No Dia do Poeta, uma lista dos grandes letristas da nossa música popular

No Dia do Poeta (20), quero lembrar que o Brasil é um país de grandes letristas de música popular.

Podem até não ser poetas, dizem alguns acadêmicos, mas a música deles está, sim, cheia de poesia!

vinicius

Tem o caso de Vinícius de Moraes, que, antes de fazer letra de música, fez poesia seguindo o cânone. E tem os demais que quero citar aqui.

Tudo, ainda, por causa do Nobel de Literatura concedido a Bob Dylan.

Que tal, então, uma lista dos nossos maiores letristas, começando pelos mais velhos?

Cartola

Noel Rosa

Vinícius de Moraes

Dorival Caymmi

Lupicínio Rodrigues

Caetano Veloso

Gilberto Gil

Chico Buarque

Aldir Blanc

Fernando Brant

 

Drummond traduziu Beatles para o Português! Vocês sabiam?

O Nobel de Literatura concedido a Bob Dylan remete, claro, ao debate sobre poesia e letra de música.

Poesia é uma coisa, letra de música é outra?

Poesia tem um status que letra de música não tem?

Letrista de música popular não é poeta?

As respostas ficam para os acadêmicos. Não sou um deles.

Mas lembro que o Brasil tem um caso muito interessante. Vinícius de Moraes! Sim! Vinícius era um poeta, no sentido acadêmico, que migrou para a música popular. Fez as duas coisas. E como fez bem!

Isso tudo é introdução para a razão de ser desse post.

carlos-drummond

Em 1969, eu era um menino de 10 anos apaixonado pelos Beatles. Um dia, meu pai pegou a revista Realidade (lembram dela?) e me disse:

Carlos Drummond de Andrade, um dos grandes poetas da nossa língua, verteu letras dos Beatles para o Português! 

E lá estavam elas. Várias letras do Álbum Branco, que eu acabara de comprar, traduzidas por Drummond.

Sempre lembro delas. Drummond traduzindo Beatles enriquece o debate sobre poesia e letra de música.

Transcrevo A Felicidade É um Revólver Quente. É Happiness Is a Warm Gun, de John Lennon.

A FELICIDADE É UM REVÓLVER QUENTE

Até que essa garota não erra muito

oi oi oi oi oi oi oi oi

Acostumou-se ao roçar da mão-de-veludo

como lagartixa na vidraça

O cara da multidão, com espelhos multicores
sobre seus sapatões ferrados
descansa os olhos enquanto as mãos se ocupam
no trabalho de horas extraordinárias
com a saponácea impressão de sua mulher
que ele papou e doou ao Depósito Público.

Preciso de justa-causa porque vou rolando para baixo
para baixo, para os pedaços que deixei na cidade-alta,
preciso de justa-causa porque vou rolando para baixo

Madre Superiora dispara o revólver
Madre Superiora dispara o revólver
Madre Superiora dispara o revólver

A felicidade é um revólver quente
A felicidade é um revólver quente
Quando te pego nos braços
e meus dedos sinto em teu gatilho,
ninguém mais pode com a gente,
pois a felicidade é um revólver quente
lá isso é.

Top 20 do samba, o grande poder transformador

Na semana passada, fiz, aqui, por sugestão do colega Rubens Nóbrega, um top 10 da canção brega, gênero com o qual não tenho intimidade.

Uma leitora sugeriu que eu fizesse o mesmo com o samba, que está entre os meus amores.

Tentei um top 10, mas o número se mostrou insuficiente. Fiquei com 20. Podia ter sido muito mais!

