Chico Buarque também fez rock! Vamos (ver) ouvir?

No post anterior, falei do Frevo de Orfeu, de Tom Jobim. Quis falar porque muita gente não conhece.

O frevo de Tom me remeteu ao rock de Chico Buarque. Esse, muita gente conhece. Mas lembrei que, em 1972, ao compor Baioque, uma mistura de baião com rock (como explica o título), Chico produziu algo inusitado porque estava atuando numa área que não era a sua.

A música entrou no (delicioso) filme Quando o Carnaval Chegar, de Cacá Diegues.

O registro que escolhi é do próprio Chico no evento Phono 73. O MPB4 acompanha o autor, que cai no rock!

Reparem que ele, perfeccionista com o uso das palavras, rima “sol” com “roll”,  com o “ól” aberto!

Vale a pena ver (ou rever)!

Tom Jobim também fez frevo! Vamos ouvir?

Nesta quarta-feira (25), se estivesse vivo, Antônio Carlos Jobim, o maior compositor popular do Brasil, faria 90 anos.

Merece todas as lembranças. Falarei dele algumas vezes aqui na coluna.

Vou começar por algo que muita gente talvez não saiba: Tom Jobim também compôs frevo. Sim! O Frevo de Orfeu. Orfeu da Conceição, o musical, marcou, em 1956, o início da parceria de Tom com Vinícius de Moraes.

Vamos ouvir o Frevo de Orfeu cantado por Chico Buarque, com orquestra regida por Jacques Morelenbaum, num tributo a Jobim em Copacabana.

Gal Costa, mais cool, também gravou o Frevo de Tom.

Carminho, uma fadista moderna, encontra Tom Jobim

Se estivesse vivo, Antônio Carlos Jobim faria 90 anos no dia 25 de janeiro. Um CD que acaba de ser lançado pode dar início à comemoração.

É Carminho Canta Tom Jobim (Biscoito Fino). O disco promove o encontro da jovem fadista portuguesa com remanescentes da Banda Nova, o grupo que acompanhou Tom nos muitos shows dos últimos anos de sua vida.

Três integrantes da Banda Nova acompanham Carminho: Paulo Jobim (violão e direção musical), Jaques Morelenbaum (violoncelo e contrabaixo) e Paulo Braga (bateria). A eles, juntou-se Daniel Jobim, filho de Paulo, neto de Tom, ao piano.

Os arranjos e a banda remetem à sonoridade dos discos e shows do compositor. Poderíamos traduzir assim: é Jobim pelos Jobins. Completo respeito, absoluta fidelidade ao universo musical de Tom. Um pouco mais intimista, um pouco mais camerístico, até porque o grupo é numericamente muito pequeno.

Aí vem o dado novo: Antônio Carlos Jobim, nosso maestro soberano, que já teve suas canções gravadas por gente do mundo inteiro, agora está nas mãos de uma fadista.

Carminho é uma jovem cantora portuguesa de 32 anos. Mais ou menos, a idade da Banda Nova.  Uma fadista moderna que traz para o grande cancioneiro jobiniano as marcas da música mais tradicional e mais representativa de Portugal.

Em 14 faixas, há duetos com Chico Buarque (Falando de Amor), Maria Bethânia (Modinha) e Marisa Monte (Estrada do Sol). O repertório tem Tom e seus parceiros (Vinícius, Chico, Dolores Duran, Aloysio de Oliveira, Newton Mendonça) e Tom sozinho, fazendo música e letra. Tem o começo (A Felicidade, Estrada do Sol), o meio (Wave, Triste) e a fase final (Luíza).

Antes de ouvir o disco, qualquer pessoa que tem intimidade com a obra de Jobim perguntará: as canções combinam com uma intérprete de fado?

A resposta vem logo na primeira audição: no caso de Carminho, combinam, sim!

Há um equilíbrio perfeito entre a força dramática da intérprete e a execução cool da banda.

Carminho é uma cantora notável que dialoga há algum tempo com a música brasileira, e, nesse disco, o repertório de Jobim só vem ampliar e enriquecer esse diálogo.

Jobim, Caymmi, Drummond, Leila. Todos por Evandro Teixeira

Não resisto! Volto, mais uma vez, às fotos de Evandro Teixeira.

Como já disse, o mestre do fotojornalismo está em João Pessoa.

Depois da política e do esporte, a arte!

Antônio Carlos Jobim.

Caymmi e o mar.

O poeta fotografado com poesia.

Leila Diniz.

Salve, Evandro Teixeira!

Antônio Carlos Jobim, um top 10 do maestro soberano

Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim. Se estivesse vivo, o maestro soberano faria 90 anos em 25 de janeiro de 2017. Nesta quinta-feira (08), faz 22 anos que ele morreu.

Tom Jobim é o maior compositor popular do Brasil. Suas canções permanecem novas. Parece que foram compostas hoje.

Fiz um top 10 dos seus discos. Vamos reouvi-los?

The Composer of Desafinado Plays. O primeiro disco. Gravado nos Estados Unidos. Só tem clássicos. Parece uma compilação.

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The Wonderful World of Antônio Carlos Jobim. As músicas de Tom sob a batuta do grande Nelson Riddle, o maestro de Frank Sinatra.  the-wonderful-world

Francis Albert Sinatra & Antônio Carlos Jobim. Sinatra e Jobim juntos. The Voice se rende à Bossa Nova.

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Stone Flower. Com Wave Tide, faz parte de uma trilogia de discos dedicados aos temas instrumentais.

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Matita Perê. De Águas de Março à suíte Crônica da Casa Assassinada. Meio popular, meio erudito. A capa é da edição americana.

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Elis & Tom. Um encontro histórico. Gravações tensas que resultaram num dos grandes discos da nossa música popular.

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Urubu. Um lado de canções. Um lado de temas instrumentais para grande orquestra. Do Tom ecológico às saudades do Brasil.

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Terra Brasilis. Um disco absolutamente primoroso de clássicos revisitados.

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Passaram. Tom e a Banda Nova, família e amigos no estúdio e no palco. A última fase do compositor.

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Antônio Brasileiro. A despedida do maestro soberano. Um inventário lançado semanas antes da sua morte.

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“Elis” estreia nos cinemas. Vamos reouvir os discos de Elis?

A estreia nacional de Elis será nesta quinta-feira (24). O filme conta a história de Elis Regina, a maior cantora do Brasil, interpretada pela atriz Andréia Horta (em foto de divulgação).

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Que tal reouvir os discos de Elis antes de ver o filme? Selecionei dez. É uma escolha pessoal.

SAMBA, EU CANTO ASSIM

Elis Regina tinha 20 anos quando venceu o festival de MPB com “Arrastão”. O disco, de 1965, marca sua estreia na Philips. Revela uma jovem, porém já grande cantora. Tem “Reza” e “Menino das Laranjas”.

2 NA BOSSA

Da televisão para o disco. Gravado ao vivo, em 1965, traz para o vinil o sucesso da dupla Elis Regina e Jair Rodrigues na tela da TV Record. Mal gravado, mas até hoje irresistível. Começa com um medley que se tornou antológico.

ELA

De 1971. Elis como seria nos anos 1970, diferente daquela da década de 1960. Mais moderna, aqui produzida por Nelson Motta. O grande sucesso foi o samba “Madalena”, de um jovem compositor chamado Ivan Lins.

ELIS

De 1972. Elis já produzida e arranjada pelo pianista César Camargo Mariano, seu segundo marido. Repertório impecável de grandes autores e (hoje) clássicos do nosso cancioneiro. Tem o primeiro registro de Elis para “Águas de Março”.

ELIS

De 1974. Elis e César Camargo Mariano em mais uma das suas parcerias. Um “casamento” musical que redirecionou a carreira dela e redefiniu a sonoridade do seu trabalho. A cantora brilha interpretando Milton Nascimento.

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ELIS & TOM

De 1974. Gravado nos Estados Unidos, traz o encontro de Elis com Antônio Carlos Jobim. As sessões tensas de gravação se transformaram num disco extraordinário. O dueto de Tom e Elis em “Águas de Março” é soberbo.

FALSO BRILHANTE

De 1976. Sucesso no palco, sucesso no disco. Elis no auge da sua potência vocal e da sua força interpretativa. Tem grandes canções de João Bosco e Aldir Blanc e revela em dois números excepcionais o jovem Belchior.

TRANSVERSAL DO TEMPO

De 1978. Registro incompleto e tecnicamente precário de um grande show de Elis. Mesmo assim, indispensável. O Brasil convulsionado dos anos 1970, a cantora no auge do engajamento. Performances arrebatadoras.

ELIS, ESSA MULHER

De 1979. Elis de casa nova, a Warner. Baden, Bosco, Cartola, Joyce – tudo beira a perfeição nos seus registros. Tem um impressionante dueto com Cauby Peixoto. E o samba “O Bêbado e a Equilibrista”, hino da anistia.

SAUDADE DO BRASIL

De 1980. Penúltimo disco de Elis. Álbum duplo que registra em estúdio o roteiro do show homônimo. Depois que o tempo passou, pode ser ouvido como um inventário da maior cantora do Brasil. Tem “Canção da América”.

Os políticos acabaram com o Rio de Janeiro de tantas canções!

Acredito que poucas cidades do mundo foram exaltadas em tantas canções quanto o Rio de Janeiro.

Do hino Cidade Maravilhosa ao samba Aquele Abraço. Da Valsa de uma Cidade ao Samba do Avião.

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Tom Jobim e Billy Blanco fizeram uma sinfonia para o Rio de Janeiro. Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, o Samba do Carioca. Braguinha, Copacabana. Caymmi, Sábado em Copacabana.

A lista não tem fim.

Penso nessas canções e em tantas mais agora que o Rio, por causa dos seus políticos, está mergulhado numa crise sem precedentes.

Também lembrei de outras que pareciam nos alertar sobre o futuro.

Nossa famosa garota não sabia a que ponto a cidade turvaria/esse Rio de Amor que se perdeu – cantou Vinícius na Carta ao Tom, que já tem mais de 40 anos.

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Flutua no ar um desprezo, desconsiderando a razão/que o homem não sabe se vai encontrar/um jeito de dar um jeito na situação – é Paulinho da Viola em Amor à Natureza. Também tem mais de 40 anos.

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São Sebastião crivado/nublai minha visão/na noite da grande fogueira desvairada – é Chico Buarque em Estação Derradeira. Há quase 30 anos.

Chico Buarque Doc 3

E tem aquela oração que Gil e Milton gravaram no ano 2000:

Sebastian

Sebastião

Diante de tua imagem, tão castigada e tão bela

Penso na tua cidade

Peço que olhes por ela!

Box “Convite Para Ouvir Maysa” traz voz acima do bem e do mal

Sabem Ne Me Quitte Pas? É uma das mais belas canções do mundo. Foi gravada pelo autor, o belga Jacques Brel, por Nina Simone e Ray Charles. Tem dezenas de registros em vários idiomas.

Conhecem a gravação de Maysa? Quem conhece, sabe muito bem: é prova inconteste de que a cantora brasileira é uma intérprete extraordinária, que seria reconhecida como grande cantora em qualquer lugar do mundo.

Maysa teria feito 80 anos agora em 2016. Quando morreu, num acidente de carro, tinha 40.

Em homenagem aos seus 80 anos, um box de quatro CDs, com a série completa “Convite Para Ouvir Maysa”, acaba de ser lançado pela Som Livre.

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Os olhos? A boca? Os cabelos? Quem é essa mulher? Alguém segue esse caminho para tentar explicá-la num dos encartes.

Sim! Os olhos! A boca! Os cabelos! Certamente! Mas, sobretudo, a voz!

A voz e o que ela traduz: as tristezas, a angústia, os desamores.

Não quero estabelecer comparações. Essa é mais, essa é menos. Não. Mas Maysa é de uma linhagem à qual pertencem Billie Holiday, Edith Piaf, Janis Joplin, Elis Regina, Amy Winehouse. Cada uma no seu lugar,  no seu tempo e com seus talentos específicos.

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Os quatro discos da série “Convite Para Ouvir Maysa” foram gravados entre 1956 e 1959. Flagram o início da carreira de Maysa. Têm músicas dela, canções de Tom Jobim que depois se tornariam verdadeiros clássicos do nosso cancioneiro e o repertório romântico, de fossa, do Brasil pré Bossa Nova.

Os arranjos envelheceram. Claro. Algumas canções, também. Outras cresceram na medida em que atravessaram o tempo. Mas o conjunto é muito bom. Traz a jovem Maysa (entre os 20 e os 23 anos), dividida entre o casamento e a carreira, cantando feito gente grande!

Sua carreira, a rigor, não deu certo. Sua vida não deu certo. Maysa foi consumida pela solidão e pelo álcool. Quando morreu, tinha uma trajetória de duas décadas e estava em declínio.

Uma pena! Mas a reaudição desse box confirma o que sabemos há muito tempo: que seu canto está acima do bem e do mal!

Paródia de “Águas de Março” desrespeita memória de Jobim!

Águas de Março é o samba mais lindo do mundo!

Creio que quem disse foi Chico Buarque.

Waters of March é uma das grandes canções do século XX!

Quem disse foi o crítico de jazz Leonard Feather.

Letra e música de Antônio Carlos Jobim, Águas de Março é uma das maiores canções de Tom e um momento singularíssimo do vasto cancioneiro do Brasil.

Vejam e ouçam, então, essa paródia de Águas de Março que encontrei no Youtube.

Essa paródia é um absoluto desrespeito não só a uma joia do nosso cancioneiro, mas, sobretudo, à memória de Tom, nosso maior compositor popular.

Para enxergar o que há de simplório e pouco inteligente na paródia não é preciso ser Trump, nem Temer, nem Crivella. Muito menos Bolsonaro, abominável defensor do estupro e da tortura.

Há um verso imperdoável nesse atentado a Águas de Março: “Bolsonaro a caminho”.

O Brasil está num impasse, estamos a dois anos da eleição presidencial e, francamente, devemos acreditar que encontraremos uma saída que não seja essa. Nenhuma saída (nem as piores) pode ser tão indesejável quanto Bolsonaro.

Nenhuma desilusão com o jogo político deve levar à crença de que uma onda conservadora conduzirá o Brasil ao extremo que Bolsonaro representa.

Paródia com esse tipo de verso serve, no fundo, a quem?

Não tem a menor graça!

Aproveitando o que está na letra: isso, sim, é que é o fim da poesia!!