UFPB, liderança nacional em patentes e a fome: um espelho do Brasil

Universidade tem conseguido marcas importantes de eficiência. Foto: Reprodução/Calendarr

* Por Thiago Lima

A UFPB comemorou recentemente um memorável reconhecimento nacional: tornou-se a líder brasileira no depósito de patentes. De fato, ter realizado 94 depósitos em 2018 foi um salto e tanto para uma instituição que em 2014 e 2015 havia registrado apenas 11 e 18 patentes, respectivamente. A patente é um símbolo da qualidade científica e um indicador de inovação tecnológica. Ela é um instrumento jurídico que garante a propriedade privada sobre uma invenção por um período determinado, impedindo que outros copiem e utilizem aquele conhecimento sem a autorização do proprietário. Apenas o detentor do direito pode usar e comercializar legitimamente aquela invenção. Em outras palavras, o direito de uso de uma patente permite, por exemplo, que uma empresa venda um produto ou serviço sem competidores por alguns anos, o que é uma vantagem mercadológica espetacular.

Produzir inovação é, em última instância, o que separa os países desenvolvidos dos em desenvolvimento. Estes, também chamados de Periféricos, normalmente precisam importar tecnologia inventada naqueles, conhecidos como Centrais. Os do Centro ganham muito dinheiro concedendo uso de patentes ou vendendo produtos e serviços que estão protegidos da competição. Portanto, não há caminho para superar a condição Periférica que não passe pela produção da invenção comercialmente útil e, por isso, a Universidade Federal da Paraíba nos enche de orgulho!
Este feito incrível, porém, convive com uma condição alarmante: os relatos de fome entre os estudantes da UFPB. É uma situação que está límpida para todos aqueles que tenham interesse em conhecer essa realidade. Há tempos os estudantes em situação de vulnerabilidade econômica reclamam que a UFPB não garante a eles segurança alimentar e nutricional (SAN). A SAN ocorre quando as pessoas têm acesso estável a uma quantidade de alimentos que sejam nutricional e culturalmente adequados para uma vida ativa e saudável. Além disso, o acesso aos alimentos não pode comprometer outros aspectos fundamentais da vida, como vestir-se, comprar remédio, pagar aluguel, estudar etc. Se uma pessoa tem que optar entre fazer uma refeição ou tomar um ônibus para ir estudar, ela não está em SAN por mais que, ao final, tenha optado por comer. O Direito Humano à Alimentação Adequada está inscrito no artigo 6º da Constituição Federal.
A melhor e mais tradicional ferramenta para garantir a SAN no ambiente universitário é o Restaurante Universitário. Este equipamento – que também poderia ser espaço para estágios e testes de invenções em diversos setores, além do agroalimentar – está fechado para reforma desde setembro. A promessa era que ele voltaria a funcionar em outubro. Com o RU desativado, os estudantes recebem um pecúnio que pode variar conforme algumas ‘faixas de necessidade’. Por exemplo, os moradores da residência universitária (assunto para outro dia…) recebem R$ 350 por mês; outros assistidos não-residentes recebem R$ 240 ou menos. Já imaginou residentes universitários fazendo três refeições por dia, nutricionalmente equilibradas e culturalmente adequadas, a R$ 3,88 cada? Desnecessário lembrar que alimentação de qualidade é fundamental para qualquer trabalho que pretenda ser de excelência, inclusive o acadêmico.
Nas universidades que tradicionalmente ocupam o topo no ranking das patentes, o Restaurante Universitário costuma ser aberto ao público em geral. Cobra-se um valor diferenciado para estudantes, servidores e para o público externo, mas toda a comunidade pode usufruir do chamado Bandeijão. Tive essa experiência na USP, Unicamp, Unesp, UnB e outras, inclusive na condição de professor doutor. Na UFPB, esta não era uma possibilidade, pois apenas estudantes em condição de vulnerabilidade econômica tinham direito ao benefício. Quer dizer, era preciso provar à Pró-Reitoria competente ser muito pobre para poder comer no RU.
Como sabemos, muitos estudantes de João Pessoa e de outras cidades não são pobres o suficiente para terem acesso ao RU, mas isso não significam que vivam confortavelmente. São universitários (e suas famílias) que fazem um tremendo esforço para manter se manter estudando na capital. Muitos desses estudantes almoçam salgados industrializados ou bolo-de-pote “porque é o que dá pra pagar, professor”. Enchem a barriga de produtos vazios de nutrientes, o que acaba prejudicando o desempenho acadêmico. Há estudos, inclusive, que vinculam a má-nutrição a problemas de saúde mental como a depressão e o burn-out, tão comuns na comunidade acadêmica.
Note que o RU poderia ser um laboratório-vitrine capaz de demonstrar ao mundo que a UFPB sabe como inventar meios criativos e acessíveis para combater a fome – um dos principais flagelos históricos da Paraíba e do País – e promover a SAN. Mas o RU está fechado.
No campo das Relações Internacionais, costumamos dizer que um país é Semi-Periférico quando ele combina, em um mesmo território e população, as características dos países Periféricos com traços dos países Centrais. Neste sentido, a UFPB provou à nação ser um espelho cristalino do Brasil Semi-Periférico. Fome e excelência tecnológica no mesmo campus. Certamente não é o caso de menosprezar nossas conquistas, mas não podemos ignorar que comemoramos em meio à fome estudantil. Se quisermos realmente superar a condição periférica, teremos que melhorar não apenas os índices de qualidade científica, mas também os de dignidade acadêmica no campus. Vale para a UFPB, vale para o Brasil. Só assim nos sentiremos confortáveis frente ao espelho.

* Coordenador do FomeRI – Grupo de Pesquisa sobre Fome e Relações Internacionais da UFPB
Membro do CORDEL – Coletivo Representativo dos Docentes em Luta

 

 

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