Para todas! 17:37

Os direitos da mulher com deficiência

Quero abrir esse espaço para dar visibilidade às mulheres com deficiência, falar de seus direitos, de suas dificuldades, e suas conquistas.

Apesar de existir a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, que garante os direitos e liberdades fundamentais às pessoas com deficiência, sabemos que na prática não funciona na sua plenitude. O descaso e o preconceito ainda são muito presentes. Não falo somente por parte das autoridades, mas principalmente da população em geral.

Como mãe de uma mulher com deficiência, Roberta, que hoje tem 30 anos e tem o diagnóstico desde o nascimento de paralisia cerebral, tenho sentido na pele as dificuldades de oferecer para ela educação e inclusão no meio social.

 

 

Roberta em 2006

 

O preconceito com a pessoa com deficiência começa em casa, onde os próprios familiares querem negar a existência desse ser humano. Me lembro dos desafios enfrentados por Roberta quando ainda criança… As escolas infantis, ao saber que se tratava de uma criança especial, alegavam que a infraestrutura da escola não comportava a criança com aquelas necessidades, mesmo eu sempre garantindo que Roberta teria uma acompanhante. E isso infelizmente era a realidade de muitas escolas, pelo menos do âmbito da cidade de João Pessoa-PB.

Descobri que essa rejeição à aluna vinha da rejeição dos próprios pais das crianças “normais”, e que os pais não gostariam de ter seus filhos numa classe com uma criança diferente.

Era um verdadeiro desespero bater na porta das escolas e ouvir um “não” disfarçado de desculpas. Até que finalmente o Colégio Geo recebeu Roberta sem nenhum questionamento, uma verdadeira inclusão. Foi onde ela conseguiu se alfabetizar, concluiu o ensino fundamental, foi estimulada ao supletivo e finalmente conseguiu entrar na faculdade de Psicologia.

Infelizmente ela não conseguiu seguir adiante na faculdade em que ingressou devido à falta de acessibilidade humana e física, por isso decidimos transferi-la para uma faculdade que a incluísse.

E em busca desse lugar humano, encontramos a Faculdade Maurício de Nassau que, assim como o Geo, recebeu a aluna com deficiência como uma pessoa que tem potencial e vem cumprindo o seu papel de formadora de cidadãos. E, se Deus quiser, daqui a dois semestres teremos uma nova psicóloga, com um diploma merecido pelo seu esforço e pelo compromisso de inclusão que a Nassau, através de sua coordenação de psicologia e seus professores, têm para com seus alunos.

Quanto ao direito à saúde, os desafios também são imensos. Para Roberta, o fato de eu ser médica foi um “facilitador”, mas não posso deixar de me sensibilizar com as mulheres que não têm essa “sorte”.

Por exemplo: nos postos de saúde, assim como em muitos serviços da rede privada, falta o principal, que é o direito à acessibilidade. Às vezes até tem o banheiro acessível e a porta que passa uma cadeira de rodas, mas falta acessibilidade humana.

Essa falta de sensibilidade por parte dos profissionais de saúde vem da ignorância e falta de preparo para atender esse público (que não é pequeno).

Muitas mulheres com deficiência se privam de realizar seu exame preventivo anual por medo da forma que podem ser tratadas.

É difícil encontrar um profissional que tenha boa vontade de atender de forma diferenciada, escutar a paciente, deixá-la falar de sua sexualidade, oferecer um método contraceptivo e realizar um pré-natal bem orientado.

Por exemplo, quando se vai fazer um exame ginecológico numa mulher deficiente visual, o simples fato de entregar em suas mãos o espéculo e explicar que é o aparelho que será introduzido no seu canal vaginal, isso já faz toda a diferença.

Ter um profissional em libras para se comunicar com a mulher surda, assim como ter uma mesa ginecológica que a mulher cadeirante ou muletante possam fazer seu exame, não é pedir muito de um serviço de saúde. No atendimento à mulher com síndrome de down e à mulher autista, que geralmente vêm com acompanhante, é muito importante o profissional de saúde buscar saber qual a queixa e os limites da realização do exame físico nessa mulher.

A reflexão que deixo é que qualquer um de nós podemos nos tornar uma pessoa com deficiência, portanto a EMPATIA pela pessoa com deficiência é uma habilidade que precisa ser desenvolvida a cada dia.

 

Roberta atualmente (com 30 anos)

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