Transposição: muito além das rusgas entre João e Ricardo

Obra idealizado nos tempos do império saiu do papel, mas com muitos problemas a serem resolvidos

Placas começam a se deteriorar nos canais da transposição. Foto: Divulgação

O projeto de integração de bacias do São Francisco saiu do papel. Não há como afirmar o contrário. Apesar disso, os problemas contidos nele não deixam de aparecer. Vão desde a concepção do projeto à execução incompleta. Mesmo assim, a programação deste domingo (1°), com o ato ‘SOS Transposição – Grito do Nordeste’, passa longe da busca por uma solução para eles. Até por que, fosse um julgamento, incluindo o atual governo, todos sentariam no banco dos réus. Sem tirar nem por, todos teriam sua parcela de culpa para o quadro atual.

Desde a inauguração com o funcionamento em caráter experimental, muitos problemas foram detectados na parte física dos canais. Esses problemas são decorrentes de vários fatores, passando por qualidade duvidosa do material usado na construção das placas, intempéries do tempo sobre equipamentos que demoraram a ter o fim social, erros de execução de projeto e omissões, muitas omissões.

Gradeamento do canal mostra as condições de poluição nas águas da transposição. Foto: Divulgação/MPF

O ato deste domingo se detém ao abandono do atual governo sobre a obra tirada do papel durante os governos petistas. O evento é, portanto, um protesto de quem deveria ter feito bem e não fez e de quem deveria cuidar bem e não cuida. É, também, um movimento de políticos, em sua maioria, que perderam espaços após as eleições de 2018. Todos, sem excessão, tentam reconstruir o caminho de volta na política partidária.

O grande articulador do movimento, por exemplo, é o ex-governador Ricardo Coutinho (PSB). Em embates internos com o sucessor, João Azevêdo, do mesmo partido, ele não terá o afilhado político no evento. Muitos aliados dizem que a ausência deve aprofundar o fosso entre os dois, principalmente, por que depois de hoje será possível dizer, dos aliados, quem é ricardista de fato e quem fica com João. Essa diáspora pode nem sair do papel, mas dá todos os sinais de que ocorrerá em breve.

Pelo perfil pouco belicoso de João Azevêdo, a obrigação de romper ficará com Ricardo. Muitos aliados veem no avanço sobre o partido, por parte de Coutinho, não a última pedra nessa obra do rompimento, mas a fundamental para isso. No caso de outras lideranças, como o ex-candidato a presidente Fernando Haddad (PT), a presença no ato é uma forma de manter a chama acesa para eleições futuras. O discurso pró-transposição é um bom caminho para isso, principalmente quando se sabe que as águas não estão sendo bombeadas para a Paraíba.

Os problemas, no entanto, perpassam o atual governo. É importante até dizer que o atual é o menos culpado. É importante dizer, também, que o barulho mais efetivo para os problemas atuais seria um ato na frente do Tribunal de Contas da União (TCU), do Tribunal de Contas do Estado (TCE) e até gestões junto ao Ministério Público Federal. Este último, vale ressaltar, instaurou inquérito para apurar irregularidades na obra. E elas existem e são muitas. Começa pelo fato de a obra iniciada na década passada não estar pronta, mesmo tendo consumido mais de R$ 9 bilhões, o dobro do orçado inicialmente.

Conserto no canal da transposição, em Pernambuco. Foto: Divulgação

Questões delegadas ao governo da Paraíba, como a revitalização do rio Paraíba e gestões para evitar lixo e esgoto no rio e no canal também não saíram do papel. A prometida recomposição das matas ciliares também ficou na promessa. Da conta do governo federal, não saiu do papel ainda nada além das meias solas feitas nas barragens de Camalaú e Poções. Nenhuma das duas foram concluídas desde que as operações foram iniciadas em caráter experimental há dois anos.

O projeto de integração de bacias, realmente, pede socorro. O ato deste domingo, mesmo com o caráter político, tem sua importância. E precisa ser feito, mesmo que com boa dose de “mea culpa”. O fato é que as coisas não podem ficar como estão e precisam de solução. O governador João Azevêdo não vai, assim como o seu staff. Faz certo em não querer esticar a corda com o governo federal. Apesar disso, terá que se deter sobre cobranças ao Planalto e responder também sobre as omissões do estado.

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