Discurso resumido ao embate com fantasmas e moinhos de vento

Temas realmente importantes como desigualdade social e geração de empregos foram ignorados na posse de Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro chega ao Palácio do Planalto para cerimônia de transmissão da Faixa Presidencial.

O discurso de posse do presidente Jair Bolsonaro (PSL) foi uma pérola. Em duas oportunidades, no Congresso e no Parlatório, ele passou longe dos temas que realmente interessam ao Brasil. A retórica populista focou muito mais nas questões ideológicas, de materialidade fantasmagórica. O roteiro não é novo no Brasil. Vai na linha de lideranças populistas que precisam construir um inimigo, real ou fictício. Um dos moinhos de vento quixotescos apresentados pelo capitão reformado do Exército é o comunismo. Lembram de Getúlio Vargas e do Golpe Militar? O roteiro é o mesmo. No discurso, falou-se do “dia em que o povo começou a se libertar do socialismo”.

É preciso apenas elementar conhecimento político para saber que o Brasil nunca passou nem perto do socialismo. A tal doutrinação marxista também não permeou debates nas escolas. Você pode até fazer referência a conquistas sociais ocorridas durante os governos que abraçaram a social-democracia no país. Nenhum, efetivamente, apresentou viés comunista. O discurso, por isso, busca apenas criar trincheiras para o inimigo vindo da esquerda. Uma trincheira política lembrada em várias falas e discursos e que deve nortear as discussões sobre projetos a serem votados no Congresso. “É isso ou a volta do PT”, insiste Bolsonaro nas falas.

A prática mostra que assuntos realmente importantes para o Brasil, como a melhoria da educação, o crescimento econômico e a geração de emprego acabaram ficando em segundo plano. A história dos governos brasileiros, principalmente dos que se propuseram de ruptura, mostra que eles caíram quando não deram respostas na economia. Isso por uma lógica que podemos importar dos Estados Unidos, modelo de país adorado por Bolsonaro. Lá, em 1992, o então marqueteiro de Bill Clinton, James Carville, cunhou uma frase memorável para dizer que o adversário, George Bush, não era invencível: “É a economia, estúpido!” Os maus resultados dela derrubaram Vargas e os militares. Derrubaram Dilma também.

Se o discurso virar prática, realmente Bolsonaro terá grandes problemas. Em meio à necessidade de aprovar medidas como a reforma da previdência, desburocratização da máquina pública e outras propostas, ganhou mais força na posse o discurso sobre gênero. O debate contamina as outras pastas. Na educação, o medieval Ricardo Vélez Rodríguez tem anunciado a extirpação do marxismo e de Paulo Freire das escolas. Isso sem falar na pérola do combate à “ideologia de gênero”. É meio como contar pernas de cobra, já que cientificamente poderíamos falar até em “identidade de gênero”. Ideologia é um termo cunhado em uma cruzada intelectualmente desonesta, que serve apenas para convencer incautos.

Em meio a toda a profusão retórica do novo presidente, resta torcer para que o discurso avance pouco além do discurso. O Brasil já tem problemas demais para enfrentar. Não há espaço para a discussão do sexo dos anjos enquanto volta a crescer a mortalidade infantil e as pessoas passam fome nas ruas. Parafraseando outra fala do presidente, dita anteriormente, é preciso mais trabalho e menos palanque.

2 comentários - Discurso resumido ao embate com fantasmas e moinhos de vento

  1. João Mendes Disse:

    Uma compilação das frases do Twitter. Não tem como haver qualquer relação lógica entre defender “ética” e ao mesmo tempo ser contra o “politicamente correto”. Se em sua posse havia alguém traduzi do para linguagem de sinais é por que varias prssoas e movimentos sociais produziram a contra-hegemonia rm relação ao lugar social dos surdos. Mas há um outro grande número de pessoas também excluídas por conta das suas diversas características particulares. Será que só há de haver inclusão para as pessoas que são do inteiro interesse da primeira dama?

  2. Marcus Eugênio Disse:

    Muito pertinente a reflexão Suetoni.
    Temos enormes.problemas sociais, políticos, econômicos e éticos, combater supostas ideologias cim outras numa cruzada insana é lutar contra moinhos de vento.

Comente

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *