RETRO2016/”Velho Chico” é marco da telenovela

“Velho Chico” foi o grande acontecimento da televisão brasileira em 2016. Dediquei alguns textos à novela aqui na coluna.

Segue um deles:

“Velho Chico” é um marco da telenovela brasileira. Uma produção inovadora num gênero que tem dificuldades para se reinventar.

O modo com que a cor foi usada, os enquadramentos incomuns na televisão, o tempo da narrativa, o ritmo da montagem, o tom teatral muitas vezes adotado na encenação, a influência do cinema brasileiro dos anos 1960, a escolha da trilha sonora.

Juntos, esses elementos são mais do que suficientes para fazer de “Velho Chico” um grande feito da televisão brasileira.

E, se pensarmos em conteúdo, a novela trouxe para o horário nobre temas que são o inverso do que dizem os muitos críticos da Rede Globo.

Para nós, paraibanos, “Velho Chico” ainda teve a notável presença dos nossos conterrâneos no elenco.

São tantos! Todos sintam-se representados na menção a duas atrizes: Zezita Matos, grande nome do nosso teatro, impecável na construção da personagem Piedade, e Lucy Alves, que já nos conquistara com seu talento musical, agora também como significativa revelação na teledramaturgia.

zezita-matos-e-lucy-alves

E, por falar em elenco, há o Bento de Irandhir Santos, que vimos nos filmes de Kleber Mendonça Filho. E o padre de Carlos Vereza, sempre excepcional. E a Encarnação de Selma Egrei, que está na memória afetiva de quem viu o cinema de Walter Hugo Khouri. E Fagundes, Pitanga, Serrado. Muitos!

E, claro, o Santo de Domingos Montagner. A afeição do público pelo personagem pôde ser dimensionada na morte trágica do ator.

“Velho Chico” vai deixar saudades!

Telenovela brasileira faz 65 anos. Quais as melhores?

A telenovela brasileira está fazendo 65 anos.

Houve um tempo em que era um produto menor, pouco respeitado. Não é mais. O gênero já deu todas as demonstrações de seus méritos.

Não há mais problema. Todos – incluindo os mais cultos – podem confessar que são noveleiros.

Minha primeira novela foi Redenção. Na infância. Francisco Cuoco era Dr. Fernando. Quem lembra?

redencao

Uma vez, quase 40 anos mais tarde, cruzei com o ator no corredor da TV Cabo Branco. Não resisti e falei:

Dr. Fernando!

Ele olhou, sorriu, apertou minha mão. E, para justificar o cumprimento, eu disse:

Redenção foi minha primeira novela!

A Veja traz listas das melhores novelas de todos os tempos. Resolvi fazer a minha. Não coloquei Velho Chico, que tanto me impressionou, por dois motivos: não vi toda e ainda é muito recente. Distanciamento é bom para essas avaliações.

Segue a minha lista:

Redenção

De Raimundo Lopes. TV Excelsior. 1966/1968.

Antônio Maria

De Geraldo Vietri e Walter Negrão. TV Tupi. 1968/1969.

aracy-balabanian-e-sergio-cardoso

Gabriela

De Walter George Durst. TV Globo. 1975.

O Casarão

De Lauro César Muniz. TV Globo. 1976

Escrava Isaura

De Gilberto Braga. TV Globo. 1976/1977.

escrava-isaura

O Astro

De Janete Clair. TV Globo. 1977/1978.

Dancin’ Days

De Gilberto Braga. TV Globo. 1978/1979.

Roque Santeiro

De Dias Gomes. TV Globo. 1985/1986.

Vale Tudo

De Gilberto Braga e Aguinaldo Silva. TV Globo. 1988/1989.

Que Rei Sou Eu?

De Cassiano Gabus Mendes. TV Globo. 1989.

Pantanal

De Benedito Ruy Barbosa. TV Manchete. 1990.

Laços de Família

De Manoel Carlos. TV Globo. 2000/2001.

lacos-de-familia

No fim, “Velho Chico” tem “Francisco, Francisco” na voz de Bethânia

No desfecho da trama, outro momento belíssimo da trilha de “Velho Chico”. “Francisco, Francisco” na voz de Maria Bethânia.

A música é de Roberto Mendes. A letra, do poeta tropicalista Capinan. O trecho “Meu Divino São José” é do folclore e foi usado por Gilberto Gil na abertura de “Procissão”.

O vídeo que posto aqui é do show “Dentro do Mar Tem Rio”.

Trilha sonora está entre as qualidades de “Velho Chico”

Há quanto tempo não ouvíamos Elomar numa novela da Rede Globo?

Lembro da voz dele em “Gabriela”, aquela dos anos 1970 estrelada por Sônia Braga.

Pois é! E Geraldo Vandré?

Nem lembro dele em nenhuma novela!

Mérito de “Velho Chico”. Colocar no horário nobre da televisão brasileira vozes como as de Elomar, Geraldo Vandré e Xangai.

Mas não somente eles.

Alceu Valença, Caetano Veloso, Chico César, Elba Ramalho, Geraldo Azevedo, Legião Urbana, Maria Bethânia, Raul Seixas. E outros mais. Suas vozes, suas canções, compondo a trilha sonora de uma telenovela.

Muito já se falou das qualidades de “Velho Chico”. Acrescente-se mais esta.

Uma telenovela onde ouvimos a Suíte Correnteza, de Geraldo Azevedo, e o Réquiem Para Matraga, de Geraldo Vandré. Incelença pro Amor Retirante, de Elomar, e Triste Bahia, de Caetano Veloso. Ou, ainda, Metamorfose Ambulante, de Raul Seixas.

Eu organizo o movimento, eu oriento o carnaval, eu inauguro o monumento no Planalto Central do país.

Que luxo! Uma novela na qual, todas as noites, esses versos de Caetano Veloso eram ouvidos logo na abertura.

Para ilustrar o texto, escolho uma das belezas da trilha. Barcarola do São Francisco, um dos três “movimentos” da Suíte Correnteza, de Geraldo Azevedo.

A trilha de “Velho Chico” está registrada em três CDs, um deles dedicado aos temas instrumentais.

Na reta final, “Velho Chico” é marco da telenovela brasileira

“Velho Chico” entra em sua última semana nesta segunda-feira (26).

domingos-montagner-no-mais-voce

A novela chega ao final marcada por um episódio trágico. A morte do ator Domingos Montagner entristeceu milhões de pessoas e fez pensar na finitude de cada um de nós, como bem lembrou Zélia Duncan num artigo muito sensível em O Globo.

Mas hoje, aqui, quero falar um pouco sobre a novela.

“Velho Chico” é um marco da telenovela brasileira. Uma produção inovadora num gênero que tem dificuldades para se reinventar.

O modo com que a cor foi usada, os enquadramentos incomuns na televisão, o tempo da narrativa, o ritmo da montagem, o tom teatral muitas vezes adotado na encenação, a influência do cinema brasileiro dos anos 1960, a escolha da trilha sonora.

Juntos, esses elementos são mais do que suficientes para fazer de “Velho Chico” um grande feito da televisão brasileira.

E, se pensarmos em conteúdo, a novela trouxe para o horário nobre temas que são o inverso do que dizem os muitos críticos da Rede Globo.

Para nós, paraibanos, “Velho Chico” ainda teve a notável presença dos nossos conterrâneos no elenco.

São tantos! Todos sintam-se representados na menção a duas atrizes: Zezita Matos, grande nome do nosso teatro, impecável na construção da personagem Piedade, e Lucy Alves, que já nos conquistara com seu talento musical, agora também como significativa revelação na teledramaturgia.

zezita-matos-e-lucy-alves

E, por falar em elenco, há o Bento de Irandhir Santos, que vimos nos filmes de Kleber Mendonça Filho. E o padre de Carlos Vereza, sempre excepcional. E a Encarnação de Selma Egrei, que está na memória afetiva de quem viu o cinema de Walter Hugo Khouri. E Fagundes, Pitanga, Serrado. Muitos!

E, claro, o Santo de Montagner. A afeição do público pelo personagem pôde ser dimensionada na morte trágica do ator.

“Velho Chico” vai deixar saudades!

A morte de Santo e outras mortes. Longa é a arte, tão breve a vida!

A morte do ator Domingos Montagner, o Santo de Velho Chico, nos deixa estarrecidos.

A notícia do desaparecimento, durante um mergulho no São Francisco, veio no meio da tarde desta quinta-feira (15). No início da noite, a confirmação do que já parecia inevitável.

domingos-montagner-no-mais-voce

A precocidade, a circunstância trágica, o talento, a beleza física, o sucesso, o reconhecimento, a força do personagem. Tudo se mistura em meio à perplexidade até de quem não acompanhava tão atentamente a novela, mas o suficiente para perceber quantos diferenciais há nela.

A morte de Montagner fala da relação afetiva que construímos com atores e atrizes e seus personagens. E do quanto são dolorosas essas perdas. Como se elas ocorressem bem perto de cada um de nós. Mortes assim assustam porque falam do imprevisível e da brevidade da vida.

Lembro aqui de Jardel Filho, o grande ator de Terra em Transe, levado por um ataque cardíaco durante Sol de Verão. Ou de Sérgio Cardoso, o eterno Antônio Maria, que nos deixou antes de terminar O Primeiro Amor. Ou, ainda, da jovem Daniela Perez, assassinada por um colega de elenco e pela mulher dele quando fazia De Corpo e Alma.

A arte imita a vida é um clichê.

Na trama, Santo desapareceu nas águas do Velho Chico para ressurgir lá na frente.

Na vida real, Montagner morreu nas águas do São Francisco.

A vida a imitar a arte – não há como fugir da inversão do clichê!

Nem do verso de Tom Jobim, que a gente ouvia na trilha de uma novela, uns 25 anos atrás:

Longa é a arte, tão breve a vida!

Beijo de Olívia e Miguel em “Velho Chico” lembra Yoná e Othon Bastos em “Deus e o Diabo”

Gosto do que “Velho Chico” tem de diferente, se pensarmos nos padrões da telenovela brasileira.

O ritmo da narrativa, a direção de fotografia, o tom teatral do elenco, a edição mais lenta, a trilha sonora.

Vejo muito do Cinema Novo em “Velho Chico”. Do próprio Glauber Rocha. É bom que isso ocorra na novela das nove da Globo. Como nesta segunda-feira (22), justamente nos 35 anos da morte de Glauber.

Em 1964, em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, Glauber filmou o beijo de Yoná Magalhães e Othon Bastos com a câmera na mão, girando em torno do casal, que, por sua vez, também girava. Depois, sonorizou a cena com a Bachiana No 5 de Villa-Lobos.

Pois bem. Não há como não ver Glauber e o beijo de “Deus e o Diabo” no primeiro beijo de Olívia e Miguel, que foi ao ar nesta segunda em “Velho Chico”

Vejam. Comparem.

 

Xangai, que está em “Velho Chico”, lança CD de voz e violão

Elomar não gosta de televisão. Como Xangai está sempre muito associado a Elomar, é fácil imaginar que ele também não gosta.

Surpresa! Xangai aparece em “Velho Chico”. Faz uma ponta como ator. E sua bela voz é ouvida na trilha da novela das nove.

Numa noite dessas, uma sequência de “Velho Chico” foi toda ilustrada por uma música de Elomar na voz de Xangai.

Pois bem, enquanto ouvimos sua voz na novela da Globo, temos o lançamento do seu novo disco. Chama-se apenas “Xangai”, tem a chancela do selo Kuarup e foi gravado à base de voz & violão. No encarte, ele conta os detalhes.