Segue a lista, que mistura títulos obrigatórios com escolhas pessoais:

Feitiço da Vila – Noel Rosa

Camisa Amarela – Ary Barroso

Brasil Pandeiro – Assis Valente

A Primeira Vez – Bide e Marçal

Samba da Minha Terra – Dorival Caymmi

A Voz do Morro – Zé Keti

Desafinado – Tom Jobim e Newton Mendonça

Você e Eu – Carlos Lyra e Vinícius de Moraes

Mas que Nada – Jorge Ben

O Sol Nascerá – Cartola

Juízo Final – Nelson Cavaquinho

Saudosa Maloca – Adoniran Barbosa

Canto de Ossanha – Baden Powell e Vinícius de Moaes

Na Cadência do Samba – Ataulfo Alves

Coisas do Mundo, Minha Nega – Paulinho da Viola

Aquele Abraço – Gilberto Gil

Construção – Chico Buarque

Águas de Março – Tom Jobim

O Bêbado e a Equilibrista – João Bosco e Aldir Blanc

Desde que o Samba É Samba – Caetano Veloso

Parceria de Roberto e Erasmo é um mistério a ser desvendado

Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, João Bosco e Aldir Blanc. Há muitas parcerias famosas na música popular brasileira. Roberto e Erasmo Carlos é uma delas. Pouco se sabe, no entanto, da intimidade do trabalho dos dois. Até onde eles compuseram juntos? Um é mais melodista do que o outro? Um é mais letrista? Um faz tudo sozinho e coloca o nome do outro? Um é mais roqueiro em oposição ao que é mais romântico? Quem faz o quê? As perguntas são inúmeras quando os parceiros não revelam os métodos de trabalho, muito menos fornecem a real autoria de cada canção.

O livro de memórias Minha Fama de Mau não é revelador, embora Erasmo dedique um capítulo ao parceiro. Lá estão algumas histórias já conhecidas. Sentado à Beira do Caminho foi feita a quatro mãos. Exaustos, os parceiros não conseguiam terminá-la. Roberto adormeceu. Quando acordou, disse duas frases que completaram a canção: preciso acabar logo com isso/preciso lembrar que eu existo. Outro exemplo: Erasmo fez uma melodia, Roberto escreveu uma letra em segredo para homenagear o parceiro. O resultado é Amigo. Na primeira audição, apanhado de surpresa, Erasmo não conteve as lágrimas.

Podemos especular ouvindo a discografia de Roberto e a de Erasmo. O primeiro arrisca menos. O segundo transgride mais. O primeiro é um baladeiro. O segundo, um roqueiro incorrigível. Em Roberto, tudo sugere que o intérprete supera o autor. Em Erasmo, o que temos é um autor que interpreta suas canções. Roberto está sempre perto dos limites que estabeleceu para seu trabalho. Erasmo sai deles e flerta mais livremente com a turma da chamada MPB. Chega a ser um homem do rock’n’ roll que faz sambas, como no antológico Coqueiro Verde. Ou em Cachaça Mecânica, nitidamente inspirado em Chico Buarque.

Os dois se completam nas diferenças? Pode ser que sim. Com John Lennon e Paul McCartney, a parceria funcionava deste modo. Seja como for, o fato é que Roberto e Erasmo Carlos assinaram dezenas de canções que os brasileiros guardam cuidadosamente na memória e as associam às suas vidas. Nelas, enxergam seus amores, suas famílias, suas alegrias e tristezas. Passa por esta identificação a força incomum de Roberto Carlos. E não há quem possa negar que Erasmo Esteves, o garoto pobre do subúrbio carioca apaixonado por Elvis Presley, desempenhou um papel relevante na construção deste mito.

Mônica Salmaso ao vivo é coisa de raríssima beleza

Salmaso palco

Faz tempo que Mônica Salmaso frequenta minhas audições. Desde aquele disco no qual relê os afro-sambas de Baden e Vinícius, acompanhada pelo violão de Paulo Bellinati. Negócio difícil, mas muito bem-sucedido: regravar uma obra-prima indiscutível do nosso cancioneiro.

Rever o repertório de Chico Buarque também não é tarefa fácil. E Mônica enfrentou em “Noites de Gala, Samba na Rua”. Em estúdio e ao vivo. Os originais, que quase sempre a gente tem como definitivos, ressurgiram com novos timbres, novas cores. E como ficaram bonitos!

Mônica Salmaso. Belíssima voz, grandes escolhas de repertório, arranjos impecáveis, músicos virtuoses a acompanhá-la. Discos imprescindíveis. Notáveis participações em CDs de colegas. Uma joia rara nesse universo de tantas cantoras que ouvimos no Brasil das últimas duas décadas.

