Sem Wadi Gebara, não haveria Coisas nem Os Afro-Sambas

Wadi Gebara, de 81 anos, morreu nesta segunda-feira (01) no Rio de Janeiro. Ele tinha câncer.

Em 1964, Gebara foi um dos sócios fundadores da pequena gravadora Forma. O outro sócio, Roberto Quartin, era amigo de Frank Sinatra.

A Forma pode ser caracterizada como um negócio de pessoas que tinham algum dinheiro para gastar e não estavam nem um pouco preocupadas com lucros.

No mundo pragmático de hoje, seria um negócio de malucos. Naquele tempo, 55 anos atrás, era um belo sonho.

A Forma lançou, ao menos, dois discos essencialíssimos da música popular do Brasil.

Falo de Os Afro-Sambas, de Baden Powell e Vinícius de Moraes, e Coisas, de Moacir Santos.

Se você é dos que pretendem ter uma discoteca básica da música brasileira e não tem esses dois discos, pode estar certo: sua coleção está incompleta.

Os Afro-Sambas e Coisas são trabalhos seminais e de profunda invenção.

Menos importante, mas nem por isto pouco necessário, é o LP de Sérgio Ricardo com a trilha do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, outro título do catálogo da Forma.

OS AFRO-SAMBAS, Baden Powell e Vinícius de Moraes

COISAS, Moacir Santos

DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL, Sérgio Ricardo

São Francisco visto pela sensibilidade de um poeta ateu

Hoje é dia de São Francisco.

Fiquemos com um pouco de poesia.

O santo protetor dos animais visto por um poeta ateu.

SÃO FRANCISCO

Vinícius de Moraes

Lá vai São Francisco
Pelo caminho
De pé descalço
Tão pobrezinho
Dormindo à noite
Junto ao moinho
Bebendo a água
Do ribeirinho.

Lá vai São Francisco
De pé no chão
Levando nada
No seu surrão
Dizendo ao vento
Bom dia, amigo
Dizendo ao fogo
Saúde, irmão.

Lá vai São Francisco
Pelo caminho
Levando ao colo
Jesuscristinho
Fazendo festa
No menininho
Contando histórias
Pros passarinhos.

Há 60 anos, Chega de Saudade mudou história da música popular

Vai minha tristeza

E diz a ela

Que sem ela não pode ser

Chega de Saudade.

A melodia: Antônio Carlos Jobim.

A letra: Vinícius de Moraes.

A voz e o violão: João Gilberto.

O arranjo: Jobim.

Um 78rpm da Odeon cujo take definitivo foi registrado na quinta-feira 10 de julho de 1958, há exatos 60 anos.

Chega de Saudade, na versão de João Gilberto, mudou a história da música popular brasileira e a projetou internacionalmente sob o rótulo de Bossa Nova.

Classificada no selo do disco como samba-canção, Chega de Saudade funde o velho com o novo. Tom compôs a melodia a partir de parâmetros antigos. João Gilberto trouxe a novidade na batida do violão e no modo de cantar.

Certa vez, num texto sobre João, tentei explicar assim:

A batida que João criou é a síntese do samba e a sua reinvenção. A utilização dos baixos desaparece para dar lugar a uma mão direita que percute o ritmo, enquanto a esquerda oferece acordes dissonantes num refinado desenho harmônico. A execução ilude o ouvinte: ela parece simples, mas é muito complexa. A voz nem sempre se deixa guiar pelo instrumento que a acompanha. Ora está adiantada, ora atrasada, às vezes os dois se encontram. É misterioso, preciso, perfeito. É necessário entender este diálogo para que não se incorra no erro de diminuir o artista.

Salve João!

E Tom!

E Vinícius!

E toda a Bossa Nova!

A BOSSA NOVA FAZ 60 ANOS*

 

A Bossa Nova completa 60 anos agora em 2018.

Há quem defenda o argumento de que seria em 2019, no sexagésimo aniversário do lançamento do LP Chega de Saudade, de João Gilberto.

Fiquemos, no entanto, com 2018 porque foi em 1958 que Elizeth Cardoso lançou Canção do Amor Demais, disco dedicado à parceria de Antônio Carlos Jobim com Vinícius de Moraes.

Neste disco, está registrada pela primeira vez a batida da bossa ao violão: seu criador, João Gilberto, acompanha Elizeth em Chega de Saudade e Outra Vez.

Um pouco depois, em julho de 1958, o próprio João fez o seu registro de Chega de Saudade num 78 rpm da Odeon.

A gravação seria uma espécie de manifesto do movimento que mudou a música popular do Brasil e efetivamente lhe deu dimensão internacional.

Além de ter fornecido inúmeras razões para que nos orgulhássemos dela.

Um cantor e seu violão.

Um compositor quer quis ser arquiteto e estudou piano clássico.

Um poeta que resolveu fazer letra de música popular.

João Gilberto.

Antônio Carlos Jobim.

Vinícius de Moraes.

Há outros. Mas, se quisermos eleger apenas três nomes, são estes os que melhor representam a Bossa Nova.

E há um ano crucial, antes das gravações que servem de referência para que se comemorem as seis décadas do movimento: 1956, o ano de Orfeu da Conceição.

O espetáculo que transportava o mito grego de Orfeu para os morros do Rio promoveu o encontro de Tom e Vinícius e fez nascer uma das grandes parcerias da nossa música popular.

Sem ela e sem os sambas que João cantava acompanhado ao violão, não haveria Bossa Nova, apesar dos outros cantores, compositores e instrumentistas também inseridos no ambiente que permitiu o seu surgimento.

*ESTE TEXTO ABRE UMA SÉRIE SOBRE OS 60 ANOS DA BOSSA NOVA. 

Canção do Amor Demais faz 60 anos

Rua Nascimento Silva 107

Você ensinando pra Elizeth

As canções de Canção do Amor Demais

Canção do Amor Demais, de Elizeth Cardoso, está fazendo 60 anos.

Lançado pelo pequeno selo Festa, é um dos discos fundamentais da música popular do Brasil.

Sem ele, minha discoteca estaria incompleta.

Há muitas belezas nesse LP que a Divina lançou em 1958.

Há a grande voz e a percepção de que algo novo estava surgindo.

Vinda de um cenário de tradição, Elizeth intuíu que a novidade estava ali naquela coleção de canções.

Dois anos antes, em 1956, por causa do musical Orfeu da Conceição, Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes começaram a trabalhar juntos.

Vinícius já passara dos 40.

Jobim ainda não tinha 30.

Canção do Amor Demais é um disco inteiramente dedicado à nova parceria.

Digamos que é um pequeno songbook da fase inicial, muito camerística, da dupla Tom e Vinícius.

João Gilberto foi convidado a acompanhar Elizeth em duas faixas. Nelas (Chega de Saudade e Outra Vez), registrou pela primeira vez um jeito original de tocar o violão.

Era a batida da Bossa Nova, invenção dele, que logo depois, ainda em 1958, apareceria no 78rpm da Odeon em que João faria o seu histórico e definitivo registro de Chega de Saudade.

Em nove das 13 faixas, o disco de Elizeth tem o usual na parceria deles: Tom fazendo a música. Vinícius, a letra.

Mas tem Tom fazendo letra e música (As Praias Desertas, Outra Vez). Vinícius também (Serenata do Adeus, Medo de Amar).

Há ainda os arranjos primorosos de Jobim.

E uma série de joias do nosso cancioneiro (Eu Não Existo Sem Você, Estrada Branca, Modinha).

Canção do Amor Demais reúne belezas grandes e pequenas.

Ao juntá-las, nos oferece algo imprescindível.

O amor (ah, o amor!) em verso e prosa por Vinícius de Moraes

Houve um tempo em que muita gente não respeitava Vinícius de Moraes. De acadêmicos que não aceitavam o fato de ele ter migrado da poesia canônica para a letra de música até ouvintes ditos exigentes de música popular que não viam com bons olhos a sua parceria com Toquinho.

Desconsideravam o poeta da juventude e do início da maturidade. E o homem que redimensionou o artesanato da letra de música no Brasil a partir do advento da Bossa Nova. Antes de Toquinho, que não maculou sua arte, Vinícius foi extraordinário parceiro de Tom Jobim e Carlos Lyra e, com Baden Powell, escreveu os Afro-Sambas.

Quatro livros me levaram a essas lembranças de Vinícius.

Vamos a eles.

