Governo Bolsonaro parece ser episódio de “Black Mirror” feito só para o Brasil

Poderia falar dos duzentos e poucos dias, mas vou me referir apenas a episódios dos dez últimos da gestão bolsonarista

Presidente têm proferido falas incompatíveis com o decoro exigido pelo cargo. Foto: Renato Araújo/ABr

Atenção, atenção norte-americanos, norte-coreanos e venezuelanos. Não adianta procurar. A versão mais recente da festejada série inglesa “Black Mirror” está disponível apenas para brasileiros, com exibição exclusiva para terras tupiniquins. O personagem principal é o presidente Jair Bolsonaro (PSL) que, nos últimos 10 dias, conseguiu proferir declarações que vão da apologia à tortura ao racismo, sem falar da miopia para enxergar massacre de indígenas. A vítima mais recente foi o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, que teve o pai morto durante a Ditadura Militar. Um pouco antes houve ataques a jornalistas, nordestinos…

Os brasileiros, principalmente os nordestinos, ocupam posição privilegiada na trama. Eles são ao mesmo tempo espectadores e personagens (a maioria, hoje em dia, contra a vontade). O presidente da OAB ouviu do presidente da República, o detentor do maior cargo da República, uma atrocidade que atenta contra os direitos humanos. Bolsonaro, ao se incomodar com os questionamentos da OAB sobre Adélio Bispo, abriu o verbo contra o presidente da entidade. Disse que poderia dizer como o pai dele, Fernando Santa Cruz, foi morto durante a Ditadura (que o gestor chama de revolução). Adélio Bispo, vale lembrar, é o suposto esfaqueador do presidente.

A forma descomprometida com a verdade abriu novamente a ferida de um drama familiar de Santa Cruz. O pai desapareceu quando ele tinha apenas dois anos de idade. Fernando Santa Cruz era militante da Ação Popular Marxista-Leninista, dissidência do grupo de esquerda Ação Popular. A Comissão da Verdade revelou que ele foi sequestrado, torturado e morto. Não há registros de que Santa Cruz, efetivamente, tenha participado da luta armada. Quando foi raptado, ele tinha emprego e endereço fixos. Mas Bolsonaro, após a repercussão negativa, disse, sem provas, enquanto cortava o cabelo, que ouviu falar que o militante foi morto por outros militantes de esquerda.

Nordestinos

No dia 19 deste mês, em café da manhã com correspondentes estrangeiros, Bolsonaro disse em conversa reservada com o ministro da Casa Civil, Onix Lorenzoni, que “daqueles governadores de paraíba, o pior é o do Maranhão [Flávio Dino, do PC do B]. Tem que ter nada com esse cara”. Ele não percebeu que os microfones estavam abertos e a conversa vazou para todos os que assistiam à TV Brasil. Resultado: após a polêmica, ele deu um triplo carpado hermenêutico na própria frase. Disse que não se referia aos nordestinos pejorativamente, mas ao governador do Maranhão e ao da Paraíba, João Azevêdo (PSB). Este último entrou de gaiato na história.

Nestes dez últimos dias, a imprensa voltou a ser alvo por publicar matérias que desagradam ao gestor. Sobre a jornalista Mirian Leitão, Bolsonaro disse que ela “estava indo para a guerrilha do Araguaia quando foi presa em Vitória. E depois conta um drama todo, mentiroso, que teria sido torturada, sofreu abuso etc. Mentira. Mentira”. E quais são as evidências que ele dispõe para isso? Nenhuma. Mas nesta segunda-feira (29), ao atacar o jornalista norte-americano Glenn Greenwald, disse que ele cometeu crime. Gerou constrangimento para o porta-voz do governo, que, em entrevista, não conseguiu explicar qual crime foi cometido. Deu pena.

A retórica sem pé nem cabeça, vale ressaltar, toma conta do governo. A Fundação Nacional do Índio (Funai) tratou como suposta a invasão de uma tribo indígena por garimpeiros nos últimos dias. Um índio da tribo Waiãpi foi morto. As declarações e o ataque ocorrem justamente quando o presidente declara que pretende liberar o garimpo em terras indígenas. A legislação brasileira proíbe a prática. A postura do Planalto foi criticada pela chefe da Organização das Nações Unidas (ONU) para os direitos humanos, Michelle Bachellet.

Fome

O presidente é o mesmo que negou a existência de fome no Brasil. Com isso, desconsiderou os mais de 5 milhões de indigentes que não têm condições de fazer três refeições diárias. Ao ver a repercussão negativa, voltou atrás e garantiu acreditar que ainda existe “um pouco” de fome no Brasil. “Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira. Passa-se mal, não come bem. Aí eu concordo. Agora, passar fome, não. Você não vê gente mesmo pobre pelas ruas com físico esquelético como a gente vê em alguns outros países pelo mundo”

Ainda houve questionamento sobre o Inpe [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais]. Bolsonaro não gostou dever sair do governo dados que mostram o crescimento do desmatamento. Disse, via imprensa, que quer ver todos os estudos antes de eles serem publicados. Um escândalo. Citei apenas alguns, mas há muito mais coisas para rechear o seriado. Os absurdos são tantos que, claramente, começamos a naturalizar questões graves e inaceitáveis. É pior do que pesadelo, porque na visão onírica, pelo menos, você consegue se acordar.

9 comentários - Governo Bolsonaro parece ser episódio de “Black Mirror” feito só para o Brasil

  1. Tiago vilar Disse:

    Parafraseando Olavo de Carvalho : ” Não é o que se fala mas quem fala”…

  2. Naldo Silva Disse:

    Estarei esperando agora vc falar das conquistas desse governo, sei que não é imparcial e sei que têm um lado, porém vejamos até onde vai

  3. Waldemar Disse:

    É um personagem digno do livro do escritor Stanislaw Ponte Preta: “Festival de Besteira que Assola O País”

  4. wladimir Disse:

    Jornal da Paraíba sendo Grobo. Opinião tendenciosa, enquanto isso não se fala mais em Porsche que matou funcionário da Semob, já que se deve falar de “verdades”.

  5. wladimir Disse:

    Por que tiraram meu comentário do Porsche???

  6. wladimir Disse:

    Agora sim.

  7. Carlos Eduardo Disse:

    Uma verdade inconveniente: não se poderia esperar mais de quem desde sempre se assumiu incapaz. É preciso admitir que mesmo na melhor das intenções chegou ao poder o menos capaz a gestão, e talvez precise mesmo da polêmica para convocar o apoio na fé pela fé. Populismo não se trata de esquerda OU direita. Talvez seja alternância mesmo.

    De fato, há representatividade, e compreendo a defesa por parte dos que veem a narrativa da escalada presidencial como um indício de que também viverão, algum dia, um salto de sorte na carreira.

    É o discurso do atalho, sem admitir que nunca se fez nem a tarefa de casa nem um projeto nota 10. Representa a turma do se colar colou.

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