Jobim, Caymmi, Drummond, Leila. Todos por Evandro Teixeira

Não resisto! Volto, mais uma vez, às fotos de Evandro Teixeira.

Como já disse, o mestre do fotojornalismo está em João Pessoa.

Depois da política e do esporte, a arte!

Antônio Carlos Jobim.

Caymmi e o mar.

O poeta fotografado com poesia.

Leila Diniz.

Salve, Evandro Teixeira!

Antônio Carlos Jobim, um top 10 do maestro soberano

Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim. Se estivesse vivo, o maestro soberano faria 90 anos em 25 de janeiro de 2017. Nesta quinta-feira (08), faz 22 anos que ele morreu.

Tom Jobim é o maior compositor popular do Brasil. Suas canções permanecem novas. Parece que foram compostas hoje.

Fiz um top 10 dos seus discos. Vamos reouvi-los?

The Composer of Desafinado Plays. O primeiro disco. Gravado nos Estados Unidos. Só tem clássicos. Parece uma compilação.

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The Wonderful World of Antônio Carlos Jobim. As músicas de Tom sob a batuta do grande Nelson Riddle, o maestro de Frank Sinatra.  the-wonderful-world

Francis Albert Sinatra & Antônio Carlos Jobim. Sinatra e Jobim juntos. The Voice se rende à Bossa Nova.

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Stone Flower. Com Wave Tide, faz parte de uma trilogia de discos dedicados aos temas instrumentais.

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Matita Perê. De Águas de Março à suíte Crônica da Casa Assassinada. Meio popular, meio erudito. A capa é da edição americana.

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Elis & Tom. Um encontro histórico. Gravações tensas que resultaram num dos grandes discos da nossa música popular.

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Urubu. Um lado de canções. Um lado de temas instrumentais para grande orquestra. Do Tom ecológico às saudades do Brasil.

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Terra Brasilis. Um disco absolutamente primoroso de clássicos revisitados.

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Passaram. Tom e a Banda Nova, família e amigos no estúdio e no palco. A última fase do compositor.

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Antônio Brasileiro. A despedida do maestro soberano. Um inventário lançado semanas antes da sua morte.

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“Elis” estreia nos cinemas. Vamos reouvir os discos de Elis?

A estreia nacional de Elis será nesta quinta-feira (24). O filme conta a história de Elis Regina, a maior cantora do Brasil, interpretada pela atriz Andréia Horta (em foto de divulgação).

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Que tal reouvir os discos de Elis antes de ver o filme? Selecionei dez. É uma escolha pessoal.

SAMBA, EU CANTO ASSIM

Elis Regina tinha 20 anos quando venceu o festival de MPB com “Arrastão”. O disco, de 1965, marca sua estreia na Philips. Revela uma jovem, porém já grande cantora. Tem “Reza” e “Menino das Laranjas”.

2 NA BOSSA

Da televisão para o disco. Gravado ao vivo, em 1965, traz para o vinil o sucesso da dupla Elis Regina e Jair Rodrigues na tela da TV Record. Mal gravado, mas até hoje irresistível. Começa com um medley que se tornou antológico.

ELA

De 1971. Elis como seria nos anos 1970, diferente daquela da década de 1960. Mais moderna, aqui produzida por Nelson Motta. O grande sucesso foi o samba “Madalena”, de um jovem compositor chamado Ivan Lins.

ELIS

De 1972. Elis já produzida e arranjada pelo pianista César Camargo Mariano, seu segundo marido. Repertório impecável de grandes autores e (hoje) clássicos do nosso cancioneiro. Tem o primeiro registro de Elis para “Águas de Março”.

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De 1974. Elis e César Camargo Mariano em mais uma das suas parcerias. Um “casamento” musical que redirecionou a carreira dela e redefiniu a sonoridade do seu trabalho. A cantora brilha interpretando Milton Nascimento.

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ELIS & TOM

De 1974. Gravado nos Estados Unidos, traz o encontro de Elis com Antônio Carlos Jobim. As sessões tensas de gravação se transformaram num disco extraordinário. O dueto de Tom e Elis em “Águas de Março” é soberbo.

FALSO BRILHANTE

De 1976. Sucesso no palco, sucesso no disco. Elis no auge da sua potência vocal e da sua força interpretativa. Tem grandes canções de João Bosco e Aldir Blanc e revela em dois números excepcionais o jovem Belchior.

