Já viram Gilberto Gil e Stevie Wonder fazendo Desafinado?

Gilberto Gil e Stevie Wonder são amigos há muitos anos.

De Wonder, Gil verteu para o português I Just Called to Say I Love You.

O brasileiro percebeu na canção composta para o filme A Dama de Vermelho uma beleza que o autor não reconhecia.

Os dois artistas já se apresentaram juntos algumas vezes.

No documentário Tempo Rei, realizado há pouco mais de duas décadas para celebrar os 30 anos de carreira de Gil, há um momento incrível.

Gilberto Gil (voz e violão) e Stevie Wonder (voz e teclado) “brincam” com o tema de Desafinado, de Tom Jobim e Newton Mendonça.

Justamente Desafinado, a primeira canção da Bossa Nova a se popularizar nos Estados Unidos.

Segue o vídeo de Gilberto Gil e Stevie Wonder fazendo Desafinado.

 

No Aniversário de Jobim, o Maestro Soberano década a década

Se estivesse vivo, Antônio Carlos Jobim faria 92 anos nesta sexta-feira (25).

Vamos revisitá-lo década a década?

Anos 1950

O Tom que o Brasil e o mundo conheceram começa quando, em 1956, nasce a parceria com Vinícius de Moraes em Orfeu da Conceição. Uma bela síntese do que fizeram está no disco Canção do Amor Demais, de Elizeth Cardoso, lançado em 1958. Em duas faixas, o violão de João Gilberto oferece o esboço da Bossa Nova. Em seguida (1959), Chega de Saudade, o LP de João arranjado por Jobim, reinventa o samba e muda para sempre a música popular brasileira.

Anos 1960

A Bossa Nova projeta internacionalmente a música brasileira. Gravado nos Estados Unidos, o primeiro disco de Jobim (The Composer of Desafinado Plays) parece um greatest hits. O LP Getz/Gilberto divulga Garota de Ipanema, de Tom e Vinícius, em escala planetária. Frank Sinatra grava um disco com Jobim, que, no Brasil, é vaiado porque seu protesto político (dividido com Chico Buarque) não é tão explícito quanto o de Geraldo Vandré.

Anos 1970

Na virada dos 60 para os 70, Tom faz discos nos quais predominam os temas instrumentais. Depois vem o seminal Matita Perê (1973). O maestro grava Águas de Março, verdadeira obra-prima do seu cancioneiro. É um popular que dialoga com o erudito, sob a batuta de Claus Ogerman. Fala em ecologia antes que a palavra fosse moda, chama de Urubu seu novo disco. Passa um ano em cartaz com Vinícius, Toquinho e Miucha, no palco do Canecão.

Anos 1980/90

Mundialmente consagrado, nem sempre reconhecido com justiça no Brasil. Forma a Banda Nova, o grupo que divide palcos e estúdios com Tom em sua última década de vida. Seus shows pelo mundo e seus derradeiros discos (Tom Jobim InéditoPassarim, Antônio Brasileiro) são uma celebração da grande música que criou. Revistos e reouvidos hoje, confirmam o seu extraordinário legado, a infinita beleza e a permanência da sua obra.

*****

Nascido em Nova York, George Gershwin, mestre da música americana, fez do jazz uma de suas fontes. Nascido no Rio de Janeiro, Antônio Carlos Jobim se debruçou sobre o samba, grande expressão da música popular do Brasil. Sua versão do samba carioca é, a um só tempo, popularíssima e (harmônica e melodicamente) complexa. Como nas outras “praias” que visitou. Modinha, valsa, toada, baião, frevo – há uma marca de excepcional qualidade em tudo o que fez.

Mas há, sobretudo, o amor à música e uma crença singular nos destinos do Brasil!

Viva o Maestro Soberano!

Há 60 anos, Chega de Saudade mudou história da música popular

Vai minha tristeza

E diz a ela

Que sem ela não pode ser

Chega de Saudade.

A melodia: Antônio Carlos Jobim.

A letra: Vinícius de Moraes.

A voz e o violão: João Gilberto.

O arranjo: Jobim.

Um 78rpm da Odeon cujo take definitivo foi registrado na quinta-feira 10 de julho de 1958, há exatos 60 anos.

Chega de Saudade, na versão de João Gilberto, mudou a história da música popular brasileira e a projetou internacionalmente sob o rótulo de Bossa Nova.

