Calvário: ‘caixa de vinho’ entregue pela Cruz Vermelha tinha R$ 900 mil de propina, diz Leandro

Ex-assessor disse ao Ministério Público que recebeu dinheiro a mando da secretária Livânia Farias

Leandro Nunes com caixa de vinho que o Ministério Público acredita ser de dinheiro. Foto: Reprodução/Fantástico

A caixa de vinho recebida por Leandro Nunes Azevedo de uma funcionária da Cruz Vermelha Brasileira filial Rio Grande do Sul, em agosto do ano passado, continha quase R$ 900 mil. O dinheiro, ele afirma, foi usado para pagar fornecedores de campanha, no pleito de 2018. Esta, pelo menos, é a versão contada pelo ex-assessor da Secretaria de Administração do governo do Estado. As declarações foram dadas em 16 horas de gravações, feitas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público da Paraíba. Elas aumentaram, também, as especulações de que Leandro fez delação premiada.

O pedido para a soltura de Leandro, feito ao desembargador Ricardo Vital de Almeida, foi encaminhado pelo próprio Ministério Público. Leandro deixou claro, nas declarações, que teria agido em nome da secretária de Administração, Livânia Farias. Ele atua como auxiliar de Livânia desde 2011, o primeiro ano de gestão do ex-governador Ricardo Coutinho (PSB). No mesmo ano, o contrato da Cruz Vermelha com o governo do Estado para administrar o Hospital de Emergência e Trauma Senador Humberto Lucena, em João Pessoa, foi firmado em meio a denúncias de irregularidades. Elas foram atestadas pela auditoria do Tribunal de Contas do Estado.

Leandro foi preso no dia 1° de fevereiro, durante a deflagração da segunda etapa da Operação Calvário. Na mesma data, também foram presos Daniel Gomes da Silva, mandatário da Cruz Vermelha, e Michelle Cardoso, a mesma flagrada em vídeo entregando dinheiro a Leandro. O MP cumpriu mandados de busca e apreensão, também, em endereços de Livânia Farias (Administração) e Waldson de Souza (Planejamento e Gestão). A Cruz Vermelha e o Instituto de Psicologia Clínica, Educacional e Profissional (IPCEP) movimentaram R$ 1,1 bilhão de 2011 até o final do ano passado. Elas administram o Hospital de Emergência e Trauma, o Hospital Metropolitano Dom José Maria Pires e o Hospital Regional de Mamanguape.

Reprodução de trecho da denúncia formulada pelo Gaeco do Rio de Janeiro

Dinheiro

No depoimento, Leandro Nunes contou que viajou ao Rio no dia 7 de agosto de 2018, para se encontrar com Michelle Cardoso no dia seguinte. Ele disse que foi à capital fluminense buscar R$ 700 mil a mando de Livânia Farias. Revelou que se comunicou com a auxiliar de Daniel através de um telefone comprado na cidade e com número cadastrado com um CPF qualquer, que encontrou na internet. A surpresa dele é que, ao abrir a caixa, nela encontrou exatos R$ 870 mil, um montante bem acima do acertado entre Livânia e o mandatário da Cruz Vermelha, de acordo com o depoimento dele.

Reprodução de trecho da decisão do desembargador Ricardo Vital

Leandro contou ao Ministério Público que fez muitos pagamentos e usou, inclusive, o dinheiro a mais. Ele carregou o dinheiro em uma mochila e fez os pagamentos. Para outros fornecedores, pediu números de contas para fazer os depósitos em terminais de autoatendimento. Ele elevou o montante a ser pago a alguns fornecedores e dividiu o dinheiro em bolos de R$ 10 mil para fazer outros pagamentos.

Reprodução de trecho da decisão do desembargador Ricardo Vital

Leandro disse que voltou do Rio com entre R$ 10 mil e R$ 15 mil em dinheiro. Disse ainda que entregou todos os comprovantes a uma pessoa identificada como Júnior e recebeu dele a resposta de que o dinheiro havia caído nas contas.

Compra de imóvel por Livânia

Leandro Nunes Azevevedo contou detalhes, também, sobre uma suposta compra de imóvel na cidade de Sousa pela secretária Livânia Farias. Ele mesmo teria participado do processo de compra, inclusive com a entrega de dinheiro vivo.

Reprodução de trecho da decisão do desembargador Ricardo Vital

Resposta de Livânia

Os advogados de defesa da secretária de Administração, Livânia Farias, divulgaram nota neste sábado negando as acusações feitas por Leandro Nunes durante depoimento. Em linhas gerais, ela se mostra surpresa e indignada com as acusações.

Confira a íntegra da nota: 

Acerca de informações divulgadas pela imprensa no dia de hoje (9), a defesa de Livânia Maria da Silva Farias vem a público esclarecer o seguinte:

1. Até o presente momento não teve acesso ao depoimento prestado pelo Sr. Leandro Nunes Azevedo, no qual teriam sido feitas infundadas e caluniosas acusações contra a pessoa Livânia Farias, o que lhe causa surpresa e indignação.

2. Já foi solicitado ao Poder Judiciário acesso ao conteúdo do depoimento que vem sendo divulgado.

3. Que repudia, com absoluta veemência, a leviana insinuação de que um modesto imóvel, localizado na cidade de Sousa, tenha sido adquirido por Livânia Farias com recursos de origem ilícita.

4. Por fim, ressalta que está – e sempre esteve – à disposição das autoridades para prestar todos os esclarecimentos necessários.

João Pessoa/PB, 09 de março de 2019

SOLON BENEVIDES e SHEYNER ASFÓRA
– Advogados de Livânia Maria da Silva Farias –

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