TRANSVERSAL DO TEMPO

De 1978. Registro incompleto e tecnicamente precário de um grande show de Elis. Mesmo assim, indispensável. O Brasil convulsionado dos anos 1970, a cantora no auge do engajamento. Performances arrebatadoras.

ELIS, ESSA MULHER

De 1979. Elis de casa nova, a Warner. Baden, Bosco, Cartola, Joyce – tudo beira a perfeição nos seus registros. Tem um impressionante dueto com Cauby Peixoto. E o samba “O Bêbado e a Equilibrista”, hino da anistia.

SAUDADE DO BRASIL

De 1980. Penúltimo disco de Elis. Álbum duplo que registra em estúdio o roteiro do show homônimo. Depois que o tempo passou, pode ser ouvido como um inventário da maior cantora do Brasil. Tem “Canção da América”.

Os políticos acabaram com o Rio de Janeiro de tantas canções!

Acredito que poucas cidades do mundo foram exaltadas em tantas canções quanto o Rio de Janeiro.

Do hino Cidade Maravilhosa ao samba Aquele Abraço. Da Valsa de uma Cidade ao Samba do Avião.

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Tom Jobim e Billy Blanco fizeram uma sinfonia para o Rio de Janeiro. Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, o Samba do Carioca. Braguinha, Copacabana. Caymmi, Sábado em Copacabana.

A lista não tem fim.

Penso nessas canções e em tantas mais agora que o Rio, por causa dos seus políticos, está mergulhado numa crise sem precedentes.

Também lembrei de outras que pareciam nos alertar sobre o futuro.

Nossa famosa garota não sabia a que ponto a cidade turvaria/esse Rio de Amor que se perdeu – cantou Vinícius na Carta ao Tom, que já tem mais de 40 anos.

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Flutua no ar um desprezo, desconsiderando a razão/que o homem não sabe se vai encontrar/um jeito de dar um jeito na situação – é Paulinho da Viola em Amor à Natureza. Também tem mais de 40 anos.

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São Sebastião crivado/nublai minha visão/na noite da grande fogueira desvairada – é Chico Buarque em Estação Derradeira. Há quase 30 anos.

Chico Buarque Doc 3

E tem aquela oração que Gil e Milton gravaram no ano 2000:

Sebastian

Sebastião

Diante de tua imagem, tão castigada e tão bela

Penso na tua cidade

Peço que olhes por ela!

Box “Convite Para Ouvir Maysa” traz voz acima do bem e do mal

Sabem Ne Me Quitte Pas? É uma das mais belas canções do mundo. Foi gravada pelo autor, o belga Jacques Brel, por Nina Simone e Ray Charles. Tem dezenas de registros em vários idiomas.

Conhecem a gravação de Maysa? Quem conhece, sabe muito bem: é prova inconteste de que a cantora brasileira é uma intérprete extraordinária, que seria reconhecida como grande cantora em qualquer lugar do mundo.

Maysa teria feito 80 anos agora em 2016. Quando morreu, num acidente de carro, tinha 40.

Em homenagem aos seus 80 anos, um box de quatro CDs, com a série completa “Convite Para Ouvir Maysa”, acaba de ser lançado pela Som Livre.

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Os olhos? A boca? Os cabelos? Quem é essa mulher? Alguém segue esse caminho para tentar explicá-la num dos encartes.

Sim! Os olhos! A boca! Os cabelos! Certamente! Mas, sobretudo, a voz!

A voz e o que ela traduz: as tristezas, a angústia, os desamores.

Não quero estabelecer comparações. Essa é mais, essa é menos. Não. Mas Maysa é de uma linhagem à qual pertencem Billie Holiday, Edith Piaf, Janis Joplin, Elis Regina, Amy Winehouse. Cada uma no seu lugar,  no seu tempo e com seus talentos específicos.

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Os quatro discos da série “Convite Para Ouvir Maysa” foram gravados entre 1956 e 1959. Flagram o início da carreira de Maysa. Têm músicas dela, canções de Tom Jobim que depois se tornariam verdadeiros clássicos do nosso cancioneiro e o repertório romântico, de fossa, do Brasil pré Bossa Nova.

Os arranjos envelheceram. Claro. Algumas canções, também. Outras cresceram na medida em que atravessaram o tempo. Mas o conjunto é muito bom. Traz a jovem Maysa (entre os 20 e os 23 anos), dividida entre o casamento e a carreira, cantando feito gente grande!

