Zé Ramalho passou por aqui antes da fama

Oh, eu não sei se eram os antigos que diziam

Todos conhecem. É o verso inicial de Vila do Sossego, de Zé Ramalho.

Sabem de onde vem o título da canção? Da casa onde ele morou na Avenida Ingá, no bairro de Manaíra, em João Pessoa, há mais de 40 anos. O artista chamava a casa de Vila do Sossego. Lá, recebia os amigos, compunha, tocava, cantava.

Nos aviões que vomitavam paraquedas

Esse verso traduz uma visão de Zé Ramalho: os paraquedistas saltando nas imediações do aeroclube de João Pessoa, que ficava (e ainda fica) perto da Vila do Sossego. Se comparado com o de hoje, o bairro de Manaíra daquela época era praticamente deserto.

Ontem (21), eu estive na frente da Vila do Sossego. A casa ainda existe. Bati palmas, mas ninguém atendeu.

A ida à Vila do Sossego fez parte de um périplo pela João Pessoa dos anos 1970. Coube a mim mostrar à jornalista Chris Fuscaldo (com ela estava a cineasta Ceci Alves) os lugares por onde Zé Ramalho passou antes da fama.

Chris Fuscaldo vive e atua no Rio de Janeiro, mas escolheu um paraibano para ser seu biografado. Há dez anos, trabalha no projeto de contar, num livro, a história de Zé Ramalho. O trabalho está na reta final.

Da sede do Cabo Branco, no Miramar, onde a primeira canção composta por Zé foi ouvida pelo público, ao quartel do 15 RI, em Cruz das Armas, onde ele prestou o serviço militar, percorremos muitos lugares.

O Jardim das Acácias, que originou a canção, era o lugar onde morava o artista plástico Raul Córdula. No Pio X, Zé foi aluno e, mais tarde, fez show na quadra do colégio. No ginásio do Astrea, dividiu (ele e Os Quatro Loucos dos irmãos Miranda) o palco com o jovem Roberto Carlos. Anos depois, já um nome nacional, reuniu uma multidão no show que fazia com Amelinha.

O Teatro Santa Roza recebeu o show Atlântida, em 1974. E o Vou Danado Pra Catende, de Alceu Valença (Zé estava na banda com sua viola), em 1975. E a Coletiva de Música da Paraíba, em 1976. Na coletiva, Zé cantou Avôhai pela primeira vez em público. Eu estava lá. Foi inesquecível!

No adro da igreja de São Francisco, houve o Encontro Artístico Espiritual da Paraíba, em novembro de 1974. Ao lado, ficava o colégio Lins de Vasconcelos. De lá, Zé saía pela Duque de Caxias e, na esquina com a Miguel Couto, entrava na Stop, a melhor loja de discos da cidade, dos irmãos Carlos Roberto e Roberto Carlos de Oliveira.

Do Lins de Vasconcelos, Zé saía também para o Cine Municipal. A quinta-feira era o dia das sessões do Cinema de Arte – resultado do diálogo sempre harmonioso do empresário Luciano Wanderley com os críticos da cidade.

Levei a biógrafa de Zé Ramalho no velho Municipal. No beco ao lado, encontrei Nivaldo, que trabalhou no cinema. Estava sentado numa poltrona azul que, no passado, recebeu tantos espectadores. Ele me deu uma chave, abri um cadeado numa corrente enferrujada, e me vi nas ruínas do cinema.

A sala empoeirada, as poltronas amontoadas em frente à tela onde, como Zé, vi Woodstock, ícone de uma geração. E, claro, Chaplin, Hitchcock, Fellini, Truffaut, Kazan, Kubrick! E os Beatles!

Chris Fuscaldo visitou todos esses lugares com a emoção de quem está escrevendo a biografia de Zé Ramalho. Eu, com a nostalgia de quem foi contemporâneo de histórias que o livro vai contar.