Organizado por Eucanaã Ferraz, o primeiro – Jazz & Co. – reúne textos de Vinícius sobre a história e a música dos negros americanos. Foram escritos pelo diplomata que morou nos Estados Unidos na década de 1940 e, de lá, saiu completamente fascinado pelo jazz.

Organizado por Carlos Augusto Calil, 0 segundo – O Cinema dos Meus Olhos – traz o Vinícius cinéfilo experimentando, ao seu modo, a crítica de cinema.

Debruçado sobre o jazz ou sobre o cinema, ele enche de paixão os seus textos. Ou não seria Vinícius de Moraes.

Organizado por Eucanaã Ferraz, o terceiro – Livro de Letras – reúne as letras de música escritas por Vinícius. O autor e seus parceiros (Tom, Lyra, Baden, Toquinho, etc.). Um texto admirável de Eucanaã (Uma reta ascendente para o infinito) guia o leitor, sob ótica acadêmica, nesse passeio pelo Vinícius dedicado à canção popular.

Organizado novamente por Eucanaã Ferraz, o quarto livro – Todo Amor – é o mais recente. O título já diz tudo. Em verso (poesia, letra de música) e prosa (crônica, carta), oferece um retrato de Vinícius através de um dos grandes temas – ou o principal? – do seu legado.

Um longo aprendizado do amor. É como o organizador do livro classifica a obra de Vinícius logo no início do texto de apresentação.

À leitura!

Ferreira Gullar foi grande poeta e crítico lúcido da esquerda

Bandeira, Vinícius, Drummond, Leminski, Quintana, João Cabral. Já vi a morte de grandes poetas do Brasil.

Agora, mais um. Ferreira Gullar, quase fechando um ano de tantas perdas.

ferreira-gullar

Onde andarás nesta tarde vazia

Tão clara e sem fim

Enquanto o mar bate azul em Ipanema

Em que bar,

Em que cinema te esqueces de mim

Minha primeira lembrança de Ferreira Gullar é essa. Onde Andarás, um bolero meio samba-canção. Música de Caetano Veloso sobre versos dele. Ouvi muito na infância e na passagem para a adolescência, naquele disco de capa vermelha.

“Ferreira Gullar era particularmente querido por sua capacidade de encorajar, seu senso de solidariedade e seu talento para encontrar soluções inventivas mesmo naquela situação tão pobre de possibilidades”, diria Caetano muitos anos mais tarde sobre o poeta que hoje nos deixa, os dois, presos pela ditadura e levados para a mesma unidade militar, no final de 1968.

Senti o impacto do Poema Sujo na época em que foi publicado. É daquelas obras que, se não houvesse mais nada (e há!), justificam a existência de um autor.

O Poema Sujo, se pensarmos em forma e conteúdo, pode sintetizar o artista inquieto que, anos antes, ajudara a redirecionar a poesia brasileira, e o cidadão engajado que lutou firmemente contra o regime de exceção.

Foi, aliás, a sua luta contra a ditadura militar que o credenciou a, na velhice, tornar-se um crítico lúcido e severo dos governos petistas.

Quero terminar com música. O Trenzinho do Caipira, retrato de um Brasil profundo tirado pelo gênio de Heitor Villa-Lobos. Melodia enriquecida pelos versos de Ferreira Gullar. Na voz de Edu Lobo.

Lá vai o trem sem destino

Pro dia novo encontrar

Correndo vai pela terra

Vai pela serra

Vai pelo mar

Mais do que nunca, o trem sem destino segue em busca do dia novo.

Os versos do Poema Sujo eternizam Ferreira Gullar!

Os políticos acabaram com o Rio de Janeiro de tantas canções!

Acredito que poucas cidades do mundo foram exaltadas em tantas canções quanto o Rio de Janeiro.

Do hino Cidade Maravilhosa ao samba Aquele Abraço. Da Valsa de uma Cidade ao Samba do Avião.

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Tom Jobim e Billy Blanco fizeram uma sinfonia para o Rio de Janeiro. Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, o Samba do Carioca. Braguinha, Copacabana. Caymmi, Sábado em Copacabana.

A lista não tem fim.

Penso nessas canções e em tantas mais agora que o Rio, por causa dos seus políticos, está mergulhado numa crise sem precedentes.

Também lembrei de outras que pareciam nos alertar sobre o futuro.