Chegamos, então, a “Corpo de Baile”. Um coleção de 14 canções da parceria de Guinga com Paulo César Pinheiro.

Somente “Bolero de Satã” é mais popular por causa do dueto de Elis Regina com Cauby Peixoto no disco “Essa Mulher”, de 1979. As outras já gravadas são muito menos conhecidas. E há as inéditas (guardadas durante anos no baú de Paulo César Pinheiro), razão principal da existência desse projeto de Mônica Salmaso.

Ao disco, seguiu-se o show, visto nesta terça (06) e que volta a ser apresentado nesta quarta-feira (07) no Teatro Paulo Pontes, em João Pessoa.

No palco, ao lado de nove músicos, Mônica faz o repertório integral do disco. O show é primoroso, é excepcional. É perfeito! Os adjetivos serão todos insuficientes!

Uma valsa, uma modinha, uma marcha-rancho, um fado, um bolero, um tema nordestino. A tradição e a contemporaneidade. O popular e o erudito. Ou o popular tratado com felicíssima erudição. Um Brasil menos ouvido.

Algo que a gente viu em Villa-Lobos, ou em Tom, ou em Edu, ou em Hime. E vê em Guinga, autor de melodias refinadas, mestre nas harmonias do seu instrumento. Aliado aqui à poesia de Paulo César Pinheiro.

Disco guiado por um conceito. Na escolha dos arranjadores e na feitura dos arranjos. Na presença de músicos do nosso primeiríssimo time. Tudo transposto minuciosamente para o palco iluminado pelo vídeo cenário de Walter Carvalho, fotógrafo e cineasta que orgulha os paraibanos.

“Corpo de Baile” é um irretocável recital de feição camerística e tom onírico. A música é intensa. A luz, não. Ela é incomum. Talvez por causa da tela transparente que separa a cantora e seus músicos da plateia. Tela sobre a qual Walter Carvalho projeta sua “viagem”. Como se ele levasse para o teatro um pouco do seu cinema e nos dissesse que aquilo tudo, de tão bom, não parece ser real!

 

Mônica Salmaso faz “Corpo de Baile” em João Pessoa

Mônica Salmaso

A cantora Mônica Salmaso se apresenta pela primeira vez em João Pessoa nesta terça (06) e nesta quarta-feira (07), às 20h00. Ela traz o show “Corpo de Baile” ao Teatro Paulo Pontes, do Espaço Cultural José Lins do Rego.

O espetáculo transporta para o palco o CD “Corpo de Baile”, lançado em 2014 pela gravadora Biscoito Fino. No disco, a cantora se debruça sobre as canções compostas por Guinga em parceria com Paulo César Pinheiro. É um trabalho primoroso.

O espetáculo tem cenário criado pelo fotógrafo e cineasta paraibano Walter Carvalho.

Nove músicos acompanham a cantora. Entre eles, o pianista Nelson Ayres, os saxofonistas Teco Cardoso e Nailor Proveta e o violoncelista Alceu Reis.

Mônica é uma das melhores entre as muitas cantoras brasileiras reveladas nas últimas duas décadas. Já gravou os afro-sambas de Baden e Vinícius, dedicou dois CDs ao repertório de Chico Buarque, cantou a nossa alma lírica. Tem um repertório impecável registrado em discos muito bons.

Afinal, vamos vê-la ao vivo!

Pais e filhos também dialogam na música popular

Na minha coluna “Sexta de Música”, na CBN João Pessoa, falei de músicas que tratam da relação entre pais e filhos. Abordo o tema aqui também.

Geralmente, são canções sentimentais, quando não piegas. Mas acabam sendo muito verdadeiras.

“Naquela mesa está faltando ele e a saudade dele está doendo em mim”. Quem não lembra? É Sérgio Bittencourt falando para o pai, o grande Jacob do Bandolim, em “Naquela Mesa”.

Ou: “Você foi meu herói, meu bandido, hoje é mais, muito mais que um amigo”. É Fábio Jr. na letra de  “Pai”.

