Milton Nascimento, um mistério que não se desvenda por completo

milton-nascimento

Recife, março de 1979. Teatro do Parque lotado. Milton Nascimento entra sozinho no palco, vestido de branco, e, acompanhando-se ao violão, canta “Volver a los 17”, de Violeta Parra, que gravara com Mercedes Sosa.

Em seguida, os músicos vão ocupando seus lugares. Wagner Tiso no piano, Robertinho Silva na bateria, Novelli no baixo, Hélio Delmiro na guitarra. Mais Beto Guedes e Flávio Venturini.

O show: “Clube da Esquina 2”. Histórico, antológico, inesquecível. “Canoa, canoa desce/no leito do Rio Araguaia desce” – a voz de Milton ecoa no teatro com os falsetes que encantaram o mundo. Lembranças da primeira vez em que o vi de perto.

Milton Nascimento entrara na nossa casa pelas mãos do meu pai, em 1967. No festival que o revelou com “Travessia”. “Solto a voz nas estradas…” – a voz mágica que vinha de Minas. Como um mistério que nunca desvendaríamos por completo. O rapaz nascido no Rio, adotado por um casal de mineiros, louco pelo François Truffaut de “Jules et Jim”. E pelos mesmos Beatles que vi correndo na quadra em “A Hard Day’s Night”.

Meus melhores contatos com a música de Milton Nascimento são dos anos 1970, o período em que gravou seus discos mais importantes. Sete discos que o colocaram no topo da nossa música popular, entre 1970 e 1978.

Já estava tudo ali, naqueles trabalhos realizados ao lado dos músicos que formaram o Clube da Esquina. Gente que veio de Minas. Gente que foi se agrupando mais tarde no Rio. “Noite chegou outra vez/de novo na esquina os homens estão” – Milton e os irmãos Borges, seus parceiros. Milton e Brant – seu principal parceiro de jornada.

Primeiro, o disco com o Som Imaginário. “Para Lennon e McCartney”, “Canto Latino”, “Pai Grande”. “A Felicidade”, de Tom e Vinícius, evocando Agostinho dos Santos. Depois, “Clube da Esquina”. Brancos e pretos. Lô e Milton. “Tudo o que Você Podia Ser”, “O Trem Azul”, “Cais”, “Nada Será Como Antes”, “San Vicente”.

E aí vem “Milagre dos Peixes”. Em estúdio, com as letras censuradas e a voz de Clementina de Jesus. Ao vivo, no Teatro Municipal de São Paulo, regência de Paulo Moura. As cordas que remetem ao barroco mineiro antecedem as palavras que se repetem em “Bodas”. “E a muitos outros que a mão de Deus levou” – a dedicatória irônica na noite brasileira.

“Minas” e “Geraes” consolidam o artista extraordinário. “Fé Cega, Faca Amolada”, “Saudade dos Aviões da Panair”, “Ponta de Areia”. A voz metálica misturada ao coro infantil. “Mi” de Milton, “nas” de Nascimento. As sílabas iniciais formando “Minas”. Para abrir caminho a “Geraes”, o disco seguinte. “Voltar aos dezessete, depois de viver um século” – os versos de Violeta Parra gravados com Mercedes Sosa. Ou “quem cala sobre teu corpo/consente na tua morte”.

No próximo passo, os amigos juntos em “Clube da Esquina 2”. Elis, Chico, todos. Há muita beleza nos anos seguintes. Mas nem precisava. Bituca é o aniversariante desta quarta-feira (26).

Top 20 do samba, o grande poder transformador

Na semana passada, fiz, aqui, por sugestão do colega Rubens Nóbrega, um top 10 da canção brega, gênero com o qual não tenho intimidade.

Uma leitora sugeriu que eu fizesse o mesmo com o samba, que está entre os meus amores.

Tentei um top 10, mas o número se mostrou insuficiente. Fiquei com 20. Podia ter sido muito mais!

Segue a lista, que mistura títulos obrigatórios com escolhas pessoais:

Feitiço da Vila – Noel Rosa

Camisa Amarela – Ary Barroso

Brasil Pandeiro – Assis Valente

A Primeira Vez – Bide e Marçal

Samba da Minha Terra – Dorival Caymmi

A Voz do Morro – Zé Keti

Desafinado – Tom Jobim e Newton Mendonça

Você e Eu – Carlos Lyra e Vinícius de Moraes

Mas que Nada – Jorge Ben

O Sol Nascerá – Cartola

Juízo Final – Nelson Cavaquinho

Saudosa Maloca – Adoniran Barbosa

Canto de Ossanha – Baden Powell e Vinícius de Moaes

Na Cadência do Samba – Ataulfo Alves

Coisas do Mundo, Minha Nega – Paulinho da Viola

Aquele Abraço – Gilberto Gil

Construção – Chico Buarque

Águas de Março – Tom Jobim

O Bêbado e a Equilibrista – João Bosco e Aldir Blanc

Desde que o Samba É Samba – Caetano Veloso

Lista da Billboard tem Caetano no topo. Mas peca por excluir João Gilberto

Lista é um negócio atraente. Top 5 disso, top 10 daquilo. A gente discorda, reclama, mas, no fundo, gosta! De ver e de fazer!

abracaco

Muito bem! Essa semana saiu uma lista da Billboard Brasil. Caetano Veloso é o número 1 como o artista mais completo da nossa música popular. Ótima escolha. Ele é grande mesmo e ponto final!

Podia ser Gil (que aparece em segundo lugar), podia ser Chico, podia ser Tom. São todos grandes. Os gigantes da música popular do Brasil!

Os dez primeiros são Caetano Veloso, Gilberto Gil, Ney Matogrosso, Rita Lee, Elis Regina, Jorge Ben Jor, Chico Buarque, Tim Maia, Raul Seixas e Maria Bethânia.

A escolha foi feita por 12 pessoas, entre críticos e gente que trabalha diretamente com música. Foram considerados quesitos como voz, presença de palco, capacidade de reinvenção na carreira, carisma, quantidade de hits, versatilidade e relevância da obra.

Como qualquer lista, essa da Billboard tem sua subjetividade, seus erros, seus acertos, não agrada a todo mundo, etc.

Tem também o intuito de conciliar nomes de ontem com nomes de hoje. Em alguns casos, ainda nem há distanciamento suficiente para avaliar um artista e colocá-lo entre os melhores. Mas está tudo OK.

Só quero registrar um pecado da lista. Uma falta imperdoável. Ora, como é que entre 0s 50 artistas mais completos da música popular do Brasil não coube João Gilberto?

Não dá para entender! A exclusão do cara que inventou a batida da Bossa Nova macula a lista da Billboard!

Parceria de Roberto e Erasmo é um mistério a ser desvendado

Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, João Bosco e Aldir Blanc. Há muitas parcerias famosas na música popular brasileira. Roberto e Erasmo Carlos é uma delas. Pouco se sabe, no entanto, da intimidade do trabalho dos dois. Até onde eles compuseram juntos? Um é mais melodista do que o outro? Um é mais letrista? Um faz tudo sozinho e coloca o nome do outro? Um é mais roqueiro em oposição ao que é mais romântico? Quem faz o quê? As perguntas são inúmeras quando os parceiros não revelam os métodos de trabalho, muito menos fornecem a real autoria de cada canção.

O livro de memórias Minha Fama de Mau não é revelador, embora Erasmo dedique um capítulo ao parceiro. Lá estão algumas histórias já conhecidas. Sentado à Beira do Caminho foi feita a quatro mãos. Exaustos, os parceiros não conseguiam terminá-la. Roberto adormeceu. Quando acordou, disse duas frases que completaram a canção: preciso acabar logo com isso/preciso lembrar que eu existo. Outro exemplo: Erasmo fez uma melodia, Roberto escreveu uma letra em segredo para homenagear o parceiro. O resultado é Amigo. Na primeira audição, apanhado de surpresa, Erasmo não conteve as lágrimas.

Podemos especular ouvindo a discografia de Roberto e a de Erasmo. O primeiro arrisca menos. O segundo transgride mais. O primeiro é um baladeiro. O segundo, um roqueiro incorrigível. Em Roberto, tudo sugere que o intérprete supera o autor. Em Erasmo, o que temos é um autor que interpreta suas canções. Roberto está sempre perto dos limites que estabeleceu para seu trabalho. Erasmo sai deles e flerta mais livremente com a turma da chamada MPB. Chega a ser um homem do rock’n’ roll que faz sambas, como no antológico Coqueiro Verde. Ou em Cachaça Mecânica, nitidamente inspirado em Chico Buarque.

Os dois se completam nas diferenças? Pode ser que sim. Com John Lennon e Paul McCartney, a parceria funcionava deste modo. Seja como for, o fato é que Roberto e Erasmo Carlos assinaram dezenas de canções que os brasileiros guardam cuidadosamente na memória e as associam às suas vidas. Nelas, enxergam seus amores, suas famílias, suas alegrias e tristezas. Passa por esta identificação a força incomum de Roberto Carlos. E não há quem possa negar que Erasmo Esteves, o garoto pobre do subúrbio carioca apaixonado por Elvis Presley, desempenhou um papel relevante na construção deste mito.

Mônica Salmaso ao vivo é coisa de raríssima beleza

Salmaso palco

Faz tempo que Mônica Salmaso frequenta minhas audições. Desde aquele disco no qual relê os afro-sambas de Baden e Vinícius, acompanhada pelo violão de Paulo Bellinati. Negócio difícil, mas muito bem-sucedido: regravar uma obra-prima indiscutível do nosso cancioneiro.

Rever o repertório de Chico Buarque também não é tarefa fácil. E Mônica enfrentou em “Noites de Gala, Samba na Rua”. Em estúdio e ao vivo. Os originais, que quase sempre a gente tem como definitivos, ressurgiram com novos timbres, novas cores. E como ficaram bonitos!

Mônica Salmaso. Belíssima voz, grandes escolhas de repertório, arranjos impecáveis, músicos virtuoses a acompanhá-la. Discos imprescindíveis. Notáveis participações em CDs de colegas. Uma joia rara nesse universo de tantas cantoras que ouvimos no Brasil das últimas duas décadas.

Chegamos, então, a “Corpo de Baile”. Um coleção de 14 canções da parceria de Guinga com Paulo César Pinheiro.

Somente “Bolero de Satã” é mais popular por causa do dueto de Elis Regina com Cauby Peixoto no disco “Essa Mulher”, de 1979. As outras já gravadas são muito menos conhecidas. E há as inéditas (guardadas durante anos no baú de Paulo César Pinheiro), razão principal da existência desse projeto de Mônica Salmaso.

Ao disco, seguiu-se o show, visto nesta terça (06) e que volta a ser apresentado nesta quarta-feira (07) no Teatro Paulo Pontes, em João Pessoa.

No palco, ao lado de nove músicos, Mônica faz o repertório integral do disco. O show é primoroso, é excepcional. É perfeito! Os adjetivos serão todos insuficientes!

Uma valsa, uma modinha, uma marcha-rancho, um fado, um bolero, um tema nordestino. A tradição e a contemporaneidade. O popular e o erudito. Ou o popular tratado com felicíssima erudição. Um Brasil menos ouvido.

Algo que a gente viu em Villa-Lobos, ou em Tom, ou em Edu, ou em Hime. E vê em Guinga, autor de melodias refinadas, mestre nas harmonias do seu instrumento. Aliado aqui à poesia de Paulo César Pinheiro.

Disco guiado por um conceito. Na escolha dos arranjadores e na feitura dos arranjos. Na presença de músicos do nosso primeiríssimo time. Tudo transposto minuciosamente para o palco iluminado pelo vídeo cenário de Walter Carvalho, fotógrafo e cineasta que orgulha os paraibanos.

“Corpo de Baile” é um irretocável recital de feição camerística e tom onírico. A música é intensa. A luz, não. Ela é incomum. Talvez por causa da tela transparente que separa a cantora e seus músicos da plateia. Tela sobre a qual Walter Carvalho projeta sua “viagem”. Como se ele levasse para o teatro um pouco do seu cinema e nos dissesse que aquilo tudo, de tão bom, não parece ser real!

 

Arte de fotografar inspira canções. Às vezes, a música é uma fotografia

Mais uma homenagem ao Dia Mundial da Fotografia.

Agora, misturo a música com a arte de fotografar.

A primeira lembrança é de Desafinado, espécie de manifesto da Bossa Nova. Parceria de Tom Jobim com Newton Mendonça, imortalizada por João Gilberto. A famosa máquina alemã aparece no verso:

“Fotografei você na minha Rolleiflex, revelou-se a sua enorme ingratidão”

Quem imaginaria uma música com Rolleiflex na letra?

Paul Simon fez isso mais na frente em Kodachrome:

“Mamãe, não leve minha Kodachrome embora!”

Mas há também a música como fotografia. Música e letra, juntas, oferecendo ao ouvinte uma espécie de fotografia. O retrato de um instante. É esse o conceito. Como em Fotografia, de Tom Jobim:

“Eu, você, nós dois, aqui nesse terraço à beira-mar/o sol já vai caindo e o seu olhar/parece acompanhar a cor do mar”

Há muitas outras. Photograph (Ringo Starr), Retrato em Branco e Preto (Tom e Chico Buarque), Fotografia 3 x 4 (Belchior). Mas fico com essas duas, cada uma a sintetizar um caminho: a fotografia como inspiração (em Paul Simon) e a música como uma fotografia (em Tom Jobim).

Parabéns aos fotógrafos! 

 

 

 

 

 

“Garota de Ipanema” é mais procurada no Spotify depois da abertura da Olimpíada

Aumentou 1200% o número de pessoas que recorreram ao Spotify para ouvir “Garota de Ipanema” depois que a música de Tom Jobim & Vinícius de Moraes foi usada na abertura da Olimpíada, durante o desfile de Gisele Bundchen.

A música é uma das mais executadas no mundo e também uma das mais gravadas, com centenas de registros. A gravação que lhe deu dimensão internacional foi a de João Gilberto, Astrud Gilberto e o saxofonista de jazz Stan Getz. Está no disco “Getz/Gilberto”.

Quando cantada em inglês por algumas mulheres, tinha a letra alterada e virava “The Boy From Ipanema”, como nessa performance de Ella Fitzgerald.

Frank Sinatra e Tom Jobim cantaram “Garota de Ipanema” juntos, numa versão em inglês e português.

 

 

 

No quesito música, abertura da Olimpíada calou os que criticaram por antecipação

Nos dias que antecederam a abertura da Olimpíada, li muitas críticas à escalação dos artistas que participariam da cerimônia.

Uma delas chamou minha atenção. Dizia mais ou menos assim: Londres teve Paul McCartney, o Rio vai ter Anitta, Ludmilla e Wesley Safadão.

Escrevi a respeito. Disse que a geração de Paul McCartney estaria muito bem representada por Caetano Veloso, Gilberto Gil e Paulinho da Viola. E que o funk era uma manifestação legítima da cidade do Rio de Janeiro.

Passada a festa, volto ao tema.

A cerimônia calou os que criticaram por antecipação. Vou me ater ao quesito música.

A Copa do Mundo tem um país como sede. Os jogos olímpicos têm uma cidade. Nada mais natural, portanto, que o Rio mostrasse sua música ao mundo. E que música!

Do Gilberto Gil de Aquele Abraço ao Marcos Valle de Samba de Verão. Ou ao Chico Buarque de Construção.

Tom, o maestro soberano, foi lembrado pelo neto Daniel Jobim. Garota de Ipanema, voz e piano. Enquanto Gisele Bundchen desfilava evocando a Helô que inspirou Tom & Vinícius.

Mestres do samba em cena. Paulinho da Viola cantando o Hino Nacional. Jorge Ben, que modernizou o gênero, trouxe a extraordinária força rítmica de País Tropical. Zeca Pagodinho veio como uma voz mais contemporânea. E Wilson das Neves chamou as entidades.

Elza Soares, que é de ontem e de hoje, releu o Canto de Ossanha, de Baden & Vinícius. “O homem que diz dou, não dá”. Um afro-samba com a pegada do pop atual do Rio de Janeiro.

No final, a apoteose. Ary Barroso, o mineiro que melhor cantou o Rio, nas vozes tropicalistas de Caetano e Gil. Com Anitta cantando e dançando entre os dois. Por que não?

Sim. Londres teve Paul McCartney. O Rio teve a grande música popular ali produzida. Por mestres cariocas ou não cariocas que adotaram a cidade para viver.

Ao mostrar a nossa força e as nossas belezas, a cerimônia de abertura da Olimpíada acaba falando do Brasil que não deu certo.

A vaia a Temer não é diferente da vaia a Dilma na Copa do Mundo. Os dois, mesmo que em lados opostos, estão vinculados a um modelo que precisa ser superado.

Só assim, teremos, de fato, uma promessa de vida em nossos corações! 

 

 

 

João Bosco faz 70 anos como um dos grandes da música brasileira

“Responderei não!”. Bradava João Bosco no final de “Agnus Sei”, tal como o ouvimos pela primeira vez, 42 anos atrás.

O cantor/compositor/violonista, mineiro que foi para o Rio, entrava em cena num compacto simples de bolso do Pasquim (no outro lado, Tom Jobim e sua novíssima “Águas de Março”). Voz e violão num registro que impressionava, que provocava impacto: pelo canto, pela melodia, pelo domínio do instrumento, pelos versos do parceiro, Aldir Blanc.

Quase quatro décadas e meia se foram, e agora Bosco chega aos 70 anos (nesta quarta, 13) como um dos grandes nomes da música popular do Brasil. Domingo passado, cantou na Brazilian Night do Festival de Jazz de Montreux.

O melhor de João Bosco, para mim, é o que ele produziu ao lado de Aldir Blanc. Seus discos da década de 1970 são primorosos. Naquela época, como Ivan Lins e Vítor Martins e também como Gonzaguinha, Bosco e Blanc eram vozes engajadas nas lutas da sociedade civil contra a ditadura.

O engajamento às vezes limita o artista, o associa de tal modo a um momento histórico que sua produção logo se torna datada. João Bosco e Aldir Blanc correram este risco, mas a musicalidade do primeiro e o talento poético do segundo permitiram que as músicas que compuseram resistissem ao tempo. E, após a redemocratização, funcionassem como evocação daquelas lutas.

Bosco e Blanc tiveram uma intérprete extraordinária. Algumas das suas canções ganharam registros definitivos na voz de Elis Regina. Do samba “Bala com Bala” ao bolero “Dois Pra Lá, Dois Pra Cá”. Da crônica amarga de Blanc em “Bodas de Prata” ao hino da anistia, “O Bêbado e a Equilibrista”.

A técnica e a emoção de Elis foram colocadas a serviço da produção da dupla ao longo da década de 1970. Ela os gravou várias vezes nos grandes discos que fez sob a batuta de César Camargo Mariano a partir de 1972, justamente o ano em que Bosco apareceu no disquinho do Pasquim com “Agnus Sei”.

Nos 70 anos de João Bosco, volto a “Agnus Sei” num registro de quatro anos atrás (está no disco “40 Anos Depois”). A música ganha como adornos os falsetes de Milton Nascimento.

O “responderei não!” de agora soa mais brando. Curioso: serve como comentário sobre o presente. “Os heróis do bem prosseguem na brisa da manhã”. Será?

O verso de Blanc, retido na memória, continua belo. Como as melodias de Bosco.

Chico Buarque, discos e canções

Em 1968, aos 24 anos, Chico Buarque gravou uma música chamada “O Velho”. “O que é que tem de novo pra deixar/nada/só a caminhada longa/pra nenhum lugar”. Ou: “eu vejo a triste estrada/onde um dia eu vou parar”. Um jovem escrevendo sobre a velhice. Versos belos e surpreendentes que nos ocorrem agora.  Junto a lembrança a uma outra do jovem Chico: a quantidade de grandes músicas que ele gravou entre os 22 e os 24 anos, em apenas três discos. Naquela época, era muito comum o disco ter o nome do artista. “Chico Buarque de Hollanda volume 1” (1966), “Chico Buarque de Hollanda volume 2” (1967) e “Chico Buarque de Hollanda volume 3” (1968). Os três, lançados pela RGE em plena era dos festivais, a partir do sucesso que alcançou ao vencer um deles com “A Banda”.

Vale a pena enumerar, recorrendo exclusivamente ao que está arquivado na memória afetiva, sem qualquer consulta: “A Banda”, “Tem Mais Samba”, “A Rita”, “Madalena Foi pro Mar”, “Pedro Pedreiro”, “Olê, Olá”, “Meu Refrão”, “Sonho de um Carnaval”, “Noite dos Mascarados”, “Com Açucar, com Afeto”, “Quem te Viu, Quem te Vê”, “Morena dos Olhos D’Água”, “Ela Desatinou”, “Retrato em Branco e Preto”, “Januária”, “Carolina”, “Roda Viva”, “Até Pensei”, “Sem Fantasia”, “Até Segunda-Feira”, “Funeral de um Lavrador”. Somemos a estas “Sabiá”, que é de 1968, mas não está no disco daquele ano. São 22 músicas. Todas gravadas entre os 22 e os 24 anos. Se Chico Buarque tivesse se aposentado em 1968, seu legado seria um songbook extraordinário. À altura dos maiores clássicos do nosso cancioneiro popular.

Se estendermos a lista até 1970, quando troca a RGE pela Philips e grava o último disco usando o “Hollanda” no nome artístico (“Chico Buarque de Hollanda volume 4”), acrescentaremos, então, “Essa Moça Tá Diferente”, “Agora Falando Sério”, “Gente Humilde”, “Rosa dos Ventos”, “Samba e Amor”, “Pois É”. E, claro, há o single de 1969, ainda pela RGE, com “Umas e Outras”. Entre 1966 e 1970, dos 22 aos 26 anos, em quatro discos, 29 músicas absolutamente antológicas. Um gigante este artista.

Em 1971, passa a assinar apenas “Chico Buarque”. O bigode na capa do disco tira um pouco o ar de bom moço. Os sons o aproximam da linha evolutiva proposta pelos tropicalistas. Ao seu modo. Sobretudo na faixa “Construção”, arranjada pelo mesmo Duprat dos discos de Caetano, Gil, Gal e Mutantes. “Construção” é uma obra-prima. Um samba lento que vai crescendo até o desfecho. Os versos finalizados sempre com proparoxítonas que, na segunda e na última parte, são trocadas de lugar, gerando imagens absurdas, delirantes, inacreditáveis. O disco “Construção” pode ser o melhor de Chico. “Deus lhe Pague”, “Cotidiano”, “Desalento”, “Cordão”, “Olha Maria”, “Samba de Orly”, “Valsinha”, “Minha História”. Parece uma coletânea.

Os anos 1970 foram os mais produtivos. Apesar da censura. “Construção” (1971), “Quando o Carnaval Chegar” (1972), “Calabar” (1973), “Sinal Fechado” (1974), “Meus Caros Amigos” (1976), “Chico Buarque” (1978), “Ópera do Malandro” (1979), “Vida” (1980). Mais dois discos ao vivo. Um com Caetano Veloso, outro com Maria Bethânia.

Os anos 1980 não são tão produtivos. O artista compõe e grava menos. Trabalha muito com Edu Lobo, o novo parceiro. Fica mais sofisticado. As canções continuam belas. “O Grande Circo Místico” é uma estupenda coleção de canções. Anos 1990 e além. Um livro, um disco, uma turnê. Nesta ordem. A morte da canção? Tese dele.

Na maturidade e no limiar da velhice, Chico faz discos refinadíssimos, de assimilação mais lenta. E não compõe tantos clássicos instantâneos, como os da juventude. Mas seu último disco, de 2011, tem ao menos um: “Sinhá”, parceria com João Bosco.

Chico Buarque é um compositor popular clássico. Não é de ruptura, como seu contemporâneo Caetano. É difícil comparar as canções dos dois. “As dele são bem feitas, há uma paz, uma coerência, uma sabedoria que as minhas desconhecem”, me disse Caetano Veloso. Esteticamente, Caetano é de esquerda, Chico é de centro, como classificou Gilberto Gil, muitos anos atrás.

A lista de dez canções que os críticos fazem é injusta com Chico. É uma impossibilidade. Não há dez. Há dezenas. Os sambas perfeitos de quem ouviu Noel, mas sentiu o impacto da reinvenção do gênero promovida por João Gilberto. E tem as incursões por outros gêneros, outros ritmos. Toada, baião, frevo, marcha, valsa, blues, rock. E tem o letrista de qualidade excepcional, como os melhores do mundo. E o trabalho com grandes parceiros. Tom, Vinícius, Francis, Edu, Milton, Caetano, Gil, Ruy. E o teatro, a literatura, o engajamento na luta contra a ditadura.

“Eu vejo a estrada/onde um dia eu vou parar”. Chico se aproxima do homem velho da canção escrita na juventude? A obra por certo desmente o verso que diz que não há nada para deixar. “Além da caminhada longa/pra nenhum lugar”.