Conheci Xangai no Projeto Pixinguinha de 1979. Ficamos amigos. Produzi seu primeiro show em João Pessoa (1980) e acompanho com admiração sua carreira. Respeito muito suas escolhas, mesmo quando discordo delas.

Xangai é um daqueles artistas que correm por fora. E o faz como opção, por convicção de que deve ser assim. É uma necessária reserva de qualidade e independência.

Os que gostam ficam felizes quando ouvem a voz de Xangai na novela das nove porque, no fundo, torcem para que sua música chegue a um público mais numeroso. Ou porque é importante tê-lo onde parece improvável que isto aconteça.

Mas a praia de Xangai será sempre outra.

O CD traz o Xangai que ouvimos há quase 40 anos. Voz bela e expressiva, adornada por falsetes e por um modo de fazer a divisão que vem de Jackson do Pandeiro e passa por Gilberto Gil.

É a primeira vez que ele faz um disco só com voz e violão. Teve receio porque sabe das suas limitações com o instrumento, mas ficou muito bom.

Tem o Ataulfo Alves de “Meus Tempos de Criança” e o Zé Dantas de “Forró em Caruaru”. O Renato Teixeira de “Pequenina” e o Geraldo Azevedo de “Espiral do Tempo”. Jessier Quirino aparece em “Bolero de Isabel” enquanto Ivanildo Vila Nova é seu parceiro em “Ino no Cangaço”.

Revisitadas, “Estampas Eucalol” e “Água” me trazem a lembrança do Xangai de 35 anos atrás.

Um abraço saudoso pra ti, Eugênio Avelino!

Rinah Souto faz releitura emocionada de “Talismã”, de Geraldo Azevedo

A cantora paraibana Rinah Souto, que está radicada em São Paulo, fez uma emocionada releitura de “Talismã” em vídeo postado no Facebook. A  canção integra (ao lado de “Caravana” e “Barcarola do São Francisco”) a suíte “Correnteza”, de Geraldo Azevedo, que está na trilha da novela “Velho Chico”.

No vídeo, Rinah aparece cantando “Talismã” acompanhada pelo violão de Paulio Celé, que é autor do arranjo. No final, há uma citação de “Cantiga”, tema folclórico recolhido por Villa-Lobos e incluído nas Bachianas Brasileiras.

“Um arranjo repleto de veredas que reverberam o cancioneiro popular brasileiro”, define a própria Rinah Souto.

 

 

 

 

Som Livre relança Geraldo Azevedo com música de “Velho Chico”. Ouça

A gravadora Som Livre relançou o primeiro disco solo de Geraldo Azevedo, que estava fora de catálogo há muitos anos. É nesse disco que está a música “Barcarola do São Francisco”, um dos temas da trilha sonora da novela “Velho Chico”.

O CD se chama “Geraldo Azevedo” e foi lançado originalmente em 1977. Faz parte do conjunto de discos da geração de artistas nordestinos que despontou na década de 1970 (além de Geraldo, Alceu Valença, Zé e Elba Ramalho, Fagner, Belchior e Ednardo).

A reaudição, quase 40 anos mais tarde, confirma que o pernambucano Geraldo Azevedo fez sua estreia em altíssimo nível. Antes, dividira um disco com Alceu Valença e participara do LP com a trilha sonora do filme “A Noite do Espantalho”, de Sérgio Ricardo.

A destacar: as belas e sensíveis melodias compostas por Geraldinho, as letras de Carlos Fernando, a guitarra inconfundível de Robertinho de Recife e a presença, como arranjador, do maestro Radamés Gnatalli.

O ponto alto do disco é a suíte “Correnteza”, composta por três músicas. É nela que está “Barcarola do São Francisco”, que ouvimos com frequência na novela “Velho Chico”. As outras duas são “Caravana” e “Talismã”.