A selfie flagra o instante em que me vi abrindo a porta lateral do velho cinema. Parecia um sonho. Mas não era um sonho alegre.

Há cinco paraibanos nas 101 canções que tocaram o Brasil

101 Canções que Tocaram o Brasil é o novo livro de Nelson Motta. Foi escrito com colaboração de Antônio Carlos Miguel. Na parceria, há uma lição de tolerância porque, hoje, Motta é grande crítico da esquerda, e Miguel, não.

Há quem diga que o cancioneiro popular fala do nosso destino como Nação. Se é verdade, um livro como esse, ao percorrer um século de canções, conta algo da nossa história.

Vou me prender apenas à presença paraibana.

Nas 101 canções escolhidas por Nelson Motta, há cinco autores e seis músicas que dizem respeito a nós, paraibanos:

Chiclete com Banana, que Jackson do Pandeiro gravou em 1959. Jackson, que o autor chama de “grande mestre do suingue e das divisões rítmicas”.

Caminhando, o hino de protesto composto por Geraldo Vandré no convulsionado ano de 1968.

A Lua e Eu, do soul man Cassiano. “Não era só um sucesso do momento, com o tempo se tornou um clássico”, diz Motta da balada de Cassiano.

Admirável Gado Novo, de Zé Ramalho, que o livro classifica como “o melhor exemplo da força, audácia e personalidade do estilo do autor”.

Alagados e Lanterna dos Afogados, dos Paralamas do Sucesso, grupo liderado pelo paraibano Herbert Vianna. Os Paralamas, na opinião de Nelson Motta, “sinalizavam versatilidade e muito bom gosto desde a sua entrada em cena”.

No posfácio, que justifica as ausências, há uma breve menção a Chico César (À Primeira Vista), outra a Zé Ramalho (Frevo Mulher) e mais uma a Geraldo Vandré (Canção da Despedida, parceria com Geraldo Azevedo).

Alceu Valença revive “Vivo!”. Meninos, eu vi em 1975!

Primeiro, as imagens.

O show que aparece no disco Vivo!, que Alceu Valença lançou em 1976, passou por João Pessoa um ano antes.

Esse garoto cabeludo da foto, segurando um gravador jurássico, sou eu aos 16 anos, entrevistando Alceu no Teatro Santa Roza!

Essa é a capa de Vivo!, o disco de 1976 lançado pela Som Livre.

E essa é a capa de Vivo! Revivo!, lançado há pouco.

Depois das imagens, vamos ao texto.

Vou Danado Pra Catende! 

O show era extraordinário!

No palco, Alceu Valença acompanhado por Zé Ramalho e sua viola, Lula Cortes e seu tricórdio e a banda pernambucana Ave Sangria, que já fora Tamarineira Village.

Podemos resumir assim: a tradição musical nordestina revisitada com sotaque roqueiro.

Alceu oferecia uma nova leitura do que os tropicalistas haviam feito um pouco antes. E Chico Science faria muito depois.

Depois do festival Abertura, lançara o primeiro disco solo, Molhado de Suor. Em seguida, Vivo! traria parte do repertório do show Vou Danado Pra Catende. Espelho Cristalino completaria depois essa primeira fase do artista.

Quatro décadas se passaram, e Alceu Valença comemorou reencontrando o Vivo!. O show, gravado em 2015 no Teatro Santa Isabel, no Recife, está disponível em CD e DVD. Vivo! Revivo! traz todo o repertório do LP de 1976, além de faixas de Molhado de Suor e Espelho Cristalino.

Não tem as limitações técnicas do original, mas também não tem a mesma garra. É o Alceu de ontem interpretado pelo Alceu de hoje. De todo modo, é muito bom de ouvir!

RETRO2016/Zé Ramalho e Sinfônica PB numa noite inesquecível

Um grande momento do ano que está acabando: o concerto de Zé Ramalho com a Orquestra Sinfônica da Paraíba no teatro A Pedra do Reino.

Comento a seguir.

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Os acordes iniciais e os primeiros versos de Avôhai arrebataram o público de quase três mil pessoas no teatro A Pedra do Reino. Que canção enigmática e mágica. Agora, vista de longe. Tão nordestina quanto universal.

Que beleza ver seu autor reapresentando a música na mesma cidade onde a cantou pela primeira vez, 40 anos atrás, num evento chamado Coletiva de Música da Paraíba, no velho Teatro Santa Roza.

Testemunhei os dois momentos. Separados por quatro décadas, eles podem sintetizar a longa caminhada de Zé Ramalho.

Essa noite dele com a Orquestra Sinfônica da Paraíba foi histórica. Doze canções retiradas de discos seminais ganharam os adornos luxuosíssimos de uma grande formação. Quase 140 músicos a executar os belos arranjos escritos por Emanoel Barros, um jovem de 21 anos. O solista era o próprio autor: Zé, sua voz e seu violão. Tudo sob a batuta de Luiz Carlos Durier, o maestro que não continha a alegria de estar ali.

AvôhaiVila do SossegoChão de GizAdmirável Gado Novo. Cada uma das canções do certeiro set list escolhido pelo compositor confirmava a força e a beleza da sua música. Mais do que isto: a permanência delas. O tempo, em sua inevitável passagem, já as tornou verdadeiros clássicos populares.

Clássico é o que diz respeito ao período do classicismo. Clássico é uma expressão utilizada para denominar a música de concerto. Mas clássico é também o repertório que fica. Explicou didaticamente o maestro Durier numa de suas falas à plateia.

O público do concerto de Zé Ramalho com a Orquestra Sinfônica da Paraíba foi testemunha de um encontro repleto de significados. Uma noite inesquecível. Para ficar muito bem guardada na nossa memória afetiva.

Salve, Zé!

Biógrafa de Zé Ramalho lança livro sobre Legião Urbana

Discobiografia Legionária. É o nome de um livro que está sendo lançado pela LeYa.

Antes, um pouco sobre a autora.

Vocês conhecem Chris Fuscaldo?

É uma jornalista do Rio de Janeiro que escreve sobre música. Mas o que quero destacar é que Chris é a biógrafa de Zé Ramalho. Há anos, ela pesquisa e trabalha na biografia autorizada do compositor paraibano. Já esteve mais de uma vez aqui na Paraíba para entrevistar a família e os amigos de Zé e conhecer os lugares onde o músico viveu antes de se projetar nacionalmente.

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Pois é de Chris Fuscaldo essa Discobiografia Legionária que agora chega às livrarias, encerrando o ano que marcou as duas décadas sem Renato Russo.

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O título explica tudo. Trata-se de uma história da banda Legião Urbana contada através dos discos. Bacana! Valoriza um objeto – o disco – sem o qual não existiria nada do que nós, fãs de música popular, consumimos.

As histórias que Chris conta no livro estão associadas aos discos da banda. E são todos. Os de estúdio, os ao vivo, as coletâneas e os projetos solo.

A Discobiografia Legionária nasceu de um trabalho que Chris Fuscaldo realizou em 2008. A jornalista foi convidada pela EMI para escrever os textos que acompanhariam o relançamento, em LP e CD, dos discos de carreira da Legião Urbana.

O material que ela reuniu foi muito maior do que o necessário. O desejo de compartilhá-lo com os fãs da Legião resultou nesse livro que enriquece o que já foi dito e escrito sobre Renato Russo e seus companheiros.

Muito bom para ler. Ótimo para consulta.

Sem Zé Ramalho, Grande Encontro não é mais o mesmo

Dois quartetos notáveis formados por artistas nordestinos para shows à base de vozes e violões:

Na década de 1980, Cantoria.

Na de 1990, O Grande Encontro.

No primeiro, Elomar, Geraldo Azevedo, Vital Farias e Xangai.

No segundo, Alceu Valença, Elba Ramalho, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho.

O ano de 2016 marcou o retorno dos dois projetos. Cantoria voltou com seus quatro integrantes. Mas, com a ausência de Zé Ramalho, O Grande Encontro mantém o formato de trio já adotado nos anos 1990, no período em que Alceu Valença deixou o grupo.

Neste sábado (26), o público pessoense vê O Grande Encontro na Domus Hall.

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Confiram o set list do show:

1. Anunciação – Alceu, Elba e Geraldo
2. Caravana – Alceu, Elba e Geraldo
3. Me dá um beijo – Alceu, Elba e Geraldo
4. Sabiá – Alceu, Elba e Geraldo
5. Papagaio do futuro – Alceu e Geraldo
6. Moça bonita – Alceu e Geraldo
7. Sétimo céu – Geraldo
8. Parceiro das delícias – Geraldo
9. Dia branco – Geraldo
10. Só depois de muito amor – Geraldo
11. Bicho de sete cabeças II – Elba e Geraldo
12. Canta coração – Elba e Geraldo
13. Sangrando – Elba
14. Chão de giz – Elba
15. Na base da chinela – Elba
16. Qui nem jiló – Elba
17. Eu só quero um xodó – Elba
18. Candeeiro encantado – Elba
19. Ciranda da rosa vermelha – Alceu e Elba
20. Flor de tangerina – Alceu e Elba
21. Cabelo no pente – Alceu
22. La belle de jour – Alceu
23. Girassol – Alceu
24. Coração bobo – Alceu
25. Morena tropicana – Alceu
26. Ciranda da traição – Alceu, Elba e Geraldo
27. Táxi lunar – Alceu, Elba e Geraldo
28. Pelas ruas que andei – Alceu, Elba e Geraldo
29. Banho de cheiro – Alceu, Elba e Geraldo
30. Frevo mulher – Alceu, Elba e Geraldo

Quinteto da Paraíba convida Xangai para concerto memorável

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Quinta e sexta-feira (13 e 14), o Quinteto da Paraíba deu início a um novo projeto. Nele, o grupo sobe ao palco trazendo sempre um artista convidado. O primeiro foi Xangai.

Tinha tudo a ver. No final dos anos 1990, o quinteto e o cantor baiano gravaram juntos um disco antológico (Um Abraço Pra Ti, Pequenina). Parte do repertório foi reapresentada no concerto de dois dias atrás.

Ave de Prata, de Zé Ramalho, teve uma grande performance vocal de Xangai. Mas lá estavam também momentos marcantes de Antônio Barros, Geraldo Vandré e Herbert Vianna.

E – claro! – de Jackson do Pandeiro. Como Alceu Valença e Gilberto Gil, Xangai tem em Jackson uma de suas influências. No jeito de cantar, no modo de fazer a divisão rítmica.

Conheci Xangai no Projeto Pixinguinha de 1979. Faz tempo! Tenho muita admiração pelo trabalho dele.

Sempre correu por fora, longe do mainstream. É opção. Fica como interessantíssima reserva de qualidade e independência.

Canta muito. Belo timbre vocal com notáveis falsetes. Recursos preservados a despeito da passagem do tempo, como vimos sexta-feira no palco da Sala de Concertos Maestro José Siqueira, do Espaço Cultural.

O quinteto abriu com números instrumentais. Em seguida, dividiu o palco com Xangai. Mais na frente, o convidado ficou só ao violão. E, por fim, grupo e cantor se encontraram para o grande final.

Belíssimo concerto! Muito oportuno para abrir esse projeto Quinteto da Paraíba Convida. Em janeiro tem mais. Carlos Malta, me disse Xisto Medeiros.

Todos de parabéns!

Bob Dylan, o bardo judeu romântico de Minnesota, é Nobel de Literatura!

