“Haiti”, de Caetano e Gil, tem quase 25 anos e continua atual!

A crise nos presídios brasileiros parece surpreender o governo?

É preciso que ocorram episódios como esses dos últimos dias para que o governo volte os olhos para o sistema penitenciário?

Documentos colocam mal o ministro da Justiça! Uma fala desastrada e inaceitável derruba o secretário da Juventude!

Ilhados em Brasília, os políticos não sabem o que todos nós sabemos?

Bem, a coluna é de cultura, e vou ilustrar com música.

Haiti é do início dos anos 1990. Abre o disco que Caetano Veloso e Gilberto Gil fizeram para marcar os 25 anos do Tropicalismo. Já já vamos comemorar os 50!

Haiti continua atual! Era melhor que fosse apenas evocativa de uma época! Mas, infelizmente, não é!

Roberto Carlos fez música para um exilado pela ditadura

Hoje (23) é dia de ver o especial de Roberto Carlos na Globo. Esse ano, o Rei canta com Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Por isso, conto essa história:

Um pouco antes do Tropicalismo, Maria Bethânia sugeriu a Caetano Veloso que prestasse atenção em Roberto Carlos e na Jovem Guarda. Ele conta, no livro de memórias Verdade Tropical, que “Bethânia, cujo não alinhamento com a Bossa Nova a deixava livre para aproximar-se de um repertório variado, me dizia explicitamente que seu interesse pelos programas de Roberto Carlos se devia à vitalidade que exalava deles, ao contrário do que se via no ambiente defensivo da MPB respeitável”. Caetano seguiu o conselho da irmã e incorporou a vitalidade que Bethânia enxergava em Roberto e na Jovem Guarda ao Tropicalismo, o movimento que, em 1968, lideraria ao lado de Gilberto Gil.

Sempre que voltamos aos tropicalistas, identificamos em Gil o interesse pela música nordestina, fruto, sobretudo, da temporada que passou no Recife pouco antes de se transformar num artista de dimensão nacional. O vínculo com Roberto Carlos e a Jovem Guarda deve ser atribuído a Caetano. É ele, afinal, que costuma mencionar a influência que o Rei exerceu no momento em que o Tropicalismo foi esboçado. Foi ele que mais assumiu uma postura de valorização do trabalho de Roberto Carlos, arriscadíssima no universo resguardado da esquerda pós-Bossa Nova. A gratidão de Roberto seria traduzida numa canção.

Preso (junto com Gil) em dezembro de 1968, depois confinado em Salvador e, finalmente, exilado na Inglaterra entre 1969 e 1972, Caetano Veloso, um dia, recebeu a visita de Roberto Carlos na sua casa em Londres. “Roberto veio com Nice, sua primeira mulher, e nós sentimos nele a presença simbólica do Brasil”, relata em Verdade Tropical. Caetano lembra que, “como um rei de fato, ele claramente falava e agia em nome do Brasil com mais autoridade (e propriedade) do que os milicos que nos tinham expulsado, do que a embaixada brasileira em Londres e muito mais do que os intelectuais, artistas e jornalistas que a princípio não nos entenderam e nos queriam agora mitificar: ele era o Brasil profundo”.

Durante a visita, Roberto Carlos levou Caetano às lágrimas quando, ao falar do seu novo disco (o LP que começa com As Flores do Jardim da Nossa Casa, lançado no Natal de 1969), pegou o violão e cantou As Curvas da Estrada de Santos, “dizendo, sem nenhuma insegurança, que iria nos agradar”. Caetano recorda que “essa canção extraordinária, cantada daquele jeito por Roberto, sozinho ao violão, na situação em que todos nós nos encontrávamos, foi algo avassalador para mim”. E diz que usou a barra do vestido preto de Nice para assoar o nariz e enxugar as lágrimas, enquanto, com ternura, o Rei o chamava de bobo. Roberto Carlos voltou para o Brasil pensando em Caetano e o homenageou com uma canção.

A música é Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos, lançada no final de 1971 no disco que tem Detalhes. Na época, pouca gente sabia que a canção havia sido composta para Caetano Veloso e falava do dia em que ele retornaria ao Brasil. A maioria achava que a letra era sobre uma mulher. A tristeza de um exilado que desejava voltar não fazia parte das conversas dos fãs do Rei. Do mesmo modo que a esquerda não atribuiria a Roberto Carlos a disposição de dedicar uma música a um artista que havia sido preso e mandado para fora do país. O seu distanciamento da MPB engajada parecia assegurar que ele não agiria assim.

“Uma história pra contar de um mundo tão distante” ou “você olha tudo e nada lhe faz ficar contente/você só deseja agora voltar pra sua gente”. Ou ainda: “você anda pela tarde e o seu olhar tristonho/deixa sangrar no peito uma saudade, um sonho”. Os versos soaram claros quando Caetano, aos 50 anos, revelou a origem da canção. No período mais duro do regime militar, Roberto fez música para um exilado e foi seu porta-voz ao gravar Como Dois e Dois. De um lado, o gesto solidário que vale por muitas canções engajadas. Do outro, o intérprete trazendo para o Brasil profundo o que Caetano sentia no exílio: “tudo vai mal, tudo/tudo é igual quando eu canto e sou mudo”.

Tom Zé, outsider do Tropicalismo, faz 80 anos

Tom Zé faz 80 anos nesta terça-feira (11).

tom-ze

Esse baiano de Irará é, portanto, seis anos mais velho do que Caetano Veloso e Gilberto Gil, seus companheiros de Tropicalismo.

Antes de Caetano e Gil, Tom Zé já era conhecido e festejado na Bahia da primeira metade da década de 1960. Mas não coube a ele trilhar o caminho do sucesso. Talvez pela natureza da sua música, talvez por traços da sua personalidade.

O fato é que Tom Zé correu por fora. Ficou à margem mesmo. A descoberta da sua música por David Byrne e os discos que Byrne fez dele para o mercado americano recolocaram o baiano no mercado, mas não o puseram no mainstream.

Aos 80 anos, Tom Zé tem seu público. É respeitado, reverenciado, reconhecido. Mas continua distante do sucesso popular. Vive em permanente transgressão. E assim permanece como uma das faces do Tropicalismo.

Salve Tom Zé!

Retratos de uma época, “Vai Passar” e “Podres Poderes” atravessam o tempo

“Vai Passar”, de Chico Buarque e Francis Hime, e “Podres Poderes”, de Caetano Veloso, foram lançadas na mesma semana, em dezembro de 1984.

O Brasil estava às vésperas, com a eleição de Tancredo Neves, de encerrar o ciclo de presidentes militares iniciado em 1964.

Quando ouvi as duas canções, perguntei ao professor Jomard Muniz de Britto o que ele achava delas.

A resposta de Jomard: “enquanto Chico diz que vai passar, Caetano já está nos podres poderes”.

O tempo passou.

Em 2012, ao entrevistar Caetano Veloso por ocasião dos seus 70 anos, mencionei o comentário de Jomard, seu amigo desde os tempos do Tropicalismo, e ouvi do artista a seguinte resposta:

– Não tinha a menor ideia de que “Vai Passar” fosse do mesmo período de “Podres Poderes”. Esta última parece dizer que “não vai passar”, ou, pelo menos, perguntar se dá para sair da “incompetência da América católica”. Mas acho sempre dificílimo comparar canções de Chico com as minhas. As dele são bem feitas, há uma paz, uma coerência, uma sabedoria que as minhas desconhecem.

“Vai Passar” tem o formato de um samba enredo. “Podres Poderes” é um rock. As duas estão na antologia do nosso cancioneiro popular.

Numa semana em que Chico Buarque esteve em evidência por causa da sua ida ao Senado para acompanhar a defesa de Dilma Rousseff, achei oportuno contar essa breve história.

Chico Pereira imortal. Outro tropicalista na Academia Paraibana de Letras

O artista plástico e escritor Chico Pereira toma posse nesta sexta-feira (12) na Academia Paraibana de Letras. É mais um tropicalista na APL. O primeiro foi o jornalista e compositor Carlos Aranha.

A  militância de Chico Pereira na cena cultural paraibana (entre Campina Grande e João Pessoa) vem de longe. Lá dos anos 1960. Nas artes plásticas, nos livros que escreveu, na sala de aula, nos bastidores da política. No debate permanente, na capacidade de dialogar.

Bom que ele tenha chegado à Academia Paraibana de Letras!

Caetano 50 anos

Na foto de Germana Bronzeado, Chico Pereira e eu conversando sobre o Tropicalismo nos 50 anos de Caetano Veloso.

 

A lembrança de uma conversa com Cazuza

Lembro aqui porque hoje faz 26 anos que ele morreu.

Estive com Cazuza quando ele cantou em João Pessoa no início de 1989. Fazia o show que a Globo registrou num especial e que foi lançado num disco ao vivo. Estava muito magro, todos sabiam que tinha uma doença grave, mas ainda não assumira que era portador do HIV.

Fui ao Hotel Tambaú entrevistá-lo para o programa “A Palavra É Sua” e assumi com a produção o compromisso de que restringiria a conversa aos temas musicais. É que a insistência de alguns jornalistas em abordá-lo sobre a doença dificultava sua relação com a imprensa.

A entrevista foi muito agradável. Cazuza estava na piscina e gravou comigo numa mesa próxima. Parceiros, rock’n’ roll, Bossa Nova, o êxito das suas canções, poesia e letra de música – estes foram os temas da conversa.

Ele falou da influência que recebera de Caetano Veloso, cujo interesse pelo passado da música popular lhe servira de parâmetro. A menção ao nome de Caetano me remeteu prontamente a algo que Gilberto Gil me dissera três anos antes: que se via, jovem, em Herbert Vianna, e que via o companheiro de Tropicalismo, igualmente jovem, em Cazuza.

Reproduzi o comentário de Gil, provocando uma alegria que Cazuza não disfarçou.

Poucos dias após a entrevista, de passagem por Nova York, Cazuza assumiu que era portador do HIV. Fez a revelação a um repórter da Folha. Sua agonia se estendeu até sete de julho de 1990.

 

Mal gravado, mas antológico

CAETANO E CHICO JUNTOS E AO VIVO

Caetano Veloso e Chico Buarque

Cae e Chico

De 1972. Miseravelmente mal gravado, incompleto, adulterado pela ação da censura, mas absolutamente antológico. O disco registra um encontro que parecia improvável cinco anos antes, na época em que muitos viam no jovem Chico Buarque o inverso do Caetano Veloso tropicalista.

O show foi no Teatro Castro Alves, em Salvador, no dia em que o poeta Torquato Neto, importante nome do Tropicalismo, se matou.

Chico canta Caetano (“Janelas Abertas No 2”), Caetano canta Chico (“Partido Alto”), os dois apresentam novidades (“Esse Cara”, “Bárbara”) e voltam ao começo (“Tropicalia”, “A Rita”).

No ponto alto do disco, fundem “Você Não Entende Nada” com “Cotidiano”. Deu tão certo que ninguém consegue mais separá-las.