Opinião 12:03

O colapso já chegou para parentes de quem morreu à espera de um leito de UTI em João Pessoa

Por LAERTE CERQUEIRA e ANGÉLICA NUNES

Divulgação/Secom-JP

Autoridades estaduais e da capital paraibana não afirmam, com todas as letras, que os sistema de saúde colapsou. É sempre: “estamos no limite”. A capacidade de abrir leitos seria a condição para chamar esse momento de pré-colapso e não de colapso. E leitos ainda estão sendo abertos.

Mas, se mais de 50 pessoas estão numa fila de espera, para se internar numa UTI, em que estágio da crise estamos?

Para parentes de quem morreu à espera de um leito de UTI, em João Pessoa, o colapso chegou.

Quem vai tirar da cabeça de Cristina Antero, irmã de Rosângela Antero, de 45 anos, que morreu na Upa do Valentina, em João Pessoa, ontem, após seis dias esperando transferência, que o fim da irmã não foi por causa do colapso no sistema? E Rosângela nem estava aguardando um leito Covid.

Na manhã desta quarta-feira (17), na Upa dos Bancários, um paciente com Covid-19 conseguiu uma vaga em uma UTI no hospital Frei Damião. Mas, segundo a família, a transferência não poderia ser feita porque a ambulância não tinha oxigênio. A gestão municipal já está acompanhando o problema, mas até o fechamento deste texto ele esperava uma solução, intubado, e em estado grave.

Também, hoje de manhã, outra notícia que preocupa: a Upa Oceania, em Manaíra, já estava com 100% de ocupação e não poderia atender mais ninguém. Conseguiram abrir espaço, mas as UPas da cidade, porta de entrada, estão lotadas.

>>Ocupação de leitos UTI Covid passa de 90% em João Pessoa e no Sertão da Paraíba

O que preocupa? O número de pessoas contaminadas não para de crescer, mesmo com as últimas medidas restritivas. Os boletins trazem recordes de mortes diárias, os leitos abertos não estão dando conta.

Em alguns locais, já não têm mais bombas de infusão, equipamento que fazem a administração dos medicamentos no paciente. A empresa que fornece oxigênio fala em racionamento na região Nordeste. 

Pode não ser colapso para as autoridades, que têm receio de usar o termo e causar pânico. Ou para evitar que alguém ligue à incompetência. Porém, a realidade por trás dos discursos oficiais parece mais dura. Por isso, alguns eufemismos podem evitar um alerta necessário à população: você pode morrer sem atendimento adequado nos hospitais. Seja por falta de leito, por falta de atenção de profissionais, de oxigênio ou de insumos que demoraram a chegar.

É hora de algumas autoridades agirem com mais transparência e com atitudes que o momento exige.

Vou usar as palavras do colega João Paulo Medeiros: Saúde da Paraíba chegou ao “limite” e se não houver ação coletiva assistiremos a uma carnificina. 

Mensagem

Ao Conversa Política, hoje de manhã, uma profissional da saúde que trabalha na capital, da linha de frente, falou sobre o momento que estamos vivendo:

“Um caos. Estão abrindo leitos de todo jeito, não tem bomba de infusão e as medicações estão sendo administradas por microgotas. Absurdo. Eles ficam enganando a população”, desabafou.

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