Nossa famosa garota não sabia a que ponto a cidade turvaria/esse Rio de Amor que se perdeu – cantou Vinícius na Carta ao Tom, que já tem mais de 40 anos.

vinicius

Flutua no ar um desprezo, desconsiderando a razão/que o homem não sabe se vai encontrar/um jeito de dar um jeito na situação – é Paulinho da Viola em Amor à Natureza. Também tem mais de 40 anos.

paulinho-da-viola

São Sebastião crivado/nublai minha visão/na noite da grande fogueira desvairada – é Chico Buarque em Estação Derradeira. Há quase 30 anos.

Chico Buarque Doc 3

E tem aquela oração que Gil e Milton gravaram no ano 2000:

Sebastian

Sebastião

Diante de tua imagem, tão castigada e tão bela

Penso na tua cidade

Peço que olhes por ela!

Milton Nascimento, um mistério que não se desvenda por completo

milton-nascimento

Recife, março de 1979. Teatro do Parque lotado. Milton Nascimento entra sozinho no palco, vestido de branco, e, acompanhando-se ao violão, canta “Volver a los 17”, de Violeta Parra, que gravara com Mercedes Sosa.

Em seguida, os músicos vão ocupando seus lugares. Wagner Tiso no piano, Robertinho Silva na bateria, Novelli no baixo, Hélio Delmiro na guitarra. Mais Beto Guedes e Flávio Venturini.

O show: “Clube da Esquina 2”. Histórico, antológico, inesquecível. “Canoa, canoa desce/no leito do Rio Araguaia desce” – a voz de Milton ecoa no teatro com os falsetes que encantaram o mundo. Lembranças da primeira vez em que o vi de perto.

Milton Nascimento entrara na nossa casa pelas mãos do meu pai, em 1967. No festival que o revelou com “Travessia”. “Solto a voz nas estradas…” – a voz mágica que vinha de Minas. Como um mistério que nunca desvendaríamos por completo. O rapaz nascido no Rio, adotado por um casal de mineiros, louco pelo François Truffaut de “Jules et Jim”. E pelos mesmos Beatles que vi correndo na quadra em “A Hard Day’s Night”.

Meus melhores contatos com a música de Milton Nascimento são dos anos 1970, o período em que gravou seus discos mais importantes. Sete discos que o colocaram no topo da nossa música popular, entre 1970 e 1978.

Já estava tudo ali, naqueles trabalhos realizados ao lado dos músicos que formaram o Clube da Esquina. Gente que veio de Minas. Gente que foi se agrupando mais tarde no Rio. “Noite chegou outra vez/de novo na esquina os homens estão” – Milton e os irmãos Borges, seus parceiros. Milton e Brant – seu principal parceiro de jornada.

Primeiro, o disco com o Som Imaginário. “Para Lennon e McCartney”, “Canto Latino”, “Pai Grande”. “A Felicidade”, de Tom e Vinícius, evocando Agostinho dos Santos. Depois, “Clube da Esquina”. Brancos e pretos. Lô e Milton. “Tudo o que Você Podia Ser”, “O Trem Azul”, “Cais”, “Nada Será Como Antes”, “San Vicente”.

E aí vem “Milagre dos Peixes”. Em estúdio, com as letras censuradas e a voz de Clementina de Jesus. Ao vivo, no Teatro Municipal de São Paulo, regência de Paulo Moura. As cordas que remetem ao barroco mineiro antecedem as palavras que se repetem em “Bodas”. “E a muitos outros que a mão de Deus levou” – a dedicatória irônica na noite brasileira.

“Minas” e “Geraes” consolidam o artista extraordinário. “Fé Cega, Faca Amolada”, “Saudade dos Aviões da Panair”, “Ponta de Areia”. A voz metálica misturada ao coro infantil. “Mi” de Milton, “nas” de Nascimento. As sílabas iniciais formando “Minas”. Para abrir caminho a “Geraes”, o disco seguinte. “Voltar aos dezessete, depois de viver um século” – os versos de Violeta Parra gravados com Mercedes Sosa. Ou “quem cala sobre teu corpo/consente na tua morte”.

No próximo passo, os amigos juntos em “Clube da Esquina 2”. Elis, Chico, todos. Há muita beleza nos anos seguintes. Mas nem precisava. Bituca é o aniversariante desta quarta-feira (26).