Obra marcada para viver

Audaci Junior (E) e Bertrand Lira (D) durante entrevista com Eduardo Coutinho (C) / Foto: arquivo pessoal

Audaci Junior (E) e Bertrand Lira (D) durante entrevista com Eduardo Coutinho (C) / Foto: arquivo pessoal

No final de janeiro do ano passado, soube através do cineasta paraibano Bertrand Lira que Eduardo Coutinho estava vindo à Paraíba para gravar os extras para o DVD da cópia restaurada de Cabra Marcado para Morrer, seu principal documentário.
Lembro que o realizador paulistano não veio para o Fest Aruanda de 2005, quando foi exibido O Fim e O Princípio. Ele terminou gravando um depoimento pedindo desculpas…
Quando soube da sua morte trágica, no último domingo, dia 2, resgatei a página no meu perfil do Facebook, que teve em apenas 24h mais de 135 compartilhamentos (um deles, do cineasta pernambucano Kléber Mendonça Filho, de O Som ao Redor) e mais de 100 “curtidas”…
Engraçado isso, já que era uma manchete de um ano atrás, onde recebeu apenas um compartilhamento e meia dúzia de “curtidas” em um domingo qualquer do começo de fevereiro de 2013…
Para quem não leu, segue abaixo o texto da matéria na íntegra, que saiu há exatamente um ano, no caderno Vida & Arte do Jornal da Paraíba:
(Será uma forma de dizer: “Obrigado e adeus, mestre!”)

 

Obra marcada para viver
Eduardo Coutinho fala com exclusividade sobre sua passagem pela Paraíba, onde filmou os extras do clássico ‘Cabra Marcado para Morrer’

 
“Eu me interesso pela vida das pessoas”. Essa afirmação sintetiza toda a obra de um dos mais importantes e respeitados documentaristas do Brasil, Eduardo Coutinho, que esteve no início da semana em João Pessoa para complementar um de seus mais famosos filmes, o clássico Cabra Marcado para Morrer (1984).
No alto de seus 79 anos, o cineasta paulistano recebeu a reportagem do JORNAL DA PARAÍBA na varanda do restaurante do hotel onde estava hospedado com sua equipe, na orla do Cabo Branco. Indagado sobre se está acompanhando os novos talentos cinematográficos do país, ele prontamente brinca: “Eu não assisto filmes. Só fumo”. Fazendo jus a sua afirmação, entre um cigarro e outro, ele nos conta as novidades sobre a versão em DVD do documentário, que foi restaurado recentemente.
Essa cópia inédita do longa-metragem passará na abertura da 3ª Mostra Noite de Estreia, dia 15 de fevereiro, no Box Cinépolis, na capital paraibana.
“Comecei a filmar quinta-feira (dia 24), no Rio de Janeiro, na comunidade Ramos, com duas filhas da Elizabeth, depois aqui com ela e os filhos que fizeram os filmes de 64 e 81 e fora isso dois sobreviventes de Galileia”, resume o diretor, que está colhendo depoimento de personagens para a seção de extras do novo DVD.
Cabra Marcado para Morrer nasceu da vontade do então jovem cineasta de contar a história do líder sindical paraibano João Pedro Teixeira, assassinado por latifundiários em 1962. Dois anos depois, Coutinho convidou a viúva, Elizabeth Teixeira, para protagonizar uma ficção sobre a luta do seu marido pelos direitos trabalhistas e por uma melhor qualidade de vida no campo.
Impossível de realizar as filmagens em Sapé, na Zona da Mata paraibana, por motivo de conflitos na região entre policiais e trabalhadores, o filme começou a ser rodado no Engenho da Galileia, em Pernambuco. Mas o golpe militar interrompe as filmagens: parte do equipamento foi apreendido, a equipe se transformou em fugitivos (entre eles, o documentarista paraibano Vladimir Carvalho, assistente de direção na época) e Elizabeth entrou na clandestinidade.
Com um hiato de 17 anos, em 1981, logo após a abertura pela anistia durante o governo de Figueiredo, Coutinho parte com sua equipe em busca dos camponeses que foram atores em Galileia e do paradeiro de Elizabeth Teixeira. Cabra Marcado… se transforma em um documentário. Os sofrimentos e a luta da viúva para preservar o legado de João Pedro são descortinados durante o filme, um marco do gênero.
“Não tem essa de ser original, não. Você vai e vê o que acontece”, atesta Coutinho. “Começar o filme e não terminar foi um fantasma pra mim! Eu tinha um interesse pessoal em fazer. Você fica envolvido até acabar”.
Apesar da distância, o cineasta sempre manteve o contato com Elizabeth, hoje às vésperas de completar 88 anos, no dia 13 de fevereiro. “A diferença é que vamos ficando mais velhos, eu e ela”, comenta.
Nas novas filmagens, Coutinho teve a oportunidade de encontrar outras pessoas que não via há mais de três décadas. Entre eles, um agricultor chamado Cícero. “Ele guardava fotografias e uma carta minha de 31 anos atrás. Quando a gente se encontrou para uma conversa, ele disse uma frase maravilhosa: ‘O senhor tá tão acabadinho!’”, conta o diretor aos sorrisos.
Eduardo Coutinho informa que, além dos depoimentos, o DVD terá uma opção de faixa comentada durante a exibição do longa, onde o próprio revelará fatos que só ele sabe sobre a produção. Além de ter sido lançado em VHS, Cabra Marcado para Morrer saiu em DVD apenas uma vez, através da Programadora Brasil, projeto do MinC.
Sobre a previsão de finalizar os extras, o cineasta habitualmente não tem pressa em decantar o material. “Só te garanto a liberdade de criação”, frisa. “O lançamento vai demorar porque pra montar sete, oito horas de conversa… Eu não sei o que vai dar. Se eu soubesse, não teria feito”.

 

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