Júnior Cordeiro, o homem da capa preta

Júnior Cordeiro- Foto por Flávio Petrônio (1)

Júnior Cordeiro lê ‘O Livro de São Cipriano’, base de seu novo CD (Flávio Petrônio/divulgação)

Nascido em São João do Cariri, município próximo a Campina Grande (PB), o cantor e compositor Júnior Cordeiro despertou interesse pela magia popular ainda na adolescência. Grimórios e, principalmente, o Livro de São Cipriano – o famoso “livro da capa preta” alimentaram suas idéias, que desaguaram no ótimo Capa Preta, lançado em 2013 na Paraíba.

Nesta sexta-feira (14), no Teatro Municipal Severino Cabral, em Campina Grande, cidade para onde se mudou, se formando em História e dando aulas, ele grava o primeiro DVD de sua carreira, focado nesse Capa Preta, mas sem esquecer de seus dois discos anteriores.

No palco, Cordeiro conta com boa parte do músico que o acompanhou em estúdio – Kamillo Lima (bateria), Maxwenio Dias (baixo), Giordano Frag (guitarra), Moisés Freire (guitarra e viola),  Cris Lima (sanfona) e Edmilson Santos e Sandrinho Dupan (percussão) – que o ajudam a moldar seu som, uma mistura de Ave Sangria, Alceu Valença e a banda de metal Black Sabbath. O show começa às 20 horas e tem direção musical de Júnior e Moisés Freire, e direção artística dele com Flávio Petrônio. Os ingressos custam R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia).

A seguir, a entrevista que eu fiz com ele, esta semana, por e-mail, sobre o disco e o show, na íntegra:

JP – Como surgiu seu interesse por ocultismo e misticismo?

JÚNIOR CORDEIRO – Meu interesse por ocultismo surgiu ainda na adolescência, quando entrei em contato com a magia popular, sobretudo por meio do Livro de São Cipriano e alguns grimórios medievais (textos dobre magia, lançados séculos atrás). Depois, na faculdade, li sobre goethia e magia moderna, entre outros escritos. Sobre o misticismo, sou místico por natureza (risos). Adoro tudo que remeta ao transcendente, ao sobrenatural. Sou vidrado em catolicismo rústico e sertanejo, que é a manifestação mais mística que eu conheço no meio popular.

JP – Quantos livros tem sua biblioteca especializada? Quais os mais importantes?

JC– Não tenho biblioteca especializada no assunto, mas li sobre (os ocultistas) Crowley (Aleister Crowley), Francis Barret e outros. Mas não acho que o meu disco enverede por esse ocultismo “intelectualizado”. A base do Capa Preta é a magia e a feitiçaria populares, sobretudo de grimórios famosos, como os de São Cipriano.

Capa do Capa PretaJP – Você, mexendo com temas assim, tem medo que o disco se torne “maldito”? Ou será que ele é “maldito” por natureza, ou um “maldito” devidamente planejado (risos)?

JC – Não tenho medo que o disco se torne “maldito”. Até quero isso (risos). Entretanto, quero mesmo é que o meu disco se torne uma referência no tema, por ter abordado abertamente e feito claramente citações sobre magias populares bem difundidas, que muita gente faz mas tem medo de declarar. Não me importo que o disco fique estereotipado, quero é isso mesmo. Gosto de discos temáticos que mexam com a imaginação das pessoas. Se isso não acontecer, ficarei muito insatisfeito com minha obra. Sobre o que colocaste na pergunta, o Capa Preta é “maldito” das duas maneiras: por natureza e planejado (risos). Na verdade, acho mesmo o Capa Preta um disco “bendito”, pois versa sempre sobre a vitória do bem sobre o mal. É bem dualístico, como São Cipriano – bruxo e santo -, e almeja apresentar as duas faces  – bem e mal – na natureza humana, mas com a vitória do bem, é claro. Essa visão maniqueísta é bem explícita no disco.