Classificada no selo do disco como samba-canção, Chega de Saudade funde o velho com o novo. Tom compôs a melodia a partir de parâmetros antigos. João Gilberto trouxe a novidade na batida do violão e no modo de cantar.

Certa vez, num texto sobre João, tentei explicar assim:

A batida que João criou é a síntese do samba e a sua reinvenção. A utilização dos baixos desaparece para dar lugar a uma mão direita que percute o ritmo, enquanto a esquerda oferece acordes dissonantes num refinado desenho harmônico. A execução ilude o ouvinte: ela parece simples, mas é muito complexa. A voz nem sempre se deixa guiar pelo instrumento que a acompanha. Ora está adiantada, ora atrasada, às vezes os dois se encontram. É misterioso, preciso, perfeito. É necessário entender este diálogo para que não se incorra no erro de diminuir o artista.

Salve João!

E Tom!

E Vinícius!

E toda a Bossa Nova!

BOSSA NOVA 60: Influência do jazz

Os críticos da Bossa Nova, muito por causa do sucesso obtido nos Estados Unidos, costumam apontar a influência do jazz como um dos defeitos da bossa.

Alguns identificam nas canções de Tom Jobim características que remetem a compositores eruditos da Europa (de Chopin a Debussy) e as consideram negativas.

Há também os que a rejeitam porque ela teria nascido em reuniões nos apartamentos da Zona Sul do Rio de Janeiro e, por esta razão, seria uma música fútil e distante da realidade brasileira.

Uma série de teses que atentam contra o bom senso, mas que exibem uma impressionante capacidade de sobrevivência num país em que é mais fácil reconhecer os méritos de Garrincha do que os de Pelé.

60 anos já se passaram, e elas continuam vivas. E é a elas que comumente recorrem os que querem detratar algo que figura entre o que o Brasil produziu de melhor.

Pixinguinha, cuja brasilidade ninguém mais questiona, era criticado na década de 1920 por ser jazzista. Antes de ganhar a letra de Braguinha, o tema instrumental Carinhoso foi considerado jazzístico.

No caso da Bossa Nova, existe, sim, influência da música dos negros americanos, menos em Jobim e em João Gilberto do que nos grupos que difundiram entre nós o chamado samba-jazz. Mas é necessário lembrar que a inserção da bossa nos Estados Unidos foi tão marcante que não há como negar que esta também influenciou o jazz.

A presença dos eruditos europeus na obra de Tom é verdadeira, mas não é maior do que a de Villa-Lobos e seu imenso amor pelas coisas do brasil.

A Bossa Nova não pode ser diminuída pela influência do jazz, nem pelos eruditos que Jobim estudou ao piano. Muito menos pelos encontros nos apartamentos da Zona Sul.

ESTE TEXTO FAZ PARTE DE UMA SÉRIE SOBRE OS 60 ANOS DA BOSSA NOVA. 

A BOSSA NOVA FAZ 60 ANOS*

 

A Bossa Nova completa 60 anos agora em 2018.

Há quem defenda o argumento de que seria em 2019, no sexagésimo aniversário do lançamento do LP Chega de Saudade, de João Gilberto.

Fiquemos, no entanto, com 2018 porque foi em 1958 que Elizeth Cardoso lançou Canção do Amor Demais, disco dedicado à parceria de Antônio Carlos Jobim com Vinícius de Moraes.

Neste disco, está registrada pela primeira vez a batida da bossa ao violão: seu criador, João Gilberto, acompanha Elizeth em Chega de Saudade e Outra Vez.

Um pouco depois, em julho de 1958, o próprio João fez o seu registro de Chega de Saudade num 78 rpm da Odeon.

A gravação seria uma espécie de manifesto do movimento que mudou a música popular do Brasil e efetivamente lhe deu dimensão internacional.

Além de ter fornecido inúmeras razões para que nos orgulhássemos dela.

Um cantor e seu violão.

Um compositor quer quis ser arquiteto e estudou piano clássico.

Um poeta que resolveu fazer letra de música popular.

João Gilberto.

Antônio Carlos Jobim.

Vinícius de Moraes.

Há outros. Mas, se quisermos eleger apenas três nomes, são estes os que melhor representam a Bossa Nova.

E há um ano crucial, antes das gravações que servem de referência para que se comemorem as seis décadas do movimento: 1956, o ano de Orfeu da Conceição.

