A hipocrisia por trás da proibição das vaquejadas

Foto: Angélica Nunes

Foto: Angélica Nunes

Tenho encontrado grandes debates, nos últimos dias, em relação à proibição das vaquejadas. Os defensores da prática (prefiro não chamar de esporte) saíram às ruas, para se manifestar contra a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que, com margem apertada de votos, decidiu pela inconstitucionalidade de uma lei cearense que disciplinava a derrubada de boi. A decisão abre espaço para que magistrados de instâncias inferiores, se provocados, proíbam as festas  derrubada do boi. Ao contrário do que muita gente pensa, não houve decisão proibindo diretamente as vaquejadas, mas é inegável que a decisão gerou insegurança jurídica para todas elas.

Por experiência própria, confesso que fui a pouquíssimas vaquejadas na minha vida e nunca me senti, digamos, atraído. Agora, não dá para desconsiderar a importância histórica da festa. Uma tradição que se confunde com a origem das cidades do Agreste e do Sertão do Nordeste. O gado era criado solto e, periodicamente, os vaqueiros corriam na caatinga a procurar o rebanho. A festa surgiu daí. É uma indústria, hoje, que movimenta milhões de reais e emprega também milhares de pessoas. Tem gente que ganha e tem gente que perde dinheiro como em qualquer prática esportiva. Serve de entretenimento tendo o vaqueiro e, de forma involutária, o boi como principais estrelas.

A decisão do STF tem uma função importante. Serviu, sobretudo, para resgatar o debate. Já estava mais do que na hora. Entidades e grupos têm se organizado para dizer que são contra as vaquejadas. A alegação mais recorrente é a de maus tratos. Acham primitiva a prática de puxar os bois pela cauda, fazendo com que eles caiam entre duas faixas pintadas de cal. O animal deve realmente sofrer ao ser puxado pelo rabo. Concordo e aceito o argumento quando apresentado por pessoas que não consomem carne bovina. São vegetarianos ou adeptos da dieta do mediterrâneo, mais saudável, inclusive, que o consumo da carne vermelha.

Não dá, no entanto, para travar um embate descente com quem não resiste a um churrasco. Esta pena dos animais não combina com os amantes da picanha. Quer dizer, puxar a cauda do bicho não pode, mas se ela vier no prato em forma de rabada, tudo bem? Não amigo. A defesa mais comum para o argumento é a de que não se está discutindo cadeia alimentar. Um argumento, convenhamos, sem sentido. Os seres humanos estão na cadeia alimentar de leões e tigres e os animais são mortos nos zoológicos sempre que fazem valer o instinto e atacam quem se aproximar mais das jaulas. Por esta lógica, não deveriam ser sacrificados.

Duvido que o Supremo venha a incluir os rodeios nesta discussão e eles sejam proibidos. A atividade é mais ofensiva aos animais, mas se desenrola em uma região mais rica do país. Temos muito a discutir ainda sobre o consumo de carne bovina para, depois disso, chegarmos nas vaquejadas. Quando o gado deixar de ir para o prato, sim, chegará a hora de acabar com todas as vaquejadas, rodeios e touradas do planeta. Nada é mais primitivo que o ser humano nos dias de hoje ainda estar consumindo carne de outros animais para se manter vivo.

10 comentários - A hipocrisia por trás da proibição das vaquejadas

  1. Mário Disse:

    Pois é amigo, uma coisa é você usar a carne do animal como alimento, outra coisa é derrubar um boi pelo rabo, já vi vídeo de vaquejada que chega até a torar o rabo do animal, ali ele está sofrendo por um objetivo vago.
    Também sou contra se na hora do abate torturar o animal, eles foram criados para nos servir de alimento, calçado, roupa, no trabalho e etc, não para trazer divertimento para uns com seu sofrimento.

  2. saulo marinho Disse:

    Nao dá para misturar as tintas amigo jornalista, suas colocações de comparar churrasco com vaquejada em detrimento do sofrimento, e ate de tortura dos bois, cavalos e do próprio cavalheiro em observância a uma falsa tradição.
    Comia-se e ainda hoje se consome galos de briga, pássaros e o embate em brigas e torneios era uma tradição mais a fundamentação , de sofrimento de degradação destes animais nestes torneios sangrentos em prol da diversão de poucos foi fundamentação importante para que fosse proibidas em todo território nacional.
    Existe amigos alternativas extradicionaria para os caríssimos cavalos de raça, não puxar carroças, mais que novos eventos e competições sejam cultivados em prol da tão propalada criação de empregos e rendas e porque não dizer de diversões de muitos, ao invés da diversão de poucos como ocorre nas vaquejadas.

  3. Maristana Disse:

    Seria tão interessante que os: não hipócritas, tivessem a oportunidade de ser o próximo boi a ser violentamente derrubado.
    A propósito não é causa e sim cauda. Corrige lá!

  4. José Ivaldo Brito Disse:

    Na Índia era tradição queima a viúva viva. Seguindo o mesmo raciocínio do colunista, apareceu um governante dotado de grande hipocrisia e proibiu a pratica de tal tradição, mas afinal, a hipocrisia é de quem a proibiu ou justificar a continuidade da prática porque é uma tradição.

  5. Antonio Fernandes Disse:

    Esses mesmos defensores que votaram contra a vaquejada, será que também são contra a festa do peão de Barretos? ou para o NE é uma medida e pra o SE, é outra?. Com a palavra os “defensores”.

  6. Newton Mota Disse:

    Caro Suetoni, a vaquejada não se resume a derrubada do boi. Mas, por exemplo, quem entende de vaquejada sabe, que elementos importantes são observados, como por exemplo a destreza da dupla de vaqueiros e destes e seus cavalos(vice e versa) em segundos/minutos, digamos, na pista. Observa-se também, que não é todo boi que os vaqueiros conseguem derrubar, pois o animal sabe sair da situação, fuga e não é derrubado. Aí está o cerne do esporte. As pessoas, em sua grande maioria, não enxergam essas peculiaridades do esporte.
    Não se compara nem de longe com os rodeios do sul maravilha.
    É discutível a origem da vaquejada. Com certeza não foi da “pega do boi ” na caatinga nordestina. Regras de segurança tem de ser adotadas, prevenindo o sofrimento e os maus tratos, eventualmente existentes nesse tipo de evento. Quem conhece o esporte, sabe que os animais são bem tratados e bem cuidados. Rabo partido/torado !? qual o esporte sem riscos ?! Você vai andar de bicicleta, tomba, bate a cabeça no chão, tem traumatismo craniano e corre risco de morte. Pode ir a óbito. E aí !? E vamos acabar com a indústria das magrelas !?
    Não existe tradição mutante e muito menos cultura mutante. Não.
    Existe sim, uma cultura secular e uma tradição que está na nossa raiz, que deve ser preservada, sim senhor !. E viva o movimento armorial de Ariano Suassuna.

  7. Antonio Fernandes Disse:

    Esses mesmos defensores que votaram contra a vaquejada, alegando maus tratos aos animais. Porque não acabam com a festa do peão em Barretos? porque uma medida com o NE e outra com SE?. Com a palavra os “defensores”.

  8. jackson Disse:

    Instinto perverso do homem fazer do sofrimento animal o seu divertimento.

  9. José Alberto Disse:

    Um boi puxando um arado, sofre menos?. E puxando uma carroça? Num caminhão fechado, por horas numa estrada, sofre menos?

Comente

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *