[Crítica/Ninfomaníaca] Lars Von Trier faz sexo com culpa

Aos 22 anos, Stacy Martin brilha como a jovem Joe (Christian Geisnaes/divulgação)

Aos 22 anos, Stacy Martin brilha como a jovem Joe (Christian Geisnaes/divulgação)

Por André Cananéa

Lars Von Trier foi esperto: construiu toda uma campanha sexualmente apelativa em cima de Ninfomaníaca, seu novo filme. Provocou polêmica ao disseminar que haveria cenas de sexo explícito, aguçou a curiosidade e repercutiu na mídia antes mesmo da estreia. Isso, invariavelmente, leva publico ao cinema.

Mas foi uma pegadinha. Uma pegadinha para quem pensa que irá encontrar um filme recheado com torrenciais cenas de amor, picantes e excitantes. Um novo Calígula (1979), um novo A História d’O (1975) ou sequer uma longa sequência de pegação como a do recente Azul é a Cor Mais Quente (2013).

Fala-se muito sobre o tema, mas mostra-se muito menos do que dá a entender pelo trailer. O filme narra a história de Joe (Charlotte Gainsbourg), uma mulher de seus 50 anos que é encontrada, desacordada, por um homem mais velho, Seligman (StellanSkarsgård), solitário e erudito dono de um conhecimento enciclopédico sobre psicologia, história e arte de modo geral.

Sob a recusa dela em ir a um hospital, Seligmana a leva para casa e lá, Joe inicia uma espécie de terapia, expurgando toda sua natureza devassa, da relação vazia com a mãe ao contato poético com o pai, até se tornar uma pessoa que, em busca da própria satisfação, não liga a mínima para a repercussão de suas aventuras sexuais na vida dos parceiros.

Gainsbourg e Skarsgård: sessão terapia é fio condutor do filme (Christian Geisnaes/divulgação)

Gainsbourg e Skarsgård: sessão terapia é fio condutor do filme (Christian Geisnaes/divulgação)

Ninfomaníaca não é um filme de sexo, ou sobre sexo, mas, em suas entrelinhas, sobre amor (ou a falta dele). Há cenas explicitas sim, rápidas, secas, contextualizadas, que existem ali para que Joe e Seligman possam conversar sobre elas, mas são tão excitantes quanto uma visita ao ginecologista.

As aventuras de Joe – que nesta primeira parte são vividas com desenvoltura pela estreante Stacy Martin – são acondicionadas em pequenas histórias, quase que como curtas-metragens distintos, que formam os oito capítulos das duas partes do filme – a primeira está em cartaz em apenas uma sessão diária, às 21h50, do CinEspaço do Mag Shopping (João Pessoa) e a segunda estreia em março.

Esse formato das pequenas histórias me lembrou Tudo O Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo, Mas Tinha Medo de Perguntar (1972), de Woody Allen, cuja a ideia também era abordar o sexo, mas de uma maneira bem mais ingênua.

Lars Von Trier, o diretor (Casper Sejersen/divulgação)

Lars Von Trier, o diretor (Casper Sejersen/divulgação)

Lars Von Trier é um diretor de entrelinhas, de metáforas. Seus filmes mostram uma coisa, mas querem dizer outra, muita mais embaixo. E pelo que se vê em sua filmografia até aqui, “embaixo” é um lugar sombrio e complexo.
Taxado de misógino, é sabido que o dinamarquês tinha problemas com a mãe e dificuldade de se relacionar com as mulheres (se você quiser saber mais sobre isso, dê uma olhadinha nos extras do DVD de Dançando no Escuro, lançado pela Versátil). É por isso que, na esmagadora maioria dos seus filmes, a protagonista é uma mulher sem alma, mal amada, triste, frustrada, melancólica, enfim, nunca é alguém moralmente edificada, bela e radiante.

Joe não é diferente e Von Trier utiliza-se da ninfomania para colocar os holofotes sobre uma mulher fria, calculista, vazia, sem amor nem compaixão. Uma mulher que utiliza o sexo apenas como escapismo – o termo “viciada em sexo” é bem apropriado: para ela, o sexo é droga, algo que preenche um momento de dor, ou um cotidiano vazio, mas também algo que tira o brilho, tira as aspirações, coloca a pessoa em estado permanente de torpor. Um zumbi movido por doses cada vez mais cavalares de veneno.

Gostei de Ninfomaníaca como eu gosto de Dogville (2003). Acho que Von Trier é um diretor que sabe o que faz, alternando momentos de brilhantismo com genialidade. Mas prefiro a crueza de Dançando no Escuro (2000), a profundidade surpreendente de Anticristo (2009) e a beleza amarga de Melancolia (2011). Assim como ele utiliza a polifonia de uma obra de Bach para explicar o amante ideal de Joe, esses três filmes sintetizam a visão que tenho sobre a obra do Dinamarquês.

Aliás, perto de Anticristo, Ninfomaníaca é uma comédia rasgada, embora seu tema seja duro. Mas Anticristo não é só duro. É duro, triste, visceral, coisa que o novo filme não é. Em Ninfomaníaca há momentos de alívio cômico, como a impagável participação de Uma Thurma como uma mulher abandonada pelo marido com três filhos pequenos, e pinceladas de poesia visual, tinta que o diretor vem utilizando bastante nos últimos filmes.

Uma Thurman (E) é "alívio cômico" no filme (Christian Geisnaes/divulgação)

Uma Thurman (E) é “alívio cômico” no filme (Christian Geisnaes/divulgação)

Mas o que mais me incomodou no filme, sobretudo por ser um filme de Lars Von Trier, são os jatos de erudição que ele vomita a cada sequência. Sobremesas judaicas, Edgard Alan Poe, Bach e números de Fibonacci são expelidos ao espectador sem o requinte de filmes anteriores.

Muita gente me pergunta se vale à pena ver Ninfomaníaca, e eu digo que vale sim! No mínimo, você aprende como pescar em rio com correnteza, conhece a teoria de Fibonacci e o conceito de polifonia musical, afinal, todos são explicados didaticamente no filme. E essas informações são bem mais excitantes que o sexo com culpa do diretor.

Cotação: 3,5 (de 5)

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