O que 64 tem a ver com a crise vivida hoje no país?

Têm sido inevitáveis as comparações entre os momentos vividos no Brasil em 1964 e o quadro político e econômico atual. Até por que há, sim, algumas semelhanças. Mas se a pergunta é sobre o risco de um novo golpe militar nos dias de hoje, eu respondo que é pouco provável. Assim como há semelhanças, há muitas diferenças entre aquele 31 de abril e o atual. Se antes tínhamos do lado contrário ao golpe uma grande efervescência social e intelectual, com destaque para o Nordeste, agora temos instituições mais sólidas e capazes de resistir a uma intervenção.

É abissal e desproporcional comparar a figura política João Goulart com Dilma Rousseff. O primeiro tinha maior autonomia na condução política, apesar da mesma dificuldade de construir uma base parlamentar sólida. Além disso, o país tinha uma base econômica muito fundada na agricultura, com os proprietários de terra temerosos de uma reforma agrária mais ampla, por conta das Ligas Camponesas, que tinham como maior ícone o advogado pernambucano Francisco Julião. Aqui na Paraíba, as Ligas Camponesas de Sapé fizeram história e tiveram um mártir, João Pedro Teixeira.

Além do medo dos grandes produtores rurais, a revolução cubana fez com que os Estados Unidos vissem o Nordeste brasileiro com preocupação, por causa da efervescência social e intelectual, com nomes como o paraibano Celso Furtado, idealizador da Sudene, e os pernambucanos Paulo Freire e Josué de Castro. Temendo essa combinação, aliada às reformas de base prometida por Jango, os norte-americanos estimularam o movimento que resultou no golpe. O mesmo foi feito em vários países da América Latina, por meio da operação Condor, que alinhava militares sul-americanos e a CIA.

Na época, diferente de hoje, alardeavam o risco da implantação de uma ditadura comunista. Convenhamos, o PT pode ser tudo, menos inspirado em qualquer ideologia mais radical de esquerda. Sem falar que os militares tinham saído da segunda guerra mundial com grande apelo popular e, em outras oportunidades, tinham tentado dar o golpe. Mesmo que se diga que a Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) e os grandes conglomerados empresariais façam hoje o papel dos latifundiários de antes, não há clima popular para isso. Não ainda.

O impeachment da presidente Dilma Rousseff, apesar das dificuldades dos seus autores de justificar a materialidade dos crimes, tem respaldo na falta de apoio popular da gestora. Com a economia aos frangalhos e o desemprego galopando, é difícil para ela frear com a ajuda da população um processo meramente político. Até por que a gestora se afastou da base popular do partido e a economia, definitivamente, não dá resposta. Os sindicatos, partidos e entidades até têm ido às ruas, mas sem a presença espontânea da população favorável a ela.

Para concluir, não vai ter golpe. Já impeachment, isso sim, é um risco muito factível.

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