(Des)governo e autofagia marcam gestão Bolsonaro na hora de enfrentar problemas

Cruzada governista contra oposição une críticos e (ex)bolsonaristas sob uma única bandeira no país

Presidente da República, Jair Bolsonaro, visita o The Sixth Floor Museum que apresenta a narrativa do assassinato do presidente John F. Kennedy.

O governo, definitivamente, tem perdido a guerra no embate contra os críticos em relação aos cortes nos repasses de recursos para instituições educacionais. Nesta quarta-feira (15), manifestantes tomaram as ruas em todos os estados. Nas ruas estavam oposicionistas, ex-bolsonaristas e apolíticos. Motivo: o contingenciamento sobre uma área essencial para qualquer país, a educação. E como reagiram os membros do governo? Bem, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) chamou os manifestantes de “idiotas úteis”. O ministro da Educação, Abraham Weintraub, preferiu confrontar a oposição no Congresso. Atribuiu o orçamento atual à ex-presidente Dilma Rousseff (PT), cassada há três anos. As reações não poderiam ser outras: mais pessoas foram às ruas e mais manifestações são previstas para os próximos dias.

Tem faltado equilíbrio e inteligência para um governo que se elegeu prometendo se afastar das ideologias, mas não consegue fazer nada fora do roteiro ideológico. Weintraub, por exemplo, anunciou inicialmente que haveria contingenciamento sobre as universidades que fazem “balbúrdia”. Como não conseguiu explicar o que, exatamente, seria essa”balbúrdia”, em se tratando de universidade, mudou o tom da conversa. O corte nos recursos foi estendido a todas as universidades, além de institutos federais e até às instituições do ensino básico, anunciadas como prioridade por Bolsonaro. Os argumentos parecem ter sido constituídos em uma mesa de bar, por bêbados, porque não se sustentam de pé.

Esse, pelo menos, é o argumento utilizado por vários deputados, professores e alunos. Vamos aos fatos: o ministro fala em punir universidades. Isso pegou mal, lógico. Então se revelou que, na verdade, seria uma coisa mais ampla. Todo mundo está sendo punido por causa do baixo crescimento da economia que o governo tinha prometido encerrar. Bem, como havia cortes, o alvo favorito foi a educação. As universidades, de onde os governistas acreditam vir as maiores ameaças, por estimular as pessoas a pensarem, foi uma presa fácil. Mas vamos combinar que não seja isso, que foi contingenciamento linear. Por que incluir no grupo justamente a área mais sensível, junto com a Saúde? Por que retirar dinheiro da educação superior e até da educação básica quando o presidente vive criticando as avaliações do Brasil no Pisa?

Quer dizer que tirando dinheiro da educação, ela melhora? Genial isso. Se a lógica for usada, tirar dinheiro dos políticos também deve melhorar a qualidade deles. Poderia-se, inclusive, tirar o cartão corporativo da Presidência, onde houve crescimento de 16% nos primeiros meses deste ano. Ah! Mas deixa isso pra lá. Vamos voltar para os fatos. O governo é composto, atualmente, por três núcleos: técnico, ideológico e militares. Qualquer uma das pernas que caírem derruba o governo. O primeiro tem como ícones os ministros Sérgio Moro (Justiça) e Paulo Guedes (Economia). O ideológico congrega os ministros que não conseguiriam acertar o rabo do cavalo no psicotécnico. Já os militares, apesar das desconfianças, têm sido o grupo mais sóbrio (com exceção do general Augusto Heleno, do GSI).

Nestes cinco meses de governo, o grupo bolsonarista acumula derrotas no congresso e outros incidentes. A lista inclui a “despetização” da Casa Civil, por exemplo, que causou paralisias no governo no início do ano. Todos os servidores foram demitidos e não tinha quem fizesse, sequer, as tarefas mais simples. Houve recuo na transferência da embaixada do Brasil para Jerusalém, críticas a emigrantes, pedido para escolas lerem slogan de campanha de Bolsonaro, discussão sobre base militar dos EUA no Brasil, recuos na Previdência e falas sobre ditadura. É muita confusão para apenas cinco meses de gestão. Resta a pergunta: onde estão mesmo os “idiotas úteis?”

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