O espetáculo que transportava o mito grego de Orfeu para os morros do Rio promoveu o encontro de Tom e Vinícius e fez nascer uma das grandes parcerias da nossa música popular.

Sem ela e sem os sambas que João cantava acompanhado ao violão, não haveria Bossa Nova, apesar dos outros cantores, compositores e instrumentistas também inseridos no ambiente que permitiu o seu surgimento.

*ESTE TEXTO ABRE UMA SÉRIE SOBRE OS 60 ANOS DA BOSSA NOVA. 

Canção do Amor Demais faz 60 anos

Rua Nascimento Silva 107

Você ensinando pra Elizeth

As canções de Canção do Amor Demais

Canção do Amor Demais, de Elizeth Cardoso, está fazendo 60 anos.

Lançado pelo pequeno selo Festa, é um dos discos fundamentais da música popular do Brasil.

Sem ele, minha discoteca estaria incompleta.

Há muitas belezas nesse LP que a Divina lançou em 1958.

Há a grande voz e a percepção de que algo novo estava surgindo.

Vinda de um cenário de tradição, Elizeth intuíu que a novidade estava ali naquela coleção de canções.

Dois anos antes, em 1956, por causa do musical Orfeu da Conceição, Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes começaram a trabalhar juntos.

Vinícius já passara dos 40.

Jobim ainda não tinha 30.

Canção do Amor Demais é um disco inteiramente dedicado à nova parceria.

Digamos que é um pequeno songbook da fase inicial, muito camerística, da dupla Tom e Vinícius.

João Gilberto foi convidado a acompanhar Elizeth em duas faixas. Nelas (Chega de Saudade e Outra Vez), registrou pela primeira vez um jeito original de tocar o violão.

Era a batida da Bossa Nova, invenção dele, que logo depois, ainda em 1958, apareceria no 78rpm da Odeon em que João faria o seu histórico e definitivo registro de Chega de Saudade.

Em nove das 13 faixas, o disco de Elizeth tem o usual na parceria deles: Tom fazendo a música. Vinícius, a letra.

Mas tem Tom fazendo letra e música (As Praias Desertas, Outra Vez). Vinícius também (Serenata do Adeus, Medo de Amar).

Há ainda os arranjos primorosos de Jobim.

E uma série de joias do nosso cancioneiro (Eu Não Existo Sem Você, Estrada Branca, Modinha).

Canção do Amor Demais reúne belezas grandes e pequenas.

Ao juntá-las, nos oferece algo imprescindível.

Nelson vê Tom. O Cinema Novo abraça a Bossa Nova

Estive com Nelson Pereira dos Santos em 2008, nos bastidores de um programa de televisão. Perguntei, e o homem que fez Vidas Secas respondeu que Vinhas da Ira, de John Ford, foi o filme que mais o influenciou na adaptação do livro de Graciliano Ramos para o cinema.

A conversa mudou de foco: ele disse que estava trabalhando num projeto sobre Antônio Carlos Jobim. Queria contar a história do maior compositor popular brasileiro na ótica das mulheres com quem se casou, Teresa Hermanny e Ana Lontra, e da irmã, Helena. O documentário se chamaria As Mulheres de Tom, título que não agradava à família. Algum tempo se passou até a estreia de A Música Segundo Tom Jobim.

O filme que Nelson Pereira dos Santos realizou em parceria com Dora Jobim não tem nada a ver com a ideia inicial de dar voz às mulheres que marcaram a vida do músico. Aquele projeto, depois realizado e chamado de A Luz do Tom, deu lugar a um perfil de Tom montado a partir da sua música.

Não há narrador, nem entrevistas, nenhum texto falado. Somente as canções. Elas se sucedem, numa ordem mais ou menos cronológica, e sintetizam a trajetória de Jobim, de Orfeu da Conceição, que inaugurou em 1956 a parceria com Vinícius de Moraes, ao carnaval de 1992, quando foi homenageado pela Mangueira. É um luxo. Um dos maiores cineastas do Brasil debruçado sobre o cancioneiro de Antônio Carlos Jobim.

O tempo passou, e quis o destino que, na velhice, Nelson Pereira dos Santos fizesse um filme sobre Antônio Carlos Jobim. Esta é uma das belezas que A Música Segundo Tom Jobim revela só para alguns. Se buscarmos o olhar da época, veremos que o Rio de Nelson não parecia ser o Rio de Tom. A partir do próprio título, Rio Zona Norte seria o avesso da Bossa Nova, que nasceu na Zona Sul. Mesmo que espectadores de um fossem ouvintes do outro, isto não era tão consensual assim entre o fim dos 50 e o início dos 60 do século passado. Uma questão resolvida a tempo, felizmente, de vermos um grande representante do Cinema Novo realizando um filme sobre Tom Jobim.

