Erialdo Pereira e o jornalismo das TVs Cabo Branco e Paraíba

Muito bem realizados os programas Tempo de Trinta, sobre o trigésimo aniversário das TVs Cabo Branco e Paraíba. Mas senti falta de Erialdo Pereira. A rápida imagem colocada sobre uma fala de Nonato Guedes e o nome junto dos outros editores gerais nos créditos de encerramento não são proporcionais à importância do profissional que comandou o jornalismo das duas emissoras por quase 20 anos.

Erialdo Pereira vinha do impresso e do rádio quando, aos 38 anos, assumiu o comando da equipe que colocou a TV Cabo Branco no ar.

Como faremos com esse veículo que é novo para todos nós?

Lembro que fiz a pergunta, e ele respondeu: somos guiados pela fusão do texto bem escrito do impresso com a informalidade do texto falado do rádio.

A qualidade do texto estava em nossas discussões diárias, mas não era a sua única preocupação.

Erialdo não abria mão da informação correta. Da melhor checagem, da conversa exaustiva com as fontes. Preferia não dar a notícia a dar errado. Com essa exigência, vinha uma das suas muitas lições: nunca devemos ser açodados.

Não devemos ser açodados com a informação, nem com as avaliações, a análise dos conteúdos, a definição das estratégias. O açodamento costuma ser inimigo dos bons resultados, nos dizia sempre.

Erialdo Pereira era um grande profissional que formou equipes e profissionais. Nele, havia o talento jornalístico e o gosto pela gestão do grupo que estava sob seu comando.

Ele foi o principal responsável pela definição de como seria o jornalismo das TVs Cabo Branco e Paraíba e o homem que esteve à frente da consolidação desse projeto. Não há como apagar das nossas memórias o papel que desempenhou.

Vindos do jornalismo impresso, do radiofônico, da universidade, alguns de outras emissoras de televisão – os jornalistas que integraram as equipes das duas emissoras devem muito a Erialdo. Ao seu nível de exigência, sua sabedoria, suas críticas, seus afagos, sua ética, seu bom senso, sua luta cotidiana pela credibilidade. Além do raro equilíbrio que mantinha, posicionado entre os dois pólos que representava, a equipe e a empresa.

Com ele, ouvimos todas as vozes, dialogamos com a comunidade, valorizamos o conhecimento, investimos na memória, apostamos nas novas tecnologias. Fizemos jornalismo pensando na notícia e na prestação de serviço, comemorando os êxitos e administrando os obstáculos.

A TV Cabo Branco entrou no ar em caráter experimental em outubro de 1986, no momento em que o Brasil elegia o congresso constituinte. Quando Erialdo deixou a equipe, em abril de 2004, o governo Lula tinha pouco mais de um ano. Crescemos nesse cenário, testemunhando grandes transformações.

Suas lições, para mim, passaram por cidadania, legalidade, conquistas, avanços, pelos anseios de liberdade de quem se fez profissionalmente num país sob governos de exceção. Erialdo e suas conversas, que iam da Rádio Nacional ao Jornal do Brasil, dos encontros com Vladimir Carvalho ao quarto de pensão dividido com Manfredo Caldas ou aos textos escritos para Eliakim Araújo ler. Dentro de tudo, o jornalismo, o papel da imprensa nas democracias, os nossos limites – conversas que incorporavam conhecimento ao difícil exercício cotidiano.

A redação de Erialdo contrastava com o excesso de objetividade das redações de hoje. Era muito mais rica em discussões, menos pragmática. Mais humana, menos fria. A permitir mais compartilhamento.

Às vezes, me pergunto como ele estaria nesse cenário em que todos estão recolhidos aos seus mundos virtuais, diante de pequenas telas.

O jornalismo que fazemos agora, com seus erros e acertos, é o jornalismo atingido por um furacão a ser administrado pelos garotos e garotas que estão de chegada. Os “filhos” de Erialdo logo estarão de saída. Talvez nem sejam lembrados na televisão do futuro cantada por Seu Pereira no encerramento do Tempo de Trinta.

Música que festeja TVs Cabo Branco e Paraíba lembra sambas de Gil

Um dos pontos positivos do primeiro dos três especiais que marcam os 30 anos das TVs Cabo Branco e Paraíba foi a música cantada por Chico Limeira no encerramento do programa.

Tocar Televisão é o nome da canção. Vejam. Em seguida, comento.

Tocar Televisão foi composta por Chico Limeira e Thyego Lopes. Thyego é o diretor da série Tempo de Trinta.

É um samba que remete às transformações a que o gênero foi submetido a partir dos anos 1960. No centro dessa transformação, há Jorge Ben e Gilberto Gil. Mas, no caso de Tocar Televisão, a matriz é Gil. Chamou minha atenção quando ouvi.

O ponto de partida dos sambas de Gil pode ser Serenata de Teleco Teco, música gravada bem antes da fama, lá na Salvador dos início da década de 1960. Esse velho samba de Gil, que muita gente não conhece, já contém os elementos que iluminariam o seu caminho como compositor de grandes sambas. Caminho que desemboca lá na frente nos sambas de Djavan e João Bosco.

Tudo isso está resumido num samba que Gil compôs por volta do ano 2000: Máquina de Ritmo. Ouçam na versão de 2012.

Máquina de Ritmo é matriz de Tocar Televisão. A influência de Gil faz crescer a música de Chico Limeira e Thyego Lopes. Ela tem um elemento de metalinguagem logo no começo. Comenta a encomenda. Os autores falam, na própria música, da música que estão compondo. E depois entram na homenagem às emissoras aniversariantes. Com uma letra inteligente, que não cede ao elogio fácil.

Perguntei a Chico Limeira por Gil. Em Tocar Televisão, no que diz respeito a ele, me disse que não há nada intencional. Mas, na conversa, me deu uma pista: Thyego é louco por Gil!

Perguntei a Thyego Lopes e ouvi que, sim, há muito dos sambas de Gil. Quando mencionei Máquina de Ritmo, ele confirmou a fonte de inspiração.

O samba de Gil fala de um monte de coisas. Do futuro. Das influências. Das fontes. Das matrizes. Das trocas. Das novas tecnologias. Do diálogo inevitável da música com elas. Tocar Televisão, mesmo que não seja um samba sobre o samba, pode, então, ser reconhecido como filho de Máquina de Ritmo.

O samba cantado por Chico Limeira, jovem compositor que tem a idade das TVs Cabo Branco e Paraíba, enriquece a comemoração.

TV Cabo Branco, 30 anos: o dia em que entrevistei Jimmy Cliff

O reggae jamaicano entrou na minha vida antes que eu soubesse o que era reggae.

Foi por volta de 1970, através do single Vietnam, de Jimmy Cliff.

Achei irresistível.

Ouçam.

Vi Cliff ao vivo em 1980, no Recife, na turnê com Gilberto Gil. Cheguei muito cedo ao Geraldão, acompanhei a passagem de som, conheci o executivo Midani, à época na Warner. Foi uma grande noite!

Uma década mais tarde (creio que no início de 1991), Cliff, sozinho, fez uma nova turnê pelo Brasil. O show passou por João Pessoa, no Espaço Cultural José Lins do Rego.

Horas antes, fui entrevistá-lo no Hotel Tambaú. Eu costumava atuar só nos bastidores da TV Cabo Branco, chefiando a redação e editando o JPB2, mas, naquele dia, fui para a externa. Dei uma de repórter.

Levei o amigo Waldir Dinoá como intérprete. É dele a minha foto com Cliff. Aí está.

Cumprimentei Jimmy Cliff efusivamente. Mas ele foi frio. Formal. Certamente eu não entendi que, ali, não cabia nenhuma efusividade.

Eu perguntava em Português. Waldir traduzia para o Inglês, e Cliff respondia. Mais tarde, coloquei minha voz em off sobre as perguntas e respostas.

Conversamos exclusivamente sobre reggae. O significado da música, a força extraordinária do ritmo, a repercussão internacional, a adesão dos brancos.

Achei curioso Cliff não reconhecer como importante o fato de músicos como Paul Simon, Eric Clapton, Paul McCartney, os Rolling Stones e Bob Dylan terem gravado reggae.

Para ele, todos os méritos eram dos negros da Jamaica e ponto final.

Nunca entrevistei Bob Marley, nem Peter Tosh, mas, ao entrevistar Jimmy Cliff, estive com um dos gigantes do reggae.

Acrescento:

Depois de ver a matéria postada, Waldir Dinoá me manda uma foto que eu não conhecia: Jimmy Cliff e ele, atuando como intérprete. Eu estou de costas.

TV Cabo Branco: 30 anos esta noite!

(O título vem do filme de Louis Malle.)

À meia noite deste sábado, ou zero hora deste domingo, a TV Cabo Branco completa oficialmente três décadas.

Dividido entre a chefia de redação e a edição do JPB2, estive lá por duas décadas. Sob o comando de Erialdo Pereira (por 18 anos!), fomos a primeira emissora de televisão de João Pessoa.

(Peço licença para ilustrar com essa foto aí, de uns 25 anos atrás. É tão particular! Roberta Matias, Edilane Araújo e eu na redação com máquinas de datilografia.)

Quando começamos, o Brasil do Plano Cruzado era governado por José Sarney. A Paraíba, por Milton Cabral. O prefeito de João Pessoa era Carneiro Arnaud. O de Campina Grande, Ronaldo Cunha Lima.

Os Estados Unidos eram governados por um velho ator de cinema, Ronald Reagan. A União Soviética ainda existia! O muro de Berlim, também!

Na redação, usávamos máquinas de datilografia. Computadores, só uma década mais tarde! Nem todo mundo tinha vídeo cassete em casa. Muito menos CD!

DVD? Blu-ray? Internet? Telefones móveis? Smartphone? Google? Facebook? Netflix? Serviços de streaming?

Tudo coisa do futuro!

Fizemos jornalismo num tempo de grandes transformações.

No Brasil, vimos a elaboração da nova Constituição, o fim da censura prévia, a retomada das diretas para presidente, o avanço da cidadania num país afinal redemocratizado.

Vimos a estabilidade da moeda e a chegada de um operário na presidência.

Fizemos jornalismo nesse cenário de adequação ao novo. O novo das conquistas tecnológicas e o novo nos campos político e ideológico. Mas também mantivemos valores e conceitos que, no nosso ofício, ainda não perderam a validade.

O cânone que nos guiou continua guiando as redações e seus profissionais. Ou ao menos parte deles. O compromisso com a verdade, com a informação correta. A checagem obsessiva para evitar o erro imperdoável. O espaço para as vozes divergentes. Tudo isso.

Às vésperas do ano 2000, discutíamos jornalismo comunitário em busca de mais diálogo com a nossa audiência. Nas nossas imersões, fazíamos projeções para os próximos 10 ou 15 anos. Estávamos quase sempre errados. Os telejornais mudaram menos do que imaginávamos. Ainda estão excessivamente presos a um modo clássico de fazer telejornal.

Mas houve o furacão das redes sociais! Esse, 30 anos atrás, só cabia em filme de ficção científica!

Os garotos e garotas da geração Y, que hoje chegam às redações e amanhã vão comandá-las, têm pela frente um desafio que não se sabe ao menos qual é. Numa profissão cujo futuro está sendo redesenhado.

Fica, então, para os próximos 30 anos da TV Cabo Branco!

Parabéns aos que fizeram e aos que fazem a emissora!

(Fecho com essa foto de 2015. Edilane Araújo, Roberta Matias, eu e Nelma Figueiredo.)

Lula mordeu a língua. FHC pareceu inatingível

Volto aos textos que estou publicando a propósito dos 30 anos da TV Cabo Branco. Hoje, venho com breves anotações sobre grandes nomes da cena política nacional que passaram pelo estúdio da emissora, entrevistados quase sempre por Nonato Guedes, Otinaldo Lourenço e Chico Maria.

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Lula esteve conosco mais de uma vez. Numa delas, na campanha de 1989, enquanto não chegava a hora da gravação, assisti ao Jornal Nacional com ele. Havia um problema com a escolha do seu vice (o senador Bisol), e o JN pedira uma sonora de Lula, que gravamos horas antes. Mencionei a entrevista, e Lula me disse:

Esses porras não vão dar!

Mordeu a língua! Segundos depois, a entrevista foi exibida.

Fernando Henrique Cardoso gravou para o Bom Dia Paraíba quando era senador. Ninguém imaginava ainda que seria presidente. Fiquei empolgado para estar com ele, pelo quanto era respeitado como sociólogo e homem de esquerda.

Mas foi frustrante. No contato pessoal, na hora da conversa, me pareceu inatingível. Como se pouco tivesse para dividir com os que o recebiam.

Também foi frustrante o contato com Leonel Brizola. Era meu candidato, e até hoje o admiro, mas, visto de perto, não exibiu nada do carisma dos palanques e entrevistas. Como se tivesse gestos e sorrisos pouco naturais.

Antes da gravação, o entrevistador Otinaldo Lourenço fez um comentário nada conveniente. Ao ver que Brizola calçava botas, lançou mão de sua habitual irreverência e usou uma palavra que o gaúcho não admitia: caudilho.

A frase de Otinaldo, que Brizola ouviu com um riso amarelo:

Botinha de caudilho! 

Ulysses Guimarães chegou à TV Cabo Branco num sábado à noite para gravar uma entrevista. Agenda cheia, estava na correria de uma campanha. Afável, muito bom de conversa.

O historiador José Octávio de Arruda Mello soube da presença de Ulysses e foi à TV cumprimentá-lo. Quando o viu caminhando pelo corredor, saindo do estúdio, bradou:

Viva Dr. Ulysses!

Bem que o Sr. Diretas era merecedor.

Celso Furtado contou muitas histórias na noite em que gravou A Palavra É Sua. Kennedy, Sartre, personagens com quem cruzou. E disse uma frase inesquecível:

As elites brasileiras são tão atrasadas que não admitem nem Dr. Ulysses!

Eduardo Suplicy me lembrou um freak dos anos 1960 transportado para a política. José Genoíno dava a impressão de ser pouco verdadeiro. A conversa de José Dirceu, sedutora e muito inteligente, sugeria que ele faria qualquer coisa pelo êxito do projeto.

O líder comunista Luiz Carlos Prestes era o que se costuma chamar de lenda viva. Na redação, uma jovem produtora não acreditou que ele estava ali. Pensou que, àquela altura, só fizesse parte dos livros de história.

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Na saída, o militante prestista Alexandre Guedes me fotografou com o Cavaleiro da Esperança. Prestes morreu dois meses depois.

Memórias da TV Cabo Branco: Nonato Guedes e a política

Volto aos textos que estou escrevendo a propósito dos 30 anos da TV Cabo Branco.

Hoje, vou falar sobre Nonato Guedes.

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Desde muito cedo, no rádio e no impresso, o nome de Nonato Guedes está associado ao nosso melhor jornalismo político.

Na TV Cabo Branco, em seus primeiros anos, ele fez o Bom Dia Paraíba e o Paraíba Meio-Dia, além de ter se notabilizado como mediador dos debates eleitorais.

O domínio que tinha do jornalismo radiofônico e a qualidade dos textos que escrevia para o impresso se juntaram no que Nonato levou para a televisão.

Sua presença no elenco da TV Cabo Branco era garantia de um jornalismo equilibrado, isento e ético na editoria de política. Fosse nas entrevistas em estúdio, nos comentários políticos ou na análise das pesquisas de opinião. E muito também na permanente discussão de conteúdo que se travava nos bastidores.

Por ele (dividindo a bancada ora com Chico Maria, ora com Otinaldo Lourenço ou Cláudia Gondim) foram feitas algumas das entrevistas mais importantes da história da emissora. Por seus questionamentos lúcidos e certeiros passaram personagens centrais da cena política da Paraíba e do Brasil.

De um João Agripino em seu ocaso a um Fernando Henrique Cardoso antes da presidência. De um Leonel Brizola perseguindo um sonho que nunca realizaria a um Ulysses Guimarães que jamais abriu mão do seu papel de construtor da nossa democracia.

A TV Cabo Branco realizou seu primeiro debate nas eleições municipais de 1988. O ex-governador Wilson Braga foi eleito prefeito de João Pessoa.

Naquela época, a Globo não enviava os mediadores para as afiliadas. Os debates tinham mediador local.

Nonato era o nosso.

Cumpria a missão com equilíbrio e absoluta firmeza, impondo-se com serenidade diante dos candidatos em processos eleitorais tensos e disputadíssimos como o de 1990, em que Ronaldo Cunha Lima conquistou o governo ao derrotar Wilson Braga no segundo turno.

Os protagonistas do debate, claro, eram Ronaldo e Wilson, mas é a Nonato Guedes que se deve muito do êxito do que pusemos no ar naquela noite histórica.

Nonato é estrela de primeiríssima grandeza numa constelação que fez jornalismo com garra, sonhos, crenças. Primando pela qualidade, pela informação sem erros, pelo texto impecável.

Fui seu chefe, mas o professor era ele!

Primeiro jornal da TV Cabo Branco foi ao ar há 30 anos

Antes que o mês termine, quero fazer um registro: o primeiro jornal da TV Cabo Branco foi ao ar há 30 anos, em outubro de 1986. Foi apresentado por Geraldo Oliveira (foto) e Bertrand Freire.

Conto um pouco dessa história.

