Tragédia no Lar do Garoto completa dois anos e documentos mostram que massacre era iminente

Dois meses antes de ser assassinado, um dos sete jovens mortos relatou a juiz que a vida dele corria perigo e pediu transferência

Lar do Garoto entrou na rota de críticas por se assemelhar a presídios. Foto: Leonardo Silva

Aquela madrugada de 3 de junho nunca será esquecida pelas famílias de sete jovens mortos no Lar do Garoto, em Lagoa Seca, Região Metropolitana de Campina Grande. Outros 17 reeducandos fugiram da unidade de ressocialização e sobrou um jogo de empurra entre Estado e Justiça. O fato é que nenhum deles teve como dizer que não sabia que o Lar do Garoto Padre Otávio Santos era, na verdade, um barril de pólvoras. Iria explodir a qualquer momento. Os alertas ao Estado ocorriam desde 2013, mas sem serem ouvidos. Em audiência na Vara Especial Criminal, dois meses antes, o juiz Giovanni Magalhães Porto ouviu relato de José Douglas da Silva, de 17 anos. Ele pedia a transferência urgente para outra unidade de reeducação. Sabia que a vida dele corria perigo. E tinha razão.

Reprodução/Depoimento

Douglas dizia ser de Sertânia, em Pernambuco. Pedia para ser transferido para Caruaru ou Arcoverde, no Estado vizinho, ou então para João Pessoa ou Sousa, na Paraíba. Falou sobre a superlotação na unidade (48 vagas que abrigavam mais de 200 reeducandos). Porto, ao final da audiência, encaminhou o caso para o Juizado da Infância e da Adolescência, o foro competente para tratar o assunto. Nada foi feito. Pelo menos não a tempo de salvar o jovem. Ele, junto com outros seis internos, foi morto na madrugada do dia 3 de junho. Um documentário feito pelo Ministério Público Federal, com base no depoimento de familiares, mostrou o rastro de dor deixado pela perda. Famílias pobres, em geral desestruturadas, viram filhos saírem do Lar do Garoto direto para o cemitério, sem chance de ressocialização.

Neste espaço, em 2017, escrevi que a tragédia ocorrida no Lar do Garoto Padre Otávio Santos não poderia ser colocada na quota de surpresa. Os alertas sobre os problemas foram feitos, de forma reiterada, por órgãos de controle e entidades da sociedade civil durante vários anos. A observação feita por Conselho Estadual de Direitos Humanos, Ministério Público da Paraíba e Ministério Público Federal, na época, foi a de que a situação do Lar do Garoto se assemelhava, em muito, à dos presídios. Um ambiente dominado por facções, com quase zero possibilidade de alguém sair de lá melhor do que entrou. Alguém ousa dizer que o quadro mudou de lá para cá?

Números

No Lar do Garoto, na época, havia 48 adolescentes apreendidos provisoriamente e 152 cumprindo sentença definitiva de internação. Eles foram apreendidos por acusações de crimes como homicídio (28), latrocínio (02), estupro de vulnerável (05), roubo qualificado (88), tráfico de drogas (08), furto (07), porte ilegal de arma (03), ofensa física (01), além dos transferidos de outras unidades.

 

 

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