Tem faltado racionalidade na escolha dos candidatos a presidente nestas eleições

Ódio, ideologia e preconceito dão o tom da escolha dos representantes para Presidência da República

O caminho para mudar é através do voto. Foto: Divulgação/TSE

Os brasileiros têm bailado na margem do precipício nas eleições deste ano. A alegoria foi cunhada pelo presidenciável Ciro Gomes (PDT), no debate da TV Globo com os candidatos a presidente da República. No alvo da fala estavam os votantes divididos entre as opções Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT), líderes das pesquisas na corrida eleitoral. A frase de forte impacto, mas de pouca resolutividade prática, partiu do segundo pelotão na corrida eleitoral. Nele, falando sem eco de ressonância eleitoral, aparecem também Geraldo Alckmin (PSDB) e Marina Silva (Rede). Os outros são meros coadjuvantes. De forma surpreendente, nesta eleição, a racionalidade tem falado pouco. No final das contas, o pleito pode ser traduzido entre o “lulopetismo” e o “anti-lulopetismo”.

O líder absoluto nas pesquisas, Jair Bolsonaro, foi o maior beneficiado pela onda anti-Lula e PT. Ele aproveitou o manequim preparado pelos tucanos ao logo de anos, mas que não coube mais nos sucessores de Fernando Henrique. O contraponto à corrupção petista não poderia ser a corrupção tucana. Ao mesmo tempo que Alckmin vociferava contra a roubalheira, via colegas de partido ser presos. Isso fez com que o postulante do PSL vestisse o traje preparado pelos tucanos e fosse para as urnas. E qual é a proposta dele para o Brasil: “mudar tudo isso aí”. A proposta é ridícula do ponto de vista da racionalidade, mas é o produto das redes sociais. Um quadro dadaísta, pintado por uma criança mimada e inconsequente. O postulante critica as ideologias, em referência à esquerda, mas esquece de citar as de direita.

Eu procurei saber dos eleitores de Jair Bolsonaro o que eles esperavam do candidato. Do que eu ouvi, nada parece com o que o Brasil mais precisa neste momento. Nada de busca pelo desenvolvimento econômico, tolerância e uma unidade capaz de unir o país. A justificativa está muito mais relacionada aos costumes, ao conservadorismo. A proposta do candidato do PSL é esdrúxula em relação à segurança pública: flexibilizar o porte de arma. Armar as pessoas vai gerar, no primeiro momento, uma carnificina sem tamanho. Temos casos, na Paraíba, de bandidos invadindo quartéis e matando policiais para roubar armas. Imagine o que ocorrerá com o cidadão destreinado. A outra preocupação diz respeito à intolerância com a homossexualidade. Tudo reflexo de um Brasil ainda com viés colonial.

Já os petistas não conseguiram digerir os erros de governos anteriores. Uma mea-culpa, de vez em quando, faz bem à saúde.  Ao contrário de Bolsonaro, dá para saber o que esperar do PT. Eles estiveram no poder por 13 anos. Teve avanços incontestáveis neste período? Lógico que houve. Mas teve questão que foi ignorada. O combate à corrupção, prometido por Lula, em todas as eleições, ficou restrito ao que era descoberto pelos órgãos de controle e ao Ministério Público. Uma malha fina passou e encobrir as irregularidades e o castelo ruiu quando houve inconsistência na base. Os mesmos empresários que financiaram as campanhas e a roubalheira nos governos passados foram aceitos nas gestões petistas. O partido sabia o que estava errado e manteve.

Do ponto de vista da gestão, a sigla pode dizer que houve crescimento econômico durante os seus governos. Há apenas o lapso temporal dos governos de Dilma Rousseff, que fizeram água nos últimos anos. De forma justa, obedecendo à teoria do pêndulo, o partido localizado à esquerda, também viu ruir na sociedade o apreço aos seus ditames. De forma que vem sucumbindo frente à onda conservadora que toma conta do país. A política voltada para as minorias, necessária para o Brasil e defendida pelo partido, virou vítima dos outros erros da sigla. Nenhum dos nomes do partido, os que ocupam os altos potos, veio a público para se desculpar pelos enganos, mesmo que eles sejam menores que os acertos.

Ciro Gomes mergulhou de encontro aos eleitores de esquerda e de centro, mas chegou atrasado. O fla-flu eleitoral fez o país se dividir entre os eleitores lulistas e os adversários. Isso fez com que o discurso eloquente e cheio de respostas para as agruras brasileiras do pedetista naufragasse. Da mesma forma, Geraldo Alckmin fala para o vácuo. Tudo o que ele disse no latifúndio da propaganda eleitoral disponível apenas beneficiou ou prejudicou outros candidatos. O venha a ele, desejado, não aconteceu. Vai ter que dar expediente no postinho de saúde em Pindamonhangaba. Álvaro Dias (Podemos) não deixará boa lembrança. Pareceu muito mais o Rolando Lero da Escolinha do Professor Raimundo. Marina Silva (Rede) foi a decepção de sempre na campanha. Começa bem e o barco faz água no final.

Henrique Meirelles (MDB) herdou a impopularidade de Michel Temer (MDB), o mesmo fantasma que assombrou Alckmin. A falta de eloquência verbal impediu as pessoas de sentirem a necessidade de chamar o Meirelles, então, “vaya con dios”. Da mesma forma, João Amoêdo e seu Partido Novo conseguiram falar apenas para os banqueiros e rentistas. Ele virou escada para bolsonaristas. Guilherme Boulos (Psol) lembrou muito o Lula de 1989. O Brasil não está preparado para ele. Ou o contrário. José Maria Eymael (DC) foi o de sempre, zero à esquerda. Já Vera Lúcia (PSTU) foi a utopia de sempre, fundada na proposta de uma rebelião. Com medo de ter esquecido alguém, termino este artigo por aqui pedindo orações para o Brasil. Nós vamos precisar.

 

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