Zé Ramalho e a cocaína: “Eu apenas parei”

Zé Ramalho fez 70 anos na quinta-feira passada (03/10).

Na sexta, foi ao programa de Pedro Bial.

O jornalista, naturalmente, perguntou sobre o tempo em que o artista foi usuário de cocaína.

Zé foi franco e corajoso na resposta.

O que ele disse:

“Quando cheguei, o cartel de Cali estava investindo essa substância no Rio, botando da melhor qualidade para viciar. Pessoas das gravadoras, gerentes, presidentes, políticos usavam. Eu apenas parei. Nunca fiz tratamento, psicanálise, simplesmente disse: ‘hoje é a última vez’ e nunca mais retornei”.

“Sofri bastante, mas o mais importante era recuperar a carreira. Eu fiquei sem gravar, as gravadoras não se animaram mais a trabalhar comigo. Você vai até onde dá para ir. Nesse limite eu parei, foi uma decisão importantíssima para mim. Eu tinha sentido tudo o que eu queria sentir com essa experiência. Eu só tomo vinho hoje em dia, diariamente a caneca de vinho que tenho direito”.

Zé Ramalho, o cara de Avôhai e Admirável Gado Novo, faz 70 anos

José Ramalho Neto, Brejo do Cruz, três de outubro de 1949.

Zé Ramalho, o cara que compôs Avôhai e Admirável Gado Novo, faz 70 anos nesta quinta-feira (03).

Lembro dele jovem, na João Pessoa do início dos anos 1970.

Vindo dos conjuntos de baile, misturava o Nordeste com o rock dos Beatles, já era louco pelos nossos violeiros e por Bob Dylan.

Foi o Zé que vi ao vivo em 1974 num show que me impressionou muito. Atlântida. Tinha uma pegada profissional. Revelava a força do artista no palco. Vinha com um repertório autoral incrível.

Zé Ramalho trocou a medicina pela música. Quando fez Avôhai, cantou a música de joelhos diante do avô. O velho José Ramalho, que era, a um só tempo, seu avô e seu pai. Seu Avôhai.

O homenageado acabara de morrer quando a música foi mostrada pela primeira vez ao público. Na Coletiva de Música da Paraíba, em 1976. Eu estava na plateia do Teatro Santa Roza e senti o que havia de belo e enigmático naquela canção.

Uns três anos depois, apresentado ao LP A Peleja do Diabo com o Dono do Céu, o grande músico Egberto Gismonti parou ao ouvir Admirável Gado Novo. “É essa aí!”, disse Egberto, resumindo tudo.

Avôhai e Admirável Gado Novo.

Para mim, são os dois maiores momentos do caminho autoral desse artista paraibano.

São canções que trazem a sua originalíssima assinatura. Que podem sintetizar o seu cancioneiro.

Vejam como elas atravessaram o tempo.

Vejam como permanecem com o frescor da juventude, do momento em que foram escritas.

Uma trilogia reúne o melhor do seu trabalho, a fase de maior criatividade, as canções que estão bem guardadas na memória afetiva do público fiel que conquistou.

Editados pela velha CBS, são os primeiros títulos da sua discografia: o LP que leva seu nome e começa com Avôhai, A Peleja do Diabo com o Dono do Céu e A Terceira Lâmina.

Quando comemorou 20 anos de carreira, Zé Ramalho regravou seu The Best num álbum duplo chamado Antologia Acústica.

Não maculou os originais e conseguiu recriá-los de um modo que poucos fariam com canções que, àquela altura, já eram verdadeiros clássicos do nosso cancioneiro popular.

Hoje, aos 70 anos, celebra a data mexendo novamente nos seus arquivos pessoais. Dessa vez, lança um CD com um registro, de quatro décadas atrás, do show A Peleja do Diabo com o Dono do Céu.

Já cantou Dylan, Beatles, Raul, Gonzaga, Jackson, a Nação Nordestina. É intérprete singular, além de autor. Como intérprete, faz com que algumas canções pareçam suas.

José Ramalho Neto. Zé Ramalho da Paraíba. Zé Ramalho.

Com suas canções, o cara que fez Avôhai e Admirável Gado Novo orgulha seus conterrâneos.

De mãos dadas e braços para o alto, as tias cantavam: “Avôhai!”

