando Sério, Gente Humilde, Rosa dos Ventos, Samba e Amor, Pois É. E, claro, há o compacto de 1969, ainda pela RGE, com Umas e Outras. Entre 1966 e 1970, dos 22 aos 26 anos, em quatro discos, 29 músicas absolutamente antológicas.

Em 1971, passa a assinar apenas Chico Buarque. O bigode na capa do disco tira um pouco o ar de bom moço. Os sons o aproximam da linha evolutiva proposta pelos tropicalistas. Sobretudo na faixa Construção, arranjada pelo mesmo Rogério Duprat dos discos de Caetano, Gil, Gal e Mutantes. Construção é uma obra-prima. Um samba lento que vai crescendo até o desfecho. Os versos finalizados sempre com proparoxítonas que, na segunda e na última parte, são trocadas de lugar, gerando imagens absurdas, delirantes, inacreditáveis. O disco Construção pode ser o melhor de Chico. Deus lhe Pague, Cotidiano, Desalento, Cordão, Olha Maria, Samba de Orly, Valsinha, Minha História. Parece uma coletânea.