Leia um trecho de ‘O Autor da Novela’, de Tarcísio Pereira

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Por Tiago Germano

O escritor e dramaturgo Tarcísio Pereira lança nesta quinta (12), em João Pessoa, seu novo livro, O Autor da Novela (Ideia, 225 páginas, R$ 20,00), vencedor da bolsa de incentivo à criação literária da Fundação Nacional de Artes (Funarte), em 2009.

O lançamento será no restaurante Tô em Casa (por trás do Shopping Sul, nos Bancários), às 20h. Haverá apresentações da Cia. dos Truques, da bailarina Andréa Monteiro e do músico Glauco Meireles.

Leia, a seguir, um trecho do romance, que trata da transição da audiência do rádio para a televisão:

Di Assis não revelava o mistério nem mesmo a Urbano, que era o seu patrão e dono da emissora. Urbano, que futuramente seria prefeito e que teria uma filha chamada Urbela, chegou ao cúmulo de lhe dar uma ordem e de ameaçar a suspensão do enredo. Di Assis não recuou:

– Com todo meu respeito, Urbano, mas se tem uma ordem que eu não posso cumprir é essa. Eu sinto muito em dizer que a rádio é sua, mas a novela é minha. E se estiver pensando em tirá-la do ar, pense antes no que pretende fazer, porque o povo vai linchar você em praça pública.

Mordeu-se de raiva o dono da emissora, mas disfarçou e mostrou um sorriso para Francisco, a quem devia secreta gratidão pelo desenvolvimento do seu sistema. Além do mais, por aqueles dias, Urbano vinha tendo a inspiração de entrar na política, e a novela Maria de Todos estava dentro dos seus planos. Este, também, era o seu segredo, mas Francisco não poderia saber.

– Tudo bem, Chico, eu estou brincando.

Foi como respondeu para Di Assis, forçando simpatia. Desde então, nunca mais o chantageou.

Tampouco Telminha, e menos ainda os outros radioatores, um único deles não conseguia arrancar, dos lábios do autor, sequer uma pista reveladora. E mais: os intérpretes só conheciam o capítulo às cinco da tarde, que era a hora em que chegavam à sala de gravar. Saíam às oito da noite, justo no instante em que as suas vozes eram irradiadas. Às vezes acontecia de continuarem gravando ou repetindo trechos que não tinham se adequado à sonoplastia, então o capítulo entrava no ar e eles ainda estavam gravando os momentos finais. Quando Francisco se dava conta de um erro, ou qualquer incongruência entre os episódios, reescrevia aquele trecho às pressas, na sala do estúdio e diante do grupo, e os atores já estavam a postos para lerem ao vivo. Por conta desses apertos, ninguém tinha tempo de sair à rua e os episódios eram preservados no mais absoluto sigilo.

Ao sair da emissora, de mãos dadas com Telminha para deixá-la em casa, não havia uma só noite em que não fosse cobrado. Moças, rapazes e senhoras o abordavam, e a pergunta mais comum evocava um capítulo transmitido há dias, quando ninguém conseguiu entender se Jerônimo foi empurrado da serra.

– Um dia, vamos todos descobrir o que aconteceu nas alturas do monte – respondia ele, fechando com um riso: – Inclusive eu!

Jamais, porém, ficaram sabendo – pois a novela Maria de Todos não chegou ao seu fim!

 

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