Para Thelma

Maria era austera. Também era acolhedora. Mas levava um tempo. Embora fosse a mais velha das quatro irmãs, pediu que eu não usasse o “Dona”. Era somente Maria. Sua mãe, na hora da morte, disse: “Maria!, Maria!”. Como na canção de Milton Nascimento.

Tereza, Terezinha, Tetê. Com ela, não consegui tirar o “Dona”. Era Dona Terezinha, não sem alguma inveja de quem a chamava Tetê. Viúva muito jovem, com uma filha para criar, dedicou-se ao magistério, foi dar aulas de História, escreveu livros. Ao seu modo e em seu tempo, posso dizer que era uma verdadeira feminista.

Inês era da política, do grupo de Antônio Mariz, de um PMDB que não existe mais. Íntegra, reta. Política, para ela, era algo muito diferente do que temos visto por aí.

Zélia nos recebia (recebe) com as delícias da sua culinária. “Isso dá um livro de receitas”, disse certa vez a ela. A conversa, sempre muito franca, muito verdadeira.

As tias de Zé Ramalho.

Lembro delas agora porque, se viva estivesse, Dona Terezinha faria 90 anos neste domingo (04).

Seria dia daquela irresistível feijoada na sua casa do Miramar. A família, os amigos, muitos afetos.

Durante anos, frequentei sua casa. As conversas, as reuniões musicais, a melhor sopa do mundo, as opiniões marcadas por rara sinceridade.

Com a experiência que tinha, ela certamente me ensinou muitas coisas.

A sua lição mais importante talvez tenha sido sobre o perdão. A necessidade e a importância do perdão.

Maria, Tetê, Inês, Zélia.

As tias de Zé Ramalho.

Bonito era vê-las de mãos dadas e braços para o alto no momento em que o sobrinho fazia seu show.

Ele cantava: “Avôhai!”.

Elas respondiam em coro: “Avôhai!”.

Música que há em Paêbirú é muito menor do que a lenda

Leio que o álbum-duplo Paêbirú, de Zé Ramalho e Lula Cortes, está sendo relançado em vinil.

Vai deixar de ser raro e, certamente, não precisará mais ser vendido por até R$ 950 no Mercado Livre.

Gravado em 1974, o álbum se transformou numa verdadeira lenda. Mais do que Satwa, de Lula e Lailson, e No Sub Reino dos Metazoários, de Marconi Notaro. Todos, produtos de uma mesma cena musical – o Recife da primeira metade dos anos 1970.

Sou contemporâneo. Ouvi na época. Foram muito festejados pelo underground. Sobretudo Paêbirú, que teve quase todos os exemplares destruídos por uma daquelas dramáticas enchentes que atingiam Pernambuco décadas atrás.

Confesso que a música que há em Paêbirú nunca me impressionou. Preferia outras coisas igualmente “viajosas”. Àquela altura, o trabalho que Zé Ramalho fazia sozinho era muito melhor. O show Atlântida, do mesmo ano de 1974, já revelava os méritos do artista que logo conquistaria dimensão nacional.

Paêbirú é um álbum importante? Sim. Porque se tornou um disco raro. Porque é retrato de uma cena musical criativa. Mas, principalmente, por que tem o nome de Zé Ramalho.

Estão muitíssimo equivocados os que acham que se trata do melhor trabalho do artista paraibano (e há quem ache!). Não é. O melhor de Zé está nos três primeiros discos que gravou na velha CBS (o LP que começa com Avôhai, A Peleja do Diabo com o Dono do Céu e A Terceira Lâmina). São três petardos com todas as marcas de originalidade do universo musical e poético de Zé Ramalho.

Sem medo de errar, digo hoje que a música que temos em Paêbirú não está à altura da lenda.

Zé Ramalho é irmão de Elba Ramalho. Incrédulo, li no jornal

Zé Ramalho é irmão de Elba Ramalho!

Você sabia?

Deu no jornal.

Um leitor me mandou um pequeno trecho de uma matéria de jornal impresso e pediu que eu descobrisse o erro.

Era um texto sobre o relançamento de 20 Palavras ao Redor do Sol, disco antológico de Cátia de França.

Foi tarefa facílima encontrar o erro.

Estava escrito:

“A gravação do disco, por sinal, contou com a presença de Elba e de seu irmão, Zé Ramalho, padrinho musical de Cátia”.

Onde foi? – perguntei ao leitor.

Ele me respondeu, e eu procurei a matéria completa para ler.

*****

Há pouco mais de 40 anos, desde que Elba e Zé Ramalho conquistaram dimensão nacional, é comum ler em matérias jornalísticas que os dois são primos.

Irmãos?

Leio pela primeiríssima vez!

Zé Ramalho sintetiza no palco quatro décadas de sucesso

O CD (duplo) e o DVD (simples) se chamam Zé Ramalho na Paraíba.

O título dialoga com Zé Ramalho da Paraíba, como Zé foi chamado há mais de quatro décadas, no período em que batalhava para conquistar dimensão nacional.

O registro de áudio e vídeo foi feito em maio do ano passado no Teatro A Pedra do Reino, em João Pessoa.

Nesta sábado (26), às 21 horas, Zé Ramalho e sua banda voltam ao Pedra do Reino para lançar o CD e o DVD com este show que celebra 40 anos de carreira do artista.

Confira o set list (provável) do show:

O que é, o que é?
Tá tudo mudado
Kryptônia
Beira-mar
Entre a serpente e a estrela
Táxi lunar
A terceira lâmina / Banquete de signos
Eternas ondas 

Avôhai
Vila do sossego
Chão de giz
Garoto de aluguel
Admirável gado novo
Frevo mulher
Sinônimos
A vida do viajante

O governo errou com Zé Ramalho. Tomara que acerte com Vandré!

No dia cinco de agosto de 2016, o governo estadual promoveu um concerto inesquecível de Zé Ramalho com a Orquestra Sinfônica da Paraíba.

Foi um evento histórico no palco do teatro Pedra do Reino, em João Pessoa.

Um ano e cinco meses depois, o que se viu naquela noite foi transformado num DVD de baixa qualidade com erros grosseiros de edição.

Os erros cometidos no DVD foram assumidos pelo secretário Lau Siqueira, mas o gesto decente de Lau não justifica o primarismo da produção.

Estou voltando ao assunto por causa de um outro personagem da música paraibana: Geraldo Vandré.

Vandré, que não gosta de ser reconhecido como Vandré, está em João Pessoa, cidade onde nasceu há 82 anos.

O que já é público?

Que a Orquestra Sinfônica da Paraíba se prepara para tocar peças compostas por ele.

O que é desejo de muitos?

Que Vandré suba ao palco para cantar acompanhado pela Sinfônica.

Quem está em João Pessoa?

O mito da MPB conhecido como Geraldo Vandré ou o cidadão que prefere ser chamado apenas de Geraldo e que não gosta de falar sobre o que aconteceu há 50 anos?

Geraldo Vandré, o artista que fez Caminhando no turbulento ano de 1968, está “morto” há meio século.

Desde que voltou do exílio, ele se recusa a ter qualquer vínculo com o que produziu na era dos festivais.

O homem que, numa canção, convocou o povo para a luta armada, fez Fabiana para a Força Aérea Brasileira.

A despeito disso, continua sendo venerado pela esquerda.

E, por sua vez, parece gostar de cortejar o poder.

Na Paraíba, o fez pelo menos duas vezes. No governo de Ronaldo Cunha Lima. E, agora, no governo de Ricardo Coutinho.

Não é fácil conversar com Geraldo. A conversa dele não tem a necessária objetividade que a vida real pede.

O que surgirá, então, das conversas de Geraldo Pedrosa (ou Geraldo Vandré?) com a área de cultura do governo estadual?

Um concerto com músicas dele e um Vandré mudo no palco (como ocorreu no show de Joan Baez em São Paulo)?

Ou um concerto que faria ressurgir ao menos algo do artista de meio século atrás?

O tempo logo dirá.

Torçamos para que seja bem registrado em DVD!

Lau Siqueira assume insucesso do DVD de Zé Ramalho com Sinfônica

O secretário de Cultura, Lau Siqueira, se pronunciou nesta terça-feira (09) sobre o DVD de Zé Ramalho com a Orquestra Sinfônica da Paraíba.

Segue a mensagem que ele me enviou:

Li atenta e respeitosamente sua coluna de ontem, mas queria fazer algumas observações sobre sua coluna de hoje.