JP – Como foi a composição do disco? Você ja tinha em mente fazer um álbum sobre o tema?

JC – Eu já tinha a idéia desse disco há um bom tempo, desde que li o “capa preta” de São Cipriano inteiro. E as canções me vieram quase que de uma só vez: como num passe de magia (risos). Tem gente que pensa que fiz um pacto com o demônio para escrever as músicas, e eu morro de rir com isso (mais risos). Bem, pelo menos estou mexendo com a imaginação das pessoas, né?? Minha proposta está funcionando. Só preciso agora de um bom marketing e de um empresário competente para fazer shows e bruxarias por aí.

JP – O repertório do CD mescla composições antigas e novas ou é completamente inédito?

JC – O repertório é completamente inédito. Fiz o Capa Preta de uma só vez: letras, músicas e arranjos.

JP – Quanto tempo você levou em estúdio para concluir o disco? Ele tem arranjos complexos e a participação de muita gente, né?

JC – Levei quase oito meses para gravar o Capa Preta inteiro, e eu mesmo que produzi, em parceria com Moisés Freire, um conhecido músico campinense, e muito competente. A maioria dos arranjos é minha, mas todos os músicos que participaram tiveram liberdade para acrescentar suas idéias.

JP – Esteticamente, o disco apresenta influências de rock pesado (Black Sabbath???!!!), rock progressivo e também Zé Ramalho (vide ‘Alma nua’), Alceu Valença (‘Caucasiana dos trópicos’), Ave Sangria etc.. São estas referências mesmo?

JC – Você é muito bom de identificar influências musicais (risos). São essas mesmas, sobretudo Black Sabbath, rock progressivo e Ave Sangria. Só esqueceu dos violeiros repentistas. Faço várias citações à cantoria de viola, sobretudo em ‘Galope à Beira-Rio’, que foi uma bolação minha em cima do galope à beira-mar. Não tenho receio em falar em influências. Contudo, o que eu acho que é totalmente diferente em mim é a poética e o universo temático, nisso eu não tenho influência de ninguém! Graças a Deus.

JP – Você encara ‘Capa Preta’ como um disco temático?

JC – O Capa Preta é sim um disco temático, e muito temático, “tematiquíssimo”. Meu segundo disco (O Lago Misterioso) também é temático. Só gosto de discos temáticos. Compreendo o disco como um livro, com introdução, desenvolvimento e conclusão. Não gosto de obras com canções aleatórias.

JP – Ainda assim, você consegue dar umas escapulidas do tema, como no xote ‘O jeito com que mexes nos cabelos’, ‘Caucasiana dos trópicos’ e ‘Desaprumado’, não é verdade? Ou há misticismos ocultos nessa música também? (risos)

JC – É verdade, em algumas canções, sobretudo de poética lírica, eu dou uma amenizada no tema. Porém, faço citações em palavras. Por exemplo, em ‘O jeito com que mexes nos cabelos’, eu coloquei a palavra “oculto” em um verso, que cita também o fogo corredor, antigo mito sertanejo.

JP – ‘Cipriano “O FeitiSanto”’ tem sampler de uma conversa entre Chico Malaquias e Toinha Vidal. Onde ocorreu esse diálogo? É de algum filme? E quem são essas pessoas?

JC – Não é de filme não, são pessoas do meu convívio, extremamente católicas e de um misticismo ímpar. Chico Malaquias é o meu beato particular( risos). Foi ele quem fechou o meu corpo (risos). É lá do velho São João do Cariri, minha terra, de onde eu tiro todo o meu misticismo. Toinha Vidal é uma rezadeira da cidade vizinha de Serra Branca.

JP Este é o seu primeiro DVD?

JC – É o meu primeiro DVD, que irá contar com canções também dos outros 2 discos.

JP – Você pensa em lançar uma edição CD+DVD?

JC – Por enquanto, só em formato DVD. Posteriormente, quem sabe…

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