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Começamos esta quinta-feira (13) com uma grande e surpreendente notícia. Bob Dylan é Nobel de Literatura!

Surpreendente porque a regra é que o prêmio da Academia Sueca vá para um nome da literatura. Não para um músico. Um músico de rock, um letrista de música popular, e não um poeta no sentido clássico da palavra.

Grande notícia porque tem uma extraordinária força simbólica. Dar o Nobel a Dylan é conferir aos letristas da música popular um status acadêmico nem sempre admitido. É reconhecer as inovações literárias processadas no seu campo de criação. É também premiar uma geração brilhante que, meio século atrás, enriqueceu o mundo com suas melodias, seus versos, suas ideias generosas.

O Dylan premiado com o Nobel representa todos. Os Beatles, os Rolling Stones, a musa Joan Baez, Paul Simon, que hoje faz 75 anos. Os daqui também. Caetano, Chico, Gil, grandes letristas, no nível dos melhores do mundo. O nosso Zé Ramalho, em cuja música há tantos traços de Dylan, a quem já dedicou um disco inteiro.

Júbilo para os ouvintes de Mr. Zimmerman! Principalmente os da geração dele, os que puderam ouvi-lo desde o início, há mais de 50 anos. Também para os da minha faixa etária, os que estão beirando os 60. Os que alcançaram Dylan num momento de grande criatividade, ainda com o frescor da juventude por perto.

Em maio, quando Dylan fez 75 anos, escrevi algo sobre ele. Transcrevo parte aqui:

Judeu, Robert Allen Zimmerman é, nos Estados Unidos, o maior compositor popular de sua geração. E o mais influente. Até os Beatles foram influenciados por ele. Quando John Lennon trocou as letras ingênuas da Beatlemania por versos que falavam das suas dores, o fez por causa de Dylan. As marcas principais do que Bob Dylan criou estão nos primeiros anos da sua trajetória. O artista que ouvimos no início da carreira une a tradição folk à canção de protesto. E logo em seguida rompe com essas duas opções. Abandona o acústico e adota o elétrico e abre mão do discurso engajado para falar de si próprio. Se quisermos sintetizar assim a sua produção, já teremos um retrato fidelíssimo do que ele é.   

Sete discos nos oferecem o melhor Dylan. De The Freewheelin’ (1963) a John Wesley Harding (1968). Entre os dois, temos Highway 61 Revisited e Blonde on Blonde. As questões cruciais do artista e sua obra estão neles. Mas é claro que há muito o que ouvir nos anos seguintes. De New Morning a Desire, de The Basement Tapes a Blood on the Tracks. E o ao vivo Before the Flood, em que divide o palco com o grupo The Band, que o acompanhou muitas vezes em estúdios e turnês. 

Bob Dylan correu muitos riscos. Os primeiros, quando rompeu com a tradição folk e o engajamento político na América da primeira metade da década de 1960. Mas houve outros. De um, ao menos, ninguém esquece: o judeu convertido ao cristianismo na segunda metade dos anos 1970. Na década seguinte, voltou às origens e nunca mais cantou para Jesus. Assim é Bob Dylan. De cara limpa ou com o rosto todo pintado. Acústico ou elétrico. Engajado ou recolhido aos seus tormentos. Judeu ou cristão. Não importa. O que temos nele é um grande trovador do seu tempo. Com a beleza da voz nasal, da guitarra imprecisa e das imagens poéticas. Faltam respostas, mas o vento ainda está soprando ao seu lado.      

Quem chama Dylan de o bardo judeu romântico de Minnesota é Caetano Veloso, na letra de A Bossa Nova É Foda.

Reaudição de domingo: o melhor de Zé Ramalho num box com quatro CDs.

O recente concerto de Zé Ramalho com a Orquestra Sinfônica da Paraíba me leva a reouvir A Caixa de Pandora e a resgatar um texto em que comento o box e narro um reencontro com o artista.

