Cássio Cunha Lima admite que a política tradicional faliu

Cássio Cunha Lima (C) conversa com Aécio Neves (PSDB-MG) e Ronaldo Caiado (DEM-GO). Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

Acabou! Poderia ser essa, sem dúvida, a análise sobre a defesa feita pelo senador Cássio Cunha Lima (PSDB) do nome da presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Cármen Lúcia, para a disputa da Presidência da República em caso de cassação do mandato de Michel Temer (PMDB-SP). As declarações foram feitas durante entrevista à rádio RPN, em João Pessoa, e revelam o descrédito da política tradicional aos ser analisada, atenção a isso, por um político tradicional.

A constatação do senador tem como base, realmente, qualidades que a gente não costuma mesmo ver na política tradicional, que poderia muito bem fechar para balanço. Ao descrever Cármen Lúcia, Cássio se refere a ela como “uma mulher cuja honestidade e probidade ninguém discute, que tem experiência, tem capacidade e que poderia cumprir um período de transição”. Qualidades, a propósito, que se tornaram mais raras entre os políticos quando vieram à luz as denúncias da operação Lava Jato, que pôs em xeque praticamente todos os políticos.

“Eu acho que, quando você olha dentro dos nomes da política partidária, da chamada política tradicional, talvez você tenha alguma dificuldade (em pensar em um nome). É preciso pensar um pouco mais largo e o Brasil já deu demonstração de disposição de dar oportunidade para as pessoas que também não estão na militância política mais tradicional”, disse Cunha Lima, depois de descartar o nome do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso como opção, por ele já ter dado a sua contribuição ao país.

O sentimento de falta de opção tem contaminado a política tradicional, porque ninguém sabe quem vai ficar de pé depois das investigações da Lava Jato. A delação da Odebrecht, também conhecida como “delação do fim do mundo”, pesa para esta avaliação. Bastou vazar o conteúdo de uma das 77, a de Cláudio Melo Filho, para que o núcleo duro do governo Temer tremesse na base. A coisa não é menos comprometedora em relação às outras opções. Todos os presidenciáveis, seja do PMDB, PSDB, Rede ou PT, estão entre os citados em delações.

Vem crescendo a desconfiança na classe política de que o presidente Temer não termina o mandato. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) vai julgar a chapa Dilma-Temer, vitoriosa nas eleições de 2014. Os novos desdobramentos da operação Lava Jato apontam no sentido de que dificilmente o peemedebista escapará de uma condenação. O presidente combina uma base consistente na Câmara dos Deputados e no Senado com uma impopularidade histórica, além de uma fragilidade assustadora dos seus apoiadores, todos investigados por corrupção.

A política tradicional dá sinais de que encontrou o seu ocaso e precisará ser reinventada. Agora, convenhamos, não será por meio da canonização dos personagens ligados à Justiça. Me explico melhor. A ministra Cárnen Lúcia é essencial no cargo que ocupa, da mesma forma que o juiz federal Sérgio Moro. A renovação da classe política tem que ocorrer por meio do voto e a responsabilidade para isso é do eleitor. Caso Temer seja cassado a partir de janeiro, a eleição do seu substituto será indireta.

 

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