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A TV Cabo Branco, primeira emissora de televisão de João Pessoa, entrou no ar em caráter definitivo, como afiliada da Rede Globo, no primeiro dia de janeiro de 1987. Mas, antes, houve uma fase experimental, que durou pouco menos de três meses, entre outubro e dezembro de 1986.

Nessa fase experimental, a emissora transmitia o sinal da Band. Muitos dos seus profissionais estavam experimentando o veículo pela primeira vez. Eram jornalistas que vinham de outras plataformas e jovens recrutados na Escola Técnica para postos operacionais. Todos haviam passado por um treinamento que durou alguns meses e, de fato, teriam a oportunidade de “treinar” no ar, antes que a TV passasse a operar como afiliada da Globo.

O primeiro telejornal se chamou Câmera 7. O 7 era uma alusão ao horário em que ia ao ar e ao canal da emissora.

Estávamos no Brasil do Plano Cruzado, do governo Sarney, e às vésperas de uma eleição. O deputado federal Tarcísio Burity seria eleito governador pelo PMDB.

As primeiras edições do Câmera 7 falavam das eleições, das ações da Sunab para garantir o êxito do Plano Cruzado, cobriam os eventos esportivos, a agenda cultural da cidade. Dava ao pessoense a oportunidade de se ver todas as noites num telejornal.

Campina Grande, com a TV Borborema, teve uma emissora de televisão em 1963. João Pessoa demorou muito para ter o seu primeiro canal. Vivíamos do que as repetidoras nos ofereciam. Basicamente, do que era produzido no Recife. A chegada da TV Cabo Branco foi, portanto, um marco na vida da cidade.

O Câmera 7 era, por certo, um telejornal cheio de limitações. Mas era o resultado do esforço de uma equipe consciente de que desempenharia o papel histórico de por no ar a primeira emissora de televisão de João Pessoa.

Não posso mencionar todos os envolvidos, mas há alguns nomes que quero registrar:

Dos repórteres Joanildo Mendes, Saulo Moreno, Gisa Veiga, Karla Almeida, Naná Garcez e Ruth Avelino. Outros, que chegaram logo depois, ainda não estavam nesses primeiros dias.

Dos editores de imagens Carlos Alberto e Bernadete de Oliveira, que editaram comigo o Câmera 7.

Do editor geral, Erialdo Pereira, e do chefe de reportagem, Rubens de Abreu. Do gerente operacional, Cacá Martins.

Não havia computadores, muito menos internet. Usávamos máquinas de datilografia e um tele-prompter doméstico. Além de grandes fitas U-matic. As equipes que acompanhavam os repórteres tinham um cinegrafista, um operador de VT e um iluminador.

Muitos dos garotos e garotas da geração Y, que hoje dividem conosco os espaços de uma redação, ainda nem eram nascidos.

“O Brasil vive o momento trágico do afastamento de um presidente!”

Dilma

A frase do título não é minha.

Foi o que, numa entrevista à TV Cabo Branco, o senador paraibano Antônio Mariz me disse, ao telefone, quando escolhido relator, no Senado, do processo de impeachment de Fernando Collor. Era início de outubro de 1992, Collor acabara de ser afastado após a votação na Câmara e, antes do final daquele ano, não seria mais presidente.

Lembro das palavras de Mariz nesta segunda-feira (29), o dia em que a presidente afastada Dilma Rousseff vai ao Senado, a um ou dois dias da votação que deverá retirá-la, em definitivo, da presidência da república.

Lembro como reflexão sobre o instante grave que o Brasil vive.

As palavras de Mariz soam, aos meus ouvidos, como uma espécie de antídoto à banalização de todas as coisas.

Sim! “O Brasil vive o momento trágico do afastamento de um presidente!”. Não importa se você é contra ou a favor.

Para mim, o fim do atual ciclo petista é o retrato do fracasso de um projeto da esquerda brasileira. E isso é melancólico.

Filho de comunista, cresci sob governos de exceção num ambiente em que se sonhava com ideias generosas. Mais tarde, a chegada de Lula ao poder era um acontecimento extraordinário. Com ele, vieram as conquistas sociais que testemunhamos, num país que já passou da hora de reequacionar a questão da distribuição de renda.

A constatação de que, nos piores quesitos, o PT acabou por se revelar igual ao demais, põe por terra os sonhos de muitos de nós que crescemos sob a ditadura iniciada no golpe de 64.

Volto ao senador Antônio Mariz: “O Brasil vive o momento trágico do afastamento de um presidente!”.

Tanto faz se você é contra ou a favor. Não há o que comemorar!