Literatura, Livro

Carol Bensimon fala sobre novo livro

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Carol Bensimon: “Escrever um romance não é algo exatamente tranquilo” (Foto: Roberta Sant’Anna/Divulgação)

A escritora Carol Bensimon conversou com a gente sobre o seu segundo romance, Todos Nós Adorávamos Caubóis (Cia. das Letras, 192 páginas, R$ 37,00). A matéria você lê na edição do Jornal da Paraíba de hoje. Confira a entrevista, na íntegra:

Em época de bandeiras e militância, você se sentiria à vontade em ter seu livro acolhido como uma espécie de documento de um tempo em que a relação entre duas mulheres deve ser tratado literariamente sem grandes grilos?

Sim, me sinto totalmente à vontade. Na verdade, as pessoas podem fazer o que quiserem com o livro, eles não me pertence mais, mas é claro que eu escrevi esse romance motivada por uma série de coisas, e uma delas era a vontade de retratar essa sexualidade feminina volátil, que é uma coisa muito contemporânea. É muito comum, ou melhor, tornou-se muito comum, garotas terem experiências amorosas e sexuais com outras garotas e, aí talvez eu discorde de você, isso não necessariamente significa levantar bandeiras e engajar-se numa luta por direitos gays.
Dez anos atrás, eu acho que esse seria um livro sobre “como é difícil e doloroso gostar de alguém do mesmo sexo”, mas esse definitivamente não é o caso do “Todos nós adorávamos caubóis” de 2013, ou ao menos eu não o enxergo assim.  Ao mesmo tempo, é óbvio que a história de Cora e Julia só é tão confusa e carregada de tensão sexual porque lidar com esse desejo tem lá sua dificuldade para ambas as personagens.

Seus dois livros anteriores me parecem mais trágicos que este, que pelo menos imediatamente não parte de uma premissa traumática (apesar do trauma depois revelado de uma das personagens). Isso te deu maior leveza na hora de escrever ou cada projeto tem sua carga de tensão “indesviável”?

Nunca há uma leveza total, porque, ao menos para mim, escrever um romance não é algo exatamente tranquilo. E estou falando do sentimento que vem do processo em si, que é longo, inseguro, estressante, e não da temática da obra em construção. Feita essa ressalva, bem, é claro que, além de me incomodar um bocado, eu também me diverti escrevendo esse romance. Ele é bem mais luminoso que meus livros anteriores, as personagens me cativaram muito à medida que foram se tornando mais complexas, e havia essa porção de lugares interessantes a explorar. Então acredito que sim, em alguns momentos eu consegui me desviar do aspecto “trabalho pesado” e fui tomada por uma espécie de sentimento de potência, de liberdade, muito semelhante ao que essas narrativas envolvendo deslocamentos aleatórios costumam me causar como leitora ou espectadora.

Como nasceu o “Todos nós adorávamos caubóis”? Você pensou primeiro na forma ou no enredo do romance?

É difícil dissociar uma coisa da outra, e mais difícil ainda pensar em uma “linha do tempo” do processo criativo. Um esboço da Cora, personagem-narradora, surgiu quando eu estava morando em Paris. Depois veio a ideia de inseri-la em uma viagem pelo interior do Rio Grande do Sul. Os detalhes da trama, assim como os temas do livro, foram surgindo a partir daí. Mas eu realmente só pude sentar e escrever depois de visitar todas as cidades pelas quais as personagens passam.

Você divulgou uma espécie de tracklist do romance no teu perfil no Facebook. A música que paira na tua obra também paira no teu processo criativo?

De certa forma, sim. Quando não estou conseguindo avançar na escrita, é bem comum eu colocar os fones de ouvido e ficar olhando para uma paisagem qualquer, meio neutra. Isso me ajuda a entrar na história. Não pode ser qualquer música, claro, mas algo que faça sentido “colar” àquela narrativa. Mas, no momento da escrita propriamente dita, de ficar mexendo em palavras, construindo frases com um certo ritmo, etc, ouvir música me atrapalha. Sobretudo se tiver letra.

Recentemente, o Vinícius Jatobá afirmou que a literatura brasileira feita por mulheres no Brasil, hoje, está bem além da literatura brasileira feita por seus pares masculinos. Você concorda?

Achei muito corajoso o que o Jatobá escreveu nesse artigo para a revista britânico Litro, pois, até onde eu sei, ninguém ousou afirmar isso antes. Como mulher e escritora, óbvio que simpatizo com a ideia. Mas, falando sério, não posso emitir uma opinião razoavelmente embasada porque ainda não li a maioria das mulheres que o Jatobá cita, como Elvira Vigna, Andrea Del Fuego, Beatriz Bracher. Espero fazer isso em breve.

Já tem alguma ideia do que virá depois de “Caubóis”?

Uma muitíssimo vaga ideia. De qualquer maneira, talvez eu toque alguns outros projetos antes de entrar no próximo romance.