Sua carreira, a rigor, não deu certo. Sua vida não deu certo. Maysa foi consumida pela solidão e pelo álcool. Quando morreu, tinha uma trajetória de duas décadas e estava em declínio.

Uma pena! Mas a reaudição desse box confirma o que sabemos há muito tempo: que seu canto está acima do bem e do mal!

Paródia de “Águas de Março” desrespeita memória de Jobim!

Águas de Março é o samba mais lindo do mundo!

Creio que quem disse foi Chico Buarque.

Waters of March é uma das grandes canções do século XX!

Quem disse foi o crítico de jazz Leonard Feather.

Letra e música de Antônio Carlos Jobim, Águas de Março é uma das maiores canções de Tom e um momento singularíssimo do vasto cancioneiro do Brasil.

Vejam e ouçam, então, essa paródia de Águas de Março que encontrei no Youtube.

Essa paródia é um absoluto desrespeito não só a uma joia do nosso cancioneiro, mas, sobretudo, à memória de Tom, nosso maior compositor popular.

Para enxergar o que há de simplório e pouco inteligente na paródia não é preciso ser Trump, nem Temer, nem Crivella. Muito menos Bolsonaro, abominável defensor do estupro e da tortura.

Há um verso imperdoável nesse atentado a Águas de Março: “Bolsonaro a caminho”.

O Brasil está num impasse, estamos a dois anos da eleição presidencial e, francamente, devemos acreditar que encontraremos uma saída que não seja essa. Nenhuma saída (nem as piores) pode ser tão indesejável quanto Bolsonaro.

Nenhuma desilusão com o jogo político deve levar à crença de que uma onda conservadora conduzirá o Brasil ao extremo que Bolsonaro representa.

Paródia com esse tipo de verso serve, no fundo, a quem?

Não tem a menor graça!

Aproveitando o que está na letra: isso, sim, é que é o fim da poesia!!

Milton Nascimento, um mistério que não se desvenda por completo

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Recife, março de 1979. Teatro do Parque lotado. Milton Nascimento entra sozinho no palco, vestido de branco, e, acompanhando-se ao violão, canta “Volver a los 17”, de Violeta Parra, que gravara com Mercedes Sosa.

Em seguida, os músicos vão ocupando seus lugares. Wagner Tiso no piano, Robertinho Silva na bateria, Novelli no baixo, Hélio Delmiro na guitarra. Mais Beto Guedes e Flávio Venturini.

O show: “Clube da Esquina 2”. Histórico, antológico, inesquecível. “Canoa, canoa desce/no leito do Rio Araguaia desce” – a voz de Milton ecoa no teatro com os falsetes que encantaram o mundo. Lembranças da primeira vez em que o vi de perto.

Milton Nascimento entrara na nossa casa pelas mãos do meu pai, em 1967. No festival que o revelou com “Travessia”. “Solto a voz nas estradas…” – a voz mágica que vinha de Minas. Como um mistério que nunca desvendaríamos por completo. O rapaz nascido no Rio, adotado por um casal de mineiros, louco pelo François Truffaut de “Jules et Jim”. E pelos mesmos Beatles que vi correndo na quadra em “A Hard Day’s Night”.

Meus melhores contatos com a música de Milton Nascimento são dos anos 1970, o período em que gravou seus discos mais importantes. Sete discos que o colocaram no topo da nossa música popular, entre 1970 e 1978.

Já estava tudo ali, naqueles trabalhos realizados ao lado dos músicos que formaram o Clube da Esquina. Gente que veio de Minas. Gente que foi se agrupando mais tarde no Rio. “Noite chegou outra vez/de novo na esquina os homens estão” – Milton e os irmãos Borges, seus parceiros. Milton e Brant – seu principal parceiro de jornada.

Primeiro, o disco com o Som Imaginário. “Para Lennon e McCartney”, “Canto Latino”, “Pai Grande”. “A Felicidade”, de Tom e Vinícius, evocando Agostinho dos Santos. Depois, “Clube da Esquina”. Brancos e pretos. Lô e Milton. “Tudo o que Você Podia Ser”, “O Trem Azul”, “Cais”, “Nada Será Como Antes”, “San Vicente”.