Em primeiro lugar, não sei de onde se tirou essa ideia do “lançamento do DVD de Zé Ramalho e Orquestra”. Isso não chegou a ser pensado, uma vez que se trata de um DVD promocional e não comercial, cujo resultado seria disponibilizado nas redes sociais. Um “lançamento” seria totalmente inviável, uma vez que não seria vendido e a distribuição com a massa de fãs de Zé Ramalho seria impossível. Pode ser que eu esteja enganado, mas nenhum momento falamos em distribuição ou lançamento, mas em registro.

Quanto ao DVD propriamente dito, contratamos profissionais respeitáveis e experientes do audiovisual paraibano para a execução de um trabalho que, concordo, ficou muito aquém do esperado. Por exemplo, não poderíamos supor que não tivessem colhido imagens do público e do teatro se a orientação era de, inclusive, fazer entrevistas. Isso me parecia óbvio. Na edição, não haveria como recuperar ou incluir o que não foi registrado. Portanto, ficou como ficou. É o que temos. Permanece o nosso respeito aos profissionais que realizaram o trabalho. Mas, obviamente que também não nos agradou. Só não vamos fazer cavalo de batalha nisso nem transferir culpas. Assumo integralmente o insucesso do registro.

Alguém falou em concerto na Praça do Povo, mas isso não passou de um desejo de muitos. Inclusive meu. No entanto, jamais ocorreu qualquer encaminhamento neste sentido.

Quanto aos ingressos, foram distribuídos na totalidade. Com exceção, claro, de alguns para os convidados do Zé Ramalho e do governador (não passou de 100). Felizmente, o público do Zé Ramalho é infinitamente superior a capacidade do teatro. Não haveria como abrigar todo mundo. Administramos esse problema no dia. Sinto pelos que não puderam testemunhar a beleza do concerto. Tínhamos cerca de dez mil pessoas no Espaço Cultural querendo o ingresso e o teatro comporta cerca de 3 mil. Lembro de gente que entrou na fila às 3h. Certamente que muitos voltaram para casa sem conseguir. Uma questão de lógica. Se houve favorecimentos? Jamarri Nogueira, na época assessor de imprensa da FUNESC, ficou sem ingressos. Só pra exemplificar.

Ainda bem que vc estava lá e viu o quanto tudo foi pensado nos mínimos detalhes. O DVD jamais poderia retratar integralmente o que foi aquela noite que, algumas pessoas esquecem, mas foi fruto de um grande trabalho de equipe. Foi uma produção que envolveu mais de 250 pessoas. O concerto foi maravilhoso, certamente, porque muita gente trabalhou para que fosse. Técnicos, produção, etc. O registro seria uma consequência, mas já não dependia de nós.

DVD de Zé Ramalho com Sinfônica da PB não terá lançamento

O secretário Lau Siqueira me disse que não haverá um lançamento do DVD de Zé Ramalho com a Orquestra Sinfônica da Paraíba.

O DVD, segundo ele, “tem o caráter meramente institucional. Vai ser distribuído com os músicos da orquestra, com o governador, com Zé Ramalho e alguns da imprensa”.

Em breve, ainda segundo o secretário, estará no canal do Youtube da Orquestra Sinfônica da Paraíba.

Na foto, Lau Siqueira, Zé Ramalho e o maestro Durier na coletiva de imprensa.

O concerto foi realizado no dia cinco de agosto de 2016, no teatro Pedra do Reino.

A plateia era de convidados.

Houve distribuição de uma parcela dos convites em troca de alimentos não perecíveis. Não sei que parcela foi destinada a essa distribuição.

O governo cogitou fazer outra apresentação num lugar maior. Talvez a praça do Espaço Cultural, mas isto não ocorreu.

Ficou, então, a expectativa de muitos com o DVD.

Viria como registro fiel do concerto para que aquela noite memorável fosse compartilhada com os que não a testemunharam.

No final, um ano e cinco meses depois, o DVD parece ser ainda menos acessível do que o concerto porque terá distribuição restrita.

Com o agravante de que, mal editado como foi, está longe de ser fiel à beleza daquela noite no teatro Pedra do Reino.

Concordo com os que dizem que o pessoal da cultura do governo estadual errou feio. E que o resultado tem cheiro de amadorismo, de coisa mal planejada e mal executada.