Ou ainda: “Esses seus cabelos brancos, bonitos, esse seu olhar cansado, profundo”. É Roberto Carlos, claro, em “Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo”.

Tem o Rei no divã do analista: “Meu pai um dia me falou pra que eu nunca mentisse, mas ele também se esqueceu de me dizer a verdade”. É “Traumas”. Mais dolorida, menos lembrada.

Gosto muito de “Pai e Mãe”, de Gilberto Gil. Um belíssimo choro canção. “Eu passei muito tempo aprendendo a beijar outros homens, como beijo o meu pai”. Fala de afeto, não de homoafetividade, como ainda pensam muitos ouvintes. “Como é, minha mãe, como vão seus temores? Meu pai, como vai?”. É Gil!

Há também “14 Anos”, de Paulinho da Viola. O pai dele, músico, sugerindo ao filho que fosse doutor, não sambista. “Sambista não tem valor nessa terra de doutor, e, seu doutor, o meu pai tinha razão”.

E tem: “Dorme menino levado, dorme que a vida já vem, teu pai está muito cansado de tanta dor ele ele tem”. São versos de Vinícius de Moraes no acalanto “O Filho que Eu Quero Ter”, melodia de Toquinho. Aí já é uma outra modalidade: o pai falando para o filho.

Como Chico Buarque em “Acalanto”: “Dorme (mi)nha  pequena, não vale a pena despertar”. Ou Dorival Caymmi, em outro “Acalanto”: “É tão tarde, a manhã já vem, todos dormem, a noite também, só eu velo por você, meu bem”.

Temos exemplos menos densos, mais divertidos, do baião ao rock. O Luiz Gonzaga de “Respeita Januário”. Ou a Rita Lee de “Papai Me Empresta o Carro”.

E as canções internacionais. “Father and Son”, de Cat Stevens, que Nara Leão cantou em português. E a dolorida “Mother”, de John Lennon, que, apesar do título, também fala do pai (“Você me deixou, mas eu nunca deixei você”).

Há muito mais de pais e filhos no cancioneiro popular. Com suas dores e seus amores.

 

 

 

 

 

“Garota de Ipanema” é mais procurada no Spotify depois da abertura da Olimpíada

Aumentou 1200% o número de pessoas que recorreram ao Spotify para ouvir “Garota de Ipanema” depois que a música de Tom Jobim & Vinícius de Moraes foi usada na abertura da Olimpíada, durante o desfile de Gisele Bundchen.

A música é uma das mais executadas no mundo e também uma das mais gravadas, com centenas de registros. A gravação que lhe deu dimensão internacional foi a de João Gilberto, Astrud Gilberto e o saxofonista de jazz Stan Getz. Está no disco “Getz/Gilberto”.

Quando cantada em inglês por algumas mulheres, tinha a letra alterada e virava “The Boy From Ipanema”, como nessa performance de Ella Fitzgerald.

Frank Sinatra e Tom Jobim cantaram “Garota de Ipanema” juntos, numa versão em inglês e português.

 

 

 

No quesito música, abertura da Olimpíada calou os que criticaram por antecipação

Nos dias que antecederam a abertura da Olimpíada, li muitas críticas à escalação dos artistas que participariam da cerimônia.

Uma delas chamou minha atenção. Dizia mais ou menos assim: Londres teve Paul McCartney, o Rio vai ter Anitta, Ludmilla e Wesley Safadão.

Escrevi a respeito. Disse que a geração de Paul McCartney estaria muito bem representada por Caetano Veloso, Gilberto Gil e Paulinho da Viola. E que o funk era uma manifestação legítima da cidade do Rio de Janeiro.

Passada a festa, volto ao tema.

A cerimônia calou os que criticaram por antecipação. Vou me ater ao quesito música.

A Copa do Mundo tem um país como sede. Os jogos olímpicos têm uma cidade. Nada mais natural, portanto, que o Rio mostrasse sua música ao mundo. E que música!

Do Gilberto Gil de Aquele Abraço ao Marcos Valle de Samba de Verão. Ou ao Chico Buarque de Construção.