E aí vem “Milagre dos Peixes”. Em estúdio, com as letras censuradas e a voz de Clementina de Jesus. Ao vivo, no Teatro Municipal de São Paulo, regência de Paulo Moura. As cordas que remetem ao barroco mineiro antecedem as palavras que se repetem em “Bodas”. “E a muitos outros que a mão de Deus levou” – a dedicatória irônica na noite brasileira.

“Minas” e “Geraes” consolidam o artista extraordinário. “Fé Cega, Faca Amolada”, “Saudade dos Aviões da Panair”, “Ponta de Areia”. A voz metálica misturada ao coro infantil. “Mi” de Milton, “nas” de Nascimento. As sílabas iniciais formando “Minas”. Para abrir caminho a “Geraes”, o disco seguinte. “Voltar aos dezessete, depois de viver um século” – os versos de Violeta Parra gravados com Mercedes Sosa. Ou “quem cala sobre teu corpo/consente na tua morte”.

No próximo passo, os amigos juntos em “Clube da Esquina 2”. Elis, Chico, todos. Há muita beleza nos anos seguintes. Mas nem precisava. Bituca é o aniversariante desta quarta-feira (26).

Top 20 do samba, o grande poder transformador

Na semana passada, fiz, aqui, por sugestão do colega Rubens Nóbrega, um top 10 da canção brega, gênero com o qual não tenho intimidade.

Uma leitora sugeriu que eu fizesse o mesmo com o samba, que está entre os meus amores.

Tentei um top 10, mas o número se mostrou insuficiente. Fiquei com 20. Podia ter sido muito mais!

Segue a lista, que mistura títulos obrigatórios com escolhas pessoais:

Feitiço da Vila – Noel Rosa

Camisa Amarela – Ary Barroso

Brasil Pandeiro – Assis Valente

A Primeira Vez – Bide e Marçal

Samba da Minha Terra – Dorival Caymmi

A Voz do Morro – Zé Keti

Desafinado – Tom Jobim e Newton Mendonça

Você e Eu – Carlos Lyra e Vinícius de Moraes

Mas que Nada – Jorge Ben

O Sol Nascerá – Cartola

Juízo Final – Nelson Cavaquinho

Saudosa Maloca – Adoniran Barbosa

Canto de Ossanha – Baden Powell e Vinícius de Moaes

Na Cadência do Samba – Ataulfo Alves

Coisas do Mundo, Minha Nega – Paulinho da Viola

Aquele Abraço – Gilberto Gil

Construção – Chico Buarque

Águas de Março – Tom Jobim

O Bêbado e a Equilibrista – João Bosco e Aldir Blanc

Desde que o Samba É Samba – Caetano Veloso

Lista da Billboard tem Caetano no topo. Mas peca por excluir João Gilberto

Lista é um negócio atraente. Top 5 disso, top 10 daquilo. A gente discorda, reclama, mas, no fundo, gosta! De ver e de fazer!

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Muito bem! Essa semana saiu uma lista da Billboard Brasil. Caetano Veloso é o número 1 como o artista mais completo da nossa música popular. Ótima escolha. Ele é grande mesmo e ponto final!

Podia ser Gil (que aparece em segundo lugar), podia ser Chico, podia ser Tom. São todos grandes. Os gigantes da música popular do Brasil!

Os dez primeiros são Caetano Veloso, Gilberto Gil, Ney Matogrosso, Rita Lee, Elis Regina, Jorge Ben Jor, Chico Buarque, Tim Maia, Raul Seixas e Maria Bethânia.

A escolha foi feita por 12 pessoas, entre críticos e gente que trabalha diretamente com música. Foram considerados quesitos como voz, presença de palco, capacidade de reinvenção na carreira, carisma, quantidade de hits, versatilidade e relevância da obra.

Como qualquer lista, essa da Billboard tem sua subjetividade, seus erros, seus acertos, não agrada a todo mundo, etc.

Tem também o intuito de conciliar nomes de ontem com nomes de hoje. Em alguns casos, ainda nem há distanciamento suficiente para avaliar um artista e colocá-lo entre os melhores. Mas está tudo OK.

Só quero registrar um pecado da lista. Uma falta imperdoável. Ora, como é que entre 0s 50 artistas mais completos da música popular do Brasil não coube João Gilberto?

Não dá para entender! A exclusão do cara que inventou a batida da Bossa Nova macula a lista da Billboard!