Pior: era previsível.

Ontem, conversando com um músico da Orquestra Sinfônica, ouvi dele o seguinte:

Todos sabiam que isso ia acontecer!

Edição ruim compromete DVD de Zé Ramalho com Sinfônica da PB

Recebi o DVD de Zé Ramalho com a Orquestra Sinfônica da Paraíba na última sexta-feira (05).

Exatamente um ano e cinco meses depois do concerto realizado no dia cinco de agosto de 2016 no teatro Pedra do Reino, em João Pessoa.

ze ramalho e rquestra sinfonica da pb foto francisco fran??a scom pb (7)

Antes de comentar, reproduzo o que escrevi na época sobre o concerto.

Os acordes iniciais e os primeiros versos de Avôhai arrebataram o público de quase três mil pessoas no teatro A Pedra do Reino. Que canção enigmática e mágica. Agora, vista de longe. Tão nordestina quanto universal.

Que beleza ver seu autor reapresentando a música na mesma cidade onde a cantou pela primeira vez, 40 anos atrás, num evento chamado Coletiva de Música da Paraíba, no velho Teatro Santa Roza.

Testemunhei os dois momentos. Separados por quatro décadas, eles podem sintetizar a longa caminhada de Zé Ramalho.

Essa noite dele com a Orquestra Sinfônica da Paraíba foi histórica. Doze canções retiradas de discos seminais ganharam os adornos luxuosíssimos de uma grande formação. Quase 140 músicos a executar os belos arranjos escritos por Emanoel Barros, um jovem de 21 anos. O solista era o próprio autor: Zé, sua voz e seu violão. Tudo sob a batuta de Luiz Carlos Durier, o maestro que não continha a alegria de estar ali.

AvôhaiVila do SossegoChão de GizAdmirável Gado Novo. Cada uma das canções do certeiro set list escolhido pelo compositor confirmava a força e a beleza da sua música. Mais do que isto: a permanência delas. O tempo, em sua inevitável passagem, já as tornou verdadeiros clássicos populares.

Clássico é o que diz respeito ao período do classicismo. Clássico é uma expressão utilizada para denominar a música de concerto. Mas clássico é também o repertório que fica. Explicou didaticamente o maestro Durier numa de suas falas à plateia.

O público do concerto de Zé Ramalho com a Orquestra Sinfônica da Paraíba foi testemunha de um encontro repleto de significados. Uma noite inesquecível. Para ficar muito bem guardada na nossa memória afetiva.

Agora, o DVD.

Quem assistiu ao concerto não vai encontrar na gravação o que viu ao vivo.

Quem não viu, jamais saberá como foi.

O registro é inferior ao que Zé Ramalho e a Orquestra Sinfônica da Paraíba fizeram no palco do Pedra do Reino.

Não é um concerto com começo, meio e fim, como vimos ao vivo e como gostamos de ver em DVD ou Blu-ray.

É somente uma sequência de números musicais separados por fade.

O programa começa com Meu Sublime Torrão, de Genival Macedo.

Terminado o primeiro número, um fade nos separa do segundo. E, aí, Zé Ramalho já está no palco, iniciando Avôhai.

Ninguém vê a sua entrada triunfal nem a ovação da plateia.

Plateia, aliás, só se vê ao fundo, captada pela pequena câmera que está em frente ao maestro Durier.

No mais, fica a impressão de que não há plateia.

Faltam imagens das expressões dos espectadores enquanto as músicas são executadas.

Faltam imagens deles na hora dos aplausos.

São erros conceituais que parecem cometidos por quem não tem intimidade com as técnicas de montagem há tanto tempo estabelecidas e dominadas pelo cinema e pela televisão.

Há outro problema que diz respeito à edição: uma incômoda falta de sincronia entre áudio e vídeo (vejam, por exemplo, Garoto de Aluguel e constatem).

No final da sua apresentação, sem agradecimento, sem aplausos, sem pedido de bis, Zé Ramalho simplesmente “some” do palco depois de cantar Eternas Ondas.

Segue-se mais um fade, e a Orquestra Sinfônica da Paraíba executa Tico Tico no Fubá.

Outro fade e sobem os créditos.

O editor não esperou ao menos que o maestro se curvasse para agradecer ao público e receber os merecidíssimos aplausos.