Fuga da degola: Temer mandará ministros com mandato de volta à Câmara

Com avaliação pessoal no solo, presidente aposta nos aliados para conseguir sobrevivência

Michel Temer teve a já péssima avaliação piorada com a delação da JBS. Foto: Divulgação/PR

A cruzada do presidente Michel Temer (PMDB) para garantir a sua sobrevivência vai merecer muitas teses de doutorado no futuro. A ciência, vale ressaltar, teria dificuldades de explicar tamanha desenvoltura rumo à fuga da degola de alguém com tantas denúncias graves pesando contra ele e ainda com a popularidade no solo. Digo teria se não houvesse uma explicação simples: o “efeito Orloff”. Os mais jovens terão dificuldade de entender a premissa, por não terem visto na TV o repetitivo comercial com a lógica do “eu sou você amanhã”. Sim, porque as principais lideranças da Câmara e do Senado sabem que a condenação de Temer é um prenúncio da deles. Em poucos lugares há tão poucos inocentes e tantos cúmplices como no Legislativo.

O presidente Temer foi à feira e liberou R$ 4,2 bilhões em emendas parlamentares. É muito? Sim, é muito. Apesar disso, a boa ação com o chapéu alheio seria insuficiente para justificar tanto apoio. Afinal, estamos falando do presidente gravado pelo empresário Joesley Batista, da JBS. Na gravação, ele concordava com a compra do silêncio do ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e do lobista do PMDB, Lúcio Funaro. Foi citado nas delações da Odebrecht. Sim, é verdade que ele não pode ser condenado por elas, porque os crimes teriam ocorrido antes de ocupar a presidência. Apesar disso, mostra uma aparente conduta delitiva reiterada.

São necessários 342 votos para que a Câmara dos Deputados autorize a abertura de processo no Supremo Tribunal Federal (STF). Temer é acusado pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, da prática de corrupção passiva. Para salvar a própria pele, neste primeiro processo, o presidente precisa da negativa ou da ausência de 172 parlamentares na sessão. Os aliados dele acham esse número bastante razoável de ser conseguido. Acreditam, inclusive, que vão conseguir muito mais. Apesar de ser o presidente mais impopular da história recente do país, amargando míseros 5% de aprovação, segundo o Ibope, ele tem usado como ninguém a caneta que dispõe.

Já acertou com todos os ministros com mandato na Câmara dos Deputados para voltarem à Casa. A medida foi usada também por Dilma Rousseff (PT) para tentar escapar do impeachment. Ela, no entanto, era menos habilidosa no agrado aos parlamentares. Entenda isso, também, como promessa de perdão de dívidas com a União e mudanças nas regras de demarcações, pautas que agradam a empresários e ruralistas. Não tem faltado dinheiro para ajuda às bases dos parlamentares nos estados, apesar do déficit de R$ 139 bilhões nas contas públicas. E para isso ainda dependendo do reajuste de PIS e Cofins negado e depois liberado pela Justiça. O que não faltam são fatos que corroboram com a necessidade de autorização do processo. Mesmo assim, dificilmente ele sairá do papel.

Os ministros convocados para retornarem à Câmara dos Deputados são Antonio Imbassahy, do PSDB (Secretaria de Governo), Bruno Araújo, do PSDB (Cidades), Maurício Quintella, do PR (Transportes), Osmar Terra, do PMDB (Desenvolvimento Social), Leonardo Picciani, do PMDB (Esporte), Raul Jungmann, do PPS (Defesa), Mendonça Filho, do DEM (Educação), Ronaldo Nogueira, do PTB (Trabalho e Emprego), Ricardo Barros, do PP (Saúde), Fernando Coelho Filho, do PSB (Minas e Energia), Sarney Filho, do PV (Meio Ambiente), e Marx Beltrão, do PMDB (Turismo).

Veja os números da última pesquisa Ibope sobre a avaliação do presidente Michel Temer (PMDB):

Ótimo/bom: 5%
Regular: 21%
Ruim/péssimo: 70%
Não sabe/não respondeu: 3%

Esta é a pior avaliação de um presidente desde 1986, quando foi iniciada a série histórica. A outra marca outra marca de fundo de poço registrada foi de outro peemedebista, também feito presidente após disputar o cargo na condição de vice, José Sarney (AP). Ele alcançou a marca de 7% de aprovação em 1989.

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