Tom, o maestro soberano, foi lembrado pelo neto Daniel Jobim. Garota de Ipanema, voz e piano. Enquanto Gisele Bundchen desfilava evocando a Helô que inspirou Tom & Vinícius.

Mestres do samba em cena. Paulinho da Viola cantando o Hino Nacional. Jorge Ben, que modernizou o gênero, trouxe a extraordinária força rítmica de País Tropical. Zeca Pagodinho veio como uma voz mais contemporânea. E Wilson das Neves chamou as entidades.

Elza Soares, que é de ontem e de hoje, releu o Canto de Ossanha, de Baden & Vinícius. “O homem que diz dou, não dá”. Um afro-samba com a pegada do pop atual do Rio de Janeiro.

No final, a apoteose. Ary Barroso, o mineiro que melhor cantou o Rio, nas vozes tropicalistas de Caetano e Gil. Com Anitta cantando e dançando entre os dois. Por que não?

Sim. Londres teve Paul McCartney. O Rio teve a grande música popular ali produzida. Por mestres cariocas ou não cariocas que adotaram a cidade para viver.

Ao mostrar a nossa força e as nossas belezas, a cerimônia de abertura da Olimpíada acaba falando do Brasil que não deu certo.

A vaia a Temer não é diferente da vaia a Dilma na Copa do Mundo. Os dois, mesmo que em lados opostos, estão vinculados a um modelo que precisa ser superado.

Só assim, teremos, de fato, uma promessa de vida em nossos corações! 

 

 

 

João Gilberto faz 85 anos, mas ainda não é uma unanimidade

João caricatura

João Gilberto (em caricatura de William Medeiros) ouviu Orlando Silva, os sambistas do Rio e os sambas de Caymmi. Ouviu Chet Baker, estrela do cool jazz, artista de canto intimista que, para os americanos, está longe de ser tão importante quanto João é para os brasileiros. Antes da Bossa Nova, sua voz era como a dos cantores antigos. Em 1958, na gravação de “Chega de Saudade”, registro inaugural da bossa, já tem a contenção que adotaria dali por diante, junto à originalíssima batida do violão. E tem o diálogo entre os dois elementos. Voz e violão, em avanços e recuos que embutiam uma revolução. A música brasileira pós-João atesta. O mundo reconhece.

Há um intervalo entre o período em que João integrava um grupo vocal de samba e o instante em que participa, em duas faixas, do disco “Canção do Amor Demais”, de Elizeth Cardoso. Naquele intervalo, inventou a batida da bossa e adotou um jeito de cantar diferente de tudo o que se fazia no Brasil. Com Elizeth, acompanha a intérprete, ao violão, mas falta a voz e o casamento dela com o instrumento. É o que se ouve, pouco depois, no 78 rpm que traz “Chega de Saudade”, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, arranjada por Tom. A voz e o violão de João, elementos indissociáveis. Uma gravação de dois minutos. Um corte: o antes e o depois daquele disco.

A essência da invenção de João Gilberto está nos três discos que gravou na velha Odeon entre o final da década de 1950 e o início da de 1960. A releitura dos sambas anteriores à bossa, um pouco de Dorival Caymmi, algo de Ary Barroso e muito dos seus contemporâneos, sobretudo Antônio Carlos Jobim.

A batida que João criou é a síntese do samba e a sua reinvenção. A utilização dos baixos desaparece para dar lugar a uma mão direita que percute o ritmo, enquanto a esquerda oferece acordes dissonantes num refinado desenho harmônico. A execução ilude o ouvinte: ela parece simples, mas é muito complexa. A voz nem sempre se deixa guiar pelo instrumento que a acompanha. Ora está adiantada, ora atrasada, às vezes os dois se encontram. É misterioso, preciso, perfeito. É necessário entender este diálogo para que não se incorra no erro de diminuir o artista.

Os três primeiros discos na Odeon, o encontro com o saxofonista Stan Getz (em “Getz/Gilberto”), o LP de capa branca e “Amoroso” são os melhores registros da sua arte sofisticada, retratos de um país sonhado e não do Brasil real. Por isso, muitos ainda não compreendem o som e o silêncio produzidos por João Gilberto.