Quem passou a vida toda ouvindo Jobim se deleitará com o filme, que ousa ao abdicar da palavra falada. O que vemos e ouvimos nos é muito caro. Até as imagens de Jean Manzon, a quem tanto detestávamos, são redimensionadas e nos levam a um passeio pelo Rio de décadas atrás. São elas que começam a contar a história de Tom.

O encontro com Vinícius, Orfeu da Conceição, a Sinfonia da Alvorada, a Bossa Nova, o Carnegie Hall, o mundo. Nenhum compositor popular brasileiro tem a dimensão de Jobim, nenhum obteve similar reconhecimento internacional. Ninguém escreveu tantas canções tão grandes quanto as dele – nos diz, sem textos e sem falas, o filme de Nelson Pereira dos Santos.

De Elizeth Cardoso a Frank Sinatra, todos cantam Jobim. Gal Costa o introduz com Se Todos Fossem Iguais a Você. Elizeth faz Eu Não Existo Sem Você, e João Gilberto, no lado esquerdo da tela, acompanha a Divina ao violão. Os dedos de Oscar Peterson deslizam sobre o piano em Wave.

Somos levados a um mundo que só existe na nossa memória.

O título é A Música Segundo Tom Jobim. Mas, na verdade, o filme é a música de Tom Jobim segundo Nelson Pereira dos Santos. Ou um retrato do artista tirado pelo cineasta através das canções.

Tom pela luz dos olhos de Nelson.

O Brasil não é para principiantes

Nesta quarta-feira (24), lembrei de Antônio Mariz.

Em outubro de 1992, quando foi escolhido relator, no Senado, do processo de impeachment de Fernando Collor, ouvi dele a seguinte frase:

O país vive o instante trágico do afastamento de um presidente.

Lembrei de Mariz, ontem, ao ver nas redes sociais manifestações de grande júbilo pela confirmação (com ampliação da pena) da sentença de condenação do ex-presidente Lula.

Atualizada, a frase de Mariz seria assim:

O país vive o instante trágico da condenação de um ex-presidente.

Penso que não há o que comemorar. Mesmo pelos que são contra Lula.

Mas esse post é sobre Tom Jobim (em foto de Evandro Teixeira).

Se vivo fosse, ele faria 91 anos nesta quinta-feira (25).

O nome completo: Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim.

O nome artístico que gostava de usar: Antônio Carlos Jobim.

O nome que todos usam: Tom Jobim.

O que Chico Buarque usou na letra de Paratodos: Antônio Brasileiro.

Novamente Chico: Maestro Soberano.

Tom Jobim é o maior compositor popular do Brasil.

Nascido no Rio de Janeiro, Jobim se debruçou sobre o samba, grande expressão da música popular do Brasil.

Sua versão do samba carioca é, a um só tempo, popularíssima e (harmônica e melodicamente) complexa.

Como nas outras “praias” que visitou. Modinha, valsa, toada, baião, frevo – há uma marca de excepcional qualidade em tudo o que fez.

Seu vasto cancioneiro permanece vivo e atual como documento sonoro do país que nunca deixou de ser uma promessa de vida em seu coração.

Tão permanente e atual quanto as suas canções é a frase de Jobim que escolhi para fechar o post:

O Brasil não é para principiantes.

Lembranças de Tom Jobim

Nesta sexta-feira (08), faz 23 anos que Antônio Carlos Jobim morreu em Nova York.

Se estivesse vivo, teria feito 90 anos em janeiro de 2017.

Tom Jobim compôs muito, e suas músicas têm dezenas, centenas, creio que milhares de gravações pelo mundo.

Mas sua discografia é pequena, se pensarmos somente nos discos solo e autorais. Pouco mais de 10 títulos, de The Composer of Desafinado Plays a Antônio Brasileiro.

A grande maioria, gravou nos Estados Unidos. Quando Tom morreu, alguém disse que as gravadoras brasileiras não o gravavam, mas depois lançavam o disco por aqui ou – pior – distribuíam o repertório em coletâneas infames.