Quatro discos oferecem uma síntese da carreira de Zé Ramalho. O autor e o produtor Marcelo Fróes escolheram um repertório que funde o que é previsível ao que não é.

Dois discos reúnem os sucessos. As canções retiradas dos primeiros discos de Zé reavivam a lembrança do instante em que ele se consolidou como um artista de dimensão nacional, na segunda metade da década de 1970. Conservam a beleza e a força originais. Atravessam o tempo. Permanecem colocadas aos nossos ouvidos e à nossa memória afetiva. É bom compará-las com as regravações da Antologia Acústica. Cada versão tem vida própria. As mais antigas flagram o artista num momento de intensa criatividade, com a voz jovem e os desejos da conquista. Aquelas feitas 20 anos depois trazem o distanciamento da maturidade.

A caixa segue com um disco dedicado ao intérprete. De Caetano, Gil, Milton, Tom, Roberto & Erasmo. Lá estão também Raul Seixas, Gonzaguinha, Renato Teixeira, Lulu Santos e Guilherme Arantes. Muitos fonogramas vieram do álbum duplo Estação Brasil. Zé e Fagner brilham na releitura de Amigo, de Roberto & Erasmo, transformada num choro canção que está entre as faixas inéditas.

O quarto disco é o das raridades. Nele aparecem algumas gravações feitas para o CD dedicado a Raul e não liberadas à época do lançamento. Nos últimos anos, nos trabalhos em que o intérprete se sobrepõe ao autor, temos a confirmação de que, ao gravar outros compositores, Zé Ramalho confere às canções um toque tão pessoal que algumas soam como se fossem suas. É uma marca registrada quando se debruça sobre repertório não autoral.

Reencontro Zé Ramalho. O artista no seu refúgio paraibano, na praia de Areia Dourada. A conversa tem a serenidade da passagem do tempo. As músicas interpretadas ao violão, no sofá da sua casa, mostram o autor na intimidade, com um registro vocal mais grave. Um privilégio ouvi-las assim bem de perto. E poder observar cada detalhe das performances. Elas são muito diferentes do que vemos no palco. Têm um despojamento que valoriza a beleza das melodias e realça a magia dos versos.

Zé continua apaixonado por tudo o que ouviu. Não apenas pela música que criou. Ele não perdeu o prazer de ouvir os artistas que admira desde a juventude. No reencontro com amigos dos anos 1970, faz como nos velhos tempos: promove uma audição repleta de comentários, tal como se fazia há mais de 40 anos nas intermináveis reuniões em que ouvíamos discos de vinil.

Imagens e sons de uma época. Os músicos com as canções que se transformaram na trilha sonora de nossas vidas. Uma revisão que mistura empolgação e nostalgia. E reafirma a convicção do quanto tudo aquilo foi e continua sendo essencial.

O anfitrião nos conduz a um passeio por números que estão retidos nas nossas memórias. Uma alegria poder compartilhá-los com um artista como Zé Ramalho!

Zé Ramalho e Orquestra Sinfônica podem repetir concerto em praça pública

ze ramalho e rquestra sinfonica da pb foto francisco fran??a scom pb (7)

Zé Ramalho e a Orquestra Sinfônica da Paraíba podem repetir o concerto apresentado na última sexta-feira (05) no teatro A Pedra do Reino, do Centro de Convenções. Só que, desta vez, será em praça pública, para uma plateia muito maior.

Conversei rapidamente com o governador Ricardo Coutinho depois do concerto, e ele me disse que estuda essa possibilidade. O concerto – me disse – poderia ser realizado na Praça do Povo, do Espaço Cultural.

Não é uma promessa. Por enquanto, é um desejo. Que se concretize.

Um público maior do que as quase três mil pessoas que foram ao teatro do Centro de Convenções merece ver o belo encontro de Zé Ramalho com a Orquestra Sinfônica.