‘Phono 73’ volta às lojas

phono73 01A reedição do box Phono 73 – O Cantor de Um Povo (Universal Music) é o assunto de capa do Vida & Arte do Jornal da Paraíba desta quarta-feira (11).

Festival histórico, realizado em maio de 1973, contou com a participação de artistas do porte de Chico Buarque, Elis Regina, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethânia, Jorge Ben (ainda sem o ‘Jor’), Raul Seixas, Sérgio Sampaio, Erasmo Carlos, Ronnie Von e tantos outros.

Nos bastidores, operavam nomes como Manoel Carlos, Roberto Menescal e Nelson Motta, sob a batuta do experiente André Midani.

Um dos momentos marcantes do festival é quando desligam o microfone de Chico, quando ele e Gil cantam ‘Cálice’. Para tentar driblar a censura, valia trocar a letra por “arroz à grega” ou salpicar umas onomatopeias! Confira no vídeo abaixo:

Sobre o festival, Nelson Motta registrou em seu Noites Tropicais (Objetiva):

     Em 1973, Elis era uma das estrelas do grande evento da Philips – o festival “Phono 73” -, três noites em São Paulo com todo o seu elenco milionário reunido em duplas, algumas delas surpreendentes e provocativas, como Caetano Veloso e o rei do “brega jovem”, Odair José, grande sucesso popular com usas músicas de amor para prostitutas (“Eu vou tirar você desse lugar”) e empregadas domésticas, na crista da onda com o hit “Pare de tomar a pílula”.
     Mesmo sendo um festival sem prêmios, promovido por uma gravadora, na platéia do Phono 73 os ânimos estavam exaltados. O público e a imprensa ansiavam por novidades, surpresas, intervenções políticas, rebeldia e resistência. A Philips esperava gravar tudo ao vivo e lançar em três discos, valorizando e movimentando seus talentos em duetos, somando públicos, lançando novas músicas e novas versões de antigos sucessos, misturando suas estrelas estabelecidas com as jovens revelações musicais.
     Quando entrou no palco, tensa e de cara fechada, Elis foi recebida com frieza pelo público passional e politizado. Entre os aplausos pouco entusiasmados, alguns assobios e uma voz raivosa que grita “Vai cantar na Olimpíada do Exército!”, provocando uma pororoca de vaias e aplausos e a réplica “Respeitem a maior cantora do Brasil”, atribuída a Caetano.
     Pior – ou melhor – se saíram Chico Buarque e Gilberto Gil, que tinham feito uma música perfeita para expressar o momento e o estado de espírito que vivíamos, de repressão e sofrimento, de medo e desconfiança, apropriadamente chamada, em tempos de boca calada obrigatória, “Cálice”:
     “Pai, afasta de mim esse cálice
      Pai, afasta de mim esse cálice
      Pai, afasta de mim esse cálice
      De vinho tinto de sangue”
     A música era um protesto tão sentido, tão doloroso e apropriado, tão óbvio, que a Censura Federal naturalmente a proibiu. Mesmo não constando da lista aprovada pela Censura, Chico e Gil decidiram cantá-la sem a letra, só dizendo a palavra “cálice”. E assim tentaram fazer, no meio da gritaria do público, e nem isto conseguiram. O som do microfone foi cortado. Na versão oficial, por agentes da repressão, porém o mais provável é que tenha sido um funcionário mais apavorado da Philips, para evitar represálias. Ou talvez o censor, abominável presença obrigatória que acompanhava todos os shows, tenha mandado o técnico cortar o som. O fato é que Gil e Chico não conseguiram cantar – embora com isso tenham provocado ainda mais barulho.
     A grande vitoriosa do Phono 73 foi Gal Costa, sem fazer política, estritamente musical e até religiosa, dividindo o microfone com Maria Bethânia na lindíssima e inédita “Oração a Mãe Menininha”, de Dorival Caymmi. As duas, filhas do terreiro do Gantois, Iansã e Oxum, respectivamente, levantaram o público e no final da música, de mãos dadas, se beijaram na boca.
     De Gal também foi a música que se tornou o maior sucesso popular do Phono 73, uma esperta reinterpretação do velho sucesso local “Trem das onze”, um clássico “samba italiano” de Adoniram Barbosa delirantemente recebido pela platéia paulistana. O público envaidecido cantou entusiasmado com Gal o refrão edipiano.

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