“Henfil está fazendo falta”, diz o amigo e cartunista Jal, em depoimento exclusivo

Ideia de Henfil, o boneco do Teotônio Vilela, o 'Sr. Diretas', foi capa em vários veículos de comunicação em 1984 (Foto: arquivo)

Ideia de Henfil, boneco do Teotônio Vilela, o ‘Sr. Diretas’, foi capa de vários veículos de comunicação em 1984 (Foto: arquivo)

Nesta quarta-feira (5), Henfil completaria 70 anos. O Vida & Arte falou com José Alberto Lovetro, o Jal, amigo pessoal e presidente da Associação dos Cartunistas do Brasil (ACB), que relembra uma história curiosa sobre um momento chave do país: as Diretas Já.

Acompanhe abaixo o relato na íntegra:

“Henfil está fazendo falta ao país. Além de um dos maiores humoristas, ele instigava aos brasileiros a reagirem aos desmandos do poder.

Tive a honra de ser amigo do Henfil quando ele morou em São Paulo. Eram os anos 80 e Henfil viajava com o ex-senador Teotônio Vilela pelo Brasil na campanha nacionalista. Teotônio já estava muito desgastado pelo tratamento contra o câncer e logo faleceu.

A campanha pela volta do voto direto para presidente começava e ele criou o nome Diretas Já para o movimento. Estávamos começando a organizar os desenhistas em uma nova associação junto ao sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Resolvemos então como classe de artistas do traço participar ativamente da campanha.

Henfil nos alertou de que fazer bonecos caricaturados de Maluf, Figueiredo e Delfim com roupas de presidiário como outros fizeram, sempre terminava com a destruição dos bonecos pelos populares. Dizia ele que não era por conta apenas de malhar o ‘judas’, mas também porque os bonecos gigantes ficavam na frente deles, que queriam ver a Fafá de Belém cantar e os artistas falarem.

Ele sugeriu que fizéssemos o boneco do Teotônio em homenagem ao ‘Sr. Diretas’. Levamos essa ideia para a suprapartidária que cuidava da organização do comício que haveria no Anhangabaú (que foi o maior de todos). Gostaram tanto da ideia que disseram que então puxaríamos a passeata do largo São Francisco até o Anhangabaú. Detalhe: a reunião foi na sexta-feira e o comício seria já na segunda-feira.

Na época não haviam lojas e supermercados abertos de fim de semana. Apenas farmácias de plantão. Conseguimos que a Escola Pérola Negra nos cedesse o galpão com algumas peças de isopor e uma base de ferro para construirmos o boneco. Bandagens compradas em farmácias e tecido cedidos por costureiras para a roupa e conseguimos finalizá-lo com cerca de 4,5 m de altura. Saímos na frente daquela fila de personalidades, Ulisses Guimarães, Tancredo Neves, Osmar Santos, Fafá de Belém, Franco Montoro, entre outros. Cada cartunista levou seu cartum em cartazes ao lado do boneco na que foi a primeira participação de nossa classe em campanha popular nos Brasil. As pessoas reverenciavam o boneco e ele participou ativamente da campanha.

Os filhos de Teotônio pediram para que ele fosse levado para participar da campanha em Brasília. O que aconteceu com sucesso também. Fomos noticiados com o boneco até em veículos internacionais.

Hoje o boneco está no memorial ao Teotônio Vilela, em Alagoas, sob os cuidados de sua filha Janice Vilela.

Por isso lembrar essa personalidade que se foi tão cedo, é lembrar o quanto temos que ser brasileiros. Henfil estaria nesse momento criticando as atuais manifestações que, ao contrário das Diretas Já, acabam em violência que afasta famílias, crianças e velhos das ruas.

Henfil faz falta em nosso país”.

José Alberto Lovetro, o Jal

 No Jornal da Paraíba de hoje veja matéria com Ivan de Souza, filho de Henfil e presidente do instituto que leva o nome do cartunista, Jal e Henrique Magalhães, criador da gibiteca paraibana que foi batizada como homenagem ao cartunista mineiro. A caricatura na capa é de William Medeiros:

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