Tenho toda a discografia de Jobim, e nada me desagrada. Se sairmos dos títulos solo e autorais, aí a lista é extensa: gravações ao vivo, trabalhos com outros artistas, edições póstumas, tributos.

Quando me perguntam qual o disco da minha preferência, não tenho dúvida: Matita Perê, de 1973. É nele que está Águas de Março. É nele que Tom registrou a suíte A Casa Assassinada, escrita a partir de Chora Coração, tema composto em parceria com Vinícius de Moraes. Alternando canções com música instrumental, Jobim vai do popular ao erudito.

É disco seminal!

Tom Jobim pela luz dos olhos de Nelson Pereira dos Santos

Revi A Música Segundo Tom Jobim.

Como é bonito esse filme de Nelson Pereira dos Santos!

Vocês já viram?

Comento.

Estive com Nelson Pereira dos Santos em 2008, nos bastidores de um programa de televisão. Perguntei, e o homem que fez Vidas Secas respondeu que Vinhas da Ira, de John Ford, foi o filme que mais o influenciou na adaptação do livro de Graciliano Ramos para o cinema.

A conversa mudou de foco: ele disse que estava trabalhando num projeto sobre Antônio Carlos Jobim. Queria contar a história do maior compositor popular brasileiro na ótica das mulheres com quem se casou, Teresa Hermanny e Ana Lontra, e da irmã, Helena. O documentário se chamaria As Mulheres de Tom, título que não agradava à família. Algum tempo se passou até a estreia de A Música Segundo Tom Jobim.

O filme que Nelson Pereira dos Santos realizou em parceria com Dora Jobim não tem nada a ver com a ideia inicial de dar voz às mulheres que marcaram a vida do músico. Aquele projeto, depois realizado e chamado de A Luz do Tom, deu lugar a um perfil de Tom montado a partir da sua música.

Não há narrador, nem entrevistas, nenhum texto falado. Somente as canções. Elas se sucedem, numa ordem mais ou menos cronológica, e sintetizam a trajetória de Jobim, de Orfeu da Conceição, que inaugurou em 1956 a parceria com Vinícius de Moraes, ao carnaval de 1992, quando foi homenageado pela Mangueira. É um luxo. Um dos maiores cineastas do Brasil debruçado sobre o cancioneiro de Antônio Carlos Jobim.

O tempo passou, e quis o destino que, na velhice, Nelson Pereira dos Santos fizesse um filme sobre Antônio Carlos Jobim. Esta é uma das belezas que A Música Segundo Tom Jobim revela só para alguns. Se buscarmos o olhar da época, veremos que o Rio de Nelson não parecia ser o Rio de Tom. A partir do próprio título, Rio Zona Norte seria o avesso da Bossa Nova, que nasceu na Zona Sul. Mesmo que espectadores de um fossem ouvintes do outro, isto não era tão consensual assim entre o fim dos 50 e o início dos 60 do século passado. Uma questão resolvida a tempo, felizmente, de vermos um grande representante do Cinema Novo realizando um filme sobre Tom Jobim.

Quem passou a vida toda ouvindo Jobim se deleitará com o filme, que ousa ao abdicar da palavra falada. O que vemos e ouvimos nos é muito caro. Até as imagens de Jean Manzon, a quem tanto detestávamos, são redimensionadas e nos levam a um passeio pelo Rio de décadas atrás. São elas que começam a contar a história de Tom.

O encontro com Vinícius, Orfeu da Conceição, a Sinfonia da Alvorada, a Bossa Nova, o Carnegie Hall, o mundo. Nenhum compositor popular brasileiro tem a dimensão de Jobim, nenhum obteve similar reconhecimento internacional. Ninguém escreveu tantas canções tão grandes quanto as dele – nos diz, sem textos e sem falas, o filme de Nelson Pereira dos Santos.

De Elizeth Cardoso a Frank Sinatra, todos cantam Jobim. Gal Costa o introduz com Se Todos Fossem Iguais a Você. Elizeth faz Eu Não Existo Sem Você, e João Gilberto, no lado esquerdo da tela, acompanha a Divina ao violão. Os dedos de Oscar Peterson deslizam sobre o piano em Wave.

Somos levados a um mundo que só existe na nossa memória.

O título é A Música Segundo Tom Jobim. Mas, na verdade, o filme é a música de Tom Jobim segundo Nelson Pereira dos Santos. Ou um retrato do artista tirado pelo cineasta através das canções.

Tom pela luz dos olhos de Nelson.