Articulação ou golpe? A política de Cabedelo não é para principiantes

Com articulação parlamentar, Geusa põe aliados de Vítor Hugo no bolso e vai substituí-lo no comando da prefeitura

Geusa Ribeiro vai comandar a prefeitura a partir de janeiro. Foto: Júlia Karoliny

O cantor e compositor brasileiro Tom Jobim cunhou, certa vez, uma frase genial: “o Brasil não é para principiantes”. Ele tinha razão. Nem os roteiristas da série norte-americana House of Cards superaram a nossa inventividade. E não adianta ninguém tentar duvidar. Da Casa Alta aos parlamentos mirins, o mais bobo dos parlamentares sobe uma parede de costas. O caso de Cabedelo é emblemático em relação a isso. Da derrocada de Leto Viana (PRP), preso no dia 3 de abril, junto com toda a cúpula do Executivo e do Legislativo, emergiram duas lideranças. A primeira, Vítor Hugo (PRB), foi eleito presidente da Câmara e, com isso, assumiu a prefeitura. A segunda, Geusa Ribeiro (PRP), na condição de vice, assumiu o comando da Câmara.

A relação entre os dois não era boa e foi agravada com o tempo. Enquanto Vítor Hugo centrou atenção na gestão, preenchendo a lacuna de serviços prestados à população deixada por antecessores, Geusa focou a busca da atenção dos pares, na Câmara. O primeiro ganhou cancha  e status de pré-candidato viável na disputa pela sucessão. A segunda, nos bastidores, criou as condições para vencer a disputa interna na Câmara. Enquanto Hugo se preparava para enfrentar um suposto golpe, formalmente constituído, Geusa usou o regimento para construir a recondução dela ao cargo de presidente da Câmara, no segundo biênio. Neste contexto, quando o prefeito interino se deu conta, estava aberta a contagem regressiva para a saída dele do poder.

Tudo aconteceu na última terça-feira (27). Foram remetidos vários projetos do Executivo para a Câmara. Havia também projetos de interesse dos vereadores. Foi quando o vereador José Eudes (PTB) apresentou um projeto que determinava a cassação dos mandatos dos 10 vereadores afastados no bojo da operação Xeque-Mate. Todos eram acusados de corrupção. O ato efetivava, como consequência, os dez suplentes empossados na Casa. Pelo menos 13 dos 15 vereadores aprovaram. O desdobramento disso foi o dispositivo que previa, também, a substituição dos membros da mesa eleitos para o segundo biênio e que ficaram sem cargos. Com isso, dos cinco eleitos em votação ocorrida em março deste ano, apenas Vítor Hugo manteve o cargo. Mas está justamente aí o problema.

Os vereadores mantiveram Vítor Hugo como segundo vice-presidente. Já Geusa Ribeiro foi aleita presidente, cargo que seria ocupado originalmente pela vereadora Jaqueline França, mulher de Leto e presa na operação Xeque-Mate. Foram preenchidos com novos nomes as vagas de presidente, primeiro vice-presidente, primeiro secretário e segundo secretário. Isso tirou Vítor Hugo até da linha de sucessão na Câmara. Chateado, ele acusou Geusa de manobra e de ter aplicado um golpe contra ele na Casa. O prefeito interino prometeu judicializar a questão. Ele alega que os vereadores aliados não perceberam o “jabuti” inserido em outro projeto e que resultou na mudança na composição da mesa. “Vamos protocolar uma ação contra Geusa e restabelecer a verdade”, garantiu.

Geusa nega que tenha dado golpe e acusa dos aliados do prefeito de não terem lido o projeto. Ela também nega que seja candidata a prefeita da cidade, apesar de assumir o cargo a partir de 1° de janeiro. “Não tenho pretensões eleitorais”, assegura. A disputa direta pela prefeitura vai acontecer no dia 17 de março, segundo calendário aprovado pela Assembleia Legisltiva. Vítor Hugo, por outro lado, garante que será candidato a prefeito no pleito do ano que vem. “É a vontade da população de Cabedelo”, assegura. Em dois anos, a cidade terá a quarta pessoa no comando. Se nenhum dos nomes empossados até agora for eleito na eleição direta, prevista para 17 de março, esse número aumentará para cinco. Convenhamos, Tom Jobim tem razão.

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