[Conto de Natal] Bielzinho e o Papai Noel

Confira o conto de Natal que a escritora Débora Ferraz fez com exclusividade para o Jornal da Paraíba, ilustrado por Igor Tadeu:

recorte

— Vai lá, Bielzinho, vai pedir um presente pra Papai Noel.
O menino paralisa. As pernas curtinhas roliças no braço da mãe encrespam. Hoje vai ser um daqueles dias.
—Olha, Biel. O Papai Noel. Vamos pro braço do Papai Noel?
As mãozinhas rechonchudas se espalmam nos ombros da mãe.
A lá, a lá. Vai abrir o berreiro. Não tá vendo que vai dar errado isso?
—Ho ho ho… Não tem problema, não precisa vir pro colo…
E os malditos duendes não deviam salvar o Papai Noel de uma dessa? Fazer a ponte, coisa assim?
— Não, mas ele vai bonzinho. Não vai, Biel? — diz a mãe, enquanto o pai, um sujeito meio calvo, meio gordo, meio entediado ajusta a câmera.
Dá ou não dá vontade de dizer: minha senhora, eu sou ator. Não tenho que ficar ouvindo o choro agudo do seu filho. Ele não gosta de Papai Noel. Qual o problema? Eu não gosto de um monte de coisa e tô aqui vivinho.
—Pronto, lá vamos nós. Né querido?
Bielzinho é depositado no meu colo. Para me encarando e, por um segundo, que pode ser a glória ou a desgraça, ele decide. Um segundo inteiro. Amigo, amigo… Será que ele fica bonzinho? Tirem logo essa foto.
E tal qual uma potência sonora de alarme de carro, Bielzinho abre o berreiro e eu estendo-o de volta pra a mãe.
— Só mais um minutinho — ela pede, ajeitando o cabelo ao lado da minha cadeira. — Cadê o duende?
Minha senhora, o menino tá aos gritos, esqueça a foto. Mas tudo o que ela diz, sem nem desviar os olhos da câmera é:
— Balança ele assim, que ele para de chorar.
Balance ele a senhora.
-Hohoho… Por que a mamãe não pega o bebê?
-Isso. Calma Bielzinho. Papai Noel. Vai dar um presente. Seja bom que ganha presente.
Mas que conversa de presente, o menino nem consegue ficar de pé, ainda e você quer negociar um suborno?
-Hohoho…. Vamos voltar o menino bonzinho para a mamãe.
Nessas horas os duendes deviam auxiliar, os duendes é que têm formação em psicologia do bebê, experiência em berçário, sei lá como funciona isso. Cadê o Marcos, ô, droga, ele ainda tá com a menina que veio antes queixando-se que a boneca que ganhou no natal passado quebrou e que isso só pode ter sido trabalho mal feito dele. Tá lá, escutando pacientemente o que ela diz que tem que ser feito para que a boneca fique boa. Toma aqui, ô dona. Senão fica difícil manter o personagem.
Mas a mãe estende a mão espalmada. Bielzinho tal qual uma sirene louca continua os berros. E ela aproxima-se do pai olhando o visor da câmera. O menino grita, começa a ficar vermelho.
— Hohoho… Calma, menino bonzinho…
-—Ah, tira mais uma, essa não ficou legal.
Mas claro que não ficou! Tem um menino em pânico, se esgoelando na imagem, alugém notou?
O menino mantem a boca aberta, a coloração vermelha, mas o grito vai ficando mais agudo, mais agudo, até ficar inaudível.
— Ô, minha filha, tem outras crianças aqui pra tirar foto com o Papai Noel, tá?
Ih, agora piorou, briga na fila. Alguém faz esse menino parar.
— Cada um espera a sua vez, não é? Não esperei a minha?
— Mas a senhora está atrasando a fila.
— Ah, eu não sabia que fila tinha hora marcada.
E o menino nos meus braços, ainda com a cara de pânico, ainda não sai som. Será que ele vai sufocar, meu Deus? Imagina a história de um Papai Noel de shopping que mata criancinhas…
-Oh, vamos ter calma aqui – o Marcos se livra da menina e vai falar com as mães e eu tento estender a criança pro pai, mas ele se afasta com uma expressão de cansaço que parece que vem de muitos natais e não só deste.
-O Papai Noel vai atender todas as crianças felizes. Oh, e essa menininha aqui, você está ansiosa pra falar com o Papai Noel?
O menino toma fôlego, solta um novo grito. Está roxo, agora. Misericórdia! Quer saber? Vou resolver do meu jeito.
Eu levanto da poltrona com o menino no braço e fujo do tumulto. A confusão para na hora, ninguém me segue. A mãe abismada fica me olhando desaparecer com a criança. O pai permanece com a câmera na mão, o Marcos cresce os olhos em desespero. Ninguém faz nada. Vão me vendo, saindo com a criança no colo até o outro corredor do shopping abrir uma porta e desaparecer com ele para a escada de incêndio.
Eu puxo a barba, e livre dela, uso minha voz natural.
—Calma, mocinho. Gente doida, não é?- e aí entram os truques: fazer barulhinhos repetitivos. Ta-dá, ta-dá, ta-dá. Bielzinho para de chorar e começa a rir. Uma ternura inesperada de palminhas.
Eu reponho a barba, então, devagar, e tentando emular novamente o passo de um senhor idoso, eu volto para a multidão pasma ao redor do cenário natalino. A mãe, com cara de incompreendida, estende os braços pro menino.
—Bielzinho, meu amor, venha pra a mamãe.
O menino paralisa. As pernas curtinhas roliças, no braço, encrespam. As mãos se espalmam no meu ombro.

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