Mônica Salmaso recebe Chico Buarque, e fazem João e Maria

Mônica Salmaso é uma das melhores cantoras do Brasil.

Técnica, emoção, belíssimo timbre e um repertório primoroso – é o que ela nos oferece (no palco ou no estúdio) numa admirável carreira iniciada há mais de duas décadas.

Mônica está enfrentando esses tempos difíceis da pandemia do novo coronavírus com um projeto chamado “Ô de casas”.

Ela recebe virtualmente seus convidados e, com eles, nos brinda com performances que são verdadeiras joias.

O “Ô de casas” de número 85 é com Chico Buarque, a quem Mônica já dedicou dois CDs.

A música escolhida foi João e Maria.

Sivuca compôs a melodia dessa valsa em 1947. Chico escreveu a letra 30 anos mais tarde.

Teco Cardoso está na flauta.

Luiz Cláudio Ramos faz o violão.

Sivuca 90 anos/Um autorretrato: o artista segundo suas palavras

No post anterior, falei sobre a última grande entrevista de Sivuca, que fiz, em novembro de 2006, a convite de Glorinha Gadelha.

Sivuca morreu poucos dias depois.

Nesta quarta-feira (27), posto uma série de trechos dessa entrevista.

O texto é longo, mas tem notável valor documental.

SIVUCA ARRANJADOR

O arranjador começou em 1950, quando o maestro Guerra Peixe veio para o Recife assumir a direção musical da Rádio Jornal do Commércio. Ele resolveu escolher alguns colegas para ensinar, e eu estava entre eles. Eu, o maestro Clóvis Pereira, o próprio Capiba. Aliás, o meu sonho começou quando escutei a Orquestra Tabajara pela primeira vez, lá em Itabaiana, em 1943, 1944, nos bailes que Severino Araújo fazia no Itabaiana Clube. Verifiquei que aquele tipo de arranjo era diferente do que eu escutava nas bandas, e aquilo era o que eu queria fazer. Tanto que a minha sanfona soava diferente das outras porque eu tocava o instrumento como se estivesse tocando um saxofone.

SANFONEIROS

Veja o “Sivuca Sinfônico”. Esteve aqui um grande compositor, ele ouviu tudo, olhou pra mim e disse: “Quem fez esses arranjos?”. Ora, eu quase que digo: sou um músico pobre, eu mesmo fiz. Mas isso tudo, com trabalho, com tenacidade e com convicção daquilo que a gente vai fazendo, a gente vai derrubando as muralhas, porque muralha não foi feita pra se derrubar facilmente. Por exemplo, se eu tocasse piano, todo mundo já sabia que eu seria um arranjador. Quem toca sanfona geralmente é tido como músico que não estudou. O que, aliás, no Brasil existem exceções. No Recife, nós temos um acordeonista (vamos chamá-lo assim), Toninho Ferraguti, ele faz arranjo para tudo quanto é forró, no entanto ele é um grande músico, é um grande arranjador. Osvaldinho sabe música. Agora, tem uns que não sabem. Dominguinhos não sabe uma nota de música, mas harmoniza tão bem ou melhor do que nós todos. Quer dizer, Dominguinhos é pura intuição, mas é uma intuição privilegiada. Para mim, é o melhor deles, de nós todos. E ninguém toca forró nordestino melhor do que Dominguinhos.

GONZAGÃO, A VIGA MESTRA

Tive o convite para fazer a primeira peça sinfônica propriamente dita, que foi para uma instituição de caridade da então primeira dama de Pernambuco, Madalena Arraes. Foi o maestro irlandês Eugene Egan que me pediu a música. Eu disse: tá bom, agora vou fazer, mas como se trata de um evento nordestino, vou trabalhar em cima de “Asa Branca”. Aliás, foi o primeiro concertino para sanfona e orquestra que eu fiz. A estreia foi no Teatro Santa Isabel, e no ensaio geral, Gonzagão estava lá e, com lágrimas nos olhos, me agradeceu o que fiz pela “Asa Branca”. Ele disse que gostou muito do trabalho, que gostaria de ter estudado para fazer a mesma coisa, mas que ainda bem que eu estava lá para dar continuidade ao trabalho dele. Gonzagão, para mim, é a viga mestra da expansão da música nordestina no Brasil e na América do Sul.

SIVUCA ANTES DO BAIÃO

Eu, por exemplo, tocava um pouco de jazz, copiava alguns arranjos de Severino Araújo para a sanfona, mas o principal era choro. Vamos dizer assim, seria um bom sanfoneiro aquele que soubesse tocar fluentemente “Saxofone, Por Que Choras?”, de Ratinho, e “Espinha de Bacalhau”, de Severino Araújo. O repertório era bem esse. E tinha os tocadores de fole de oito baixos. Esses sim, tocavam uma música que depois resolveram chamá-la de forró. Mas havia uma diferença entre quem tocava fole de oito baixos e aqueles que tocavam o acordeon com teclado de piano.

O VISTO PERMANENTE

Em 1964, meu irmão de Recife me trouxe de volta. Voltei a trabalhar na Rádio Jornal do Commércio. Foi quando Carmem Costa me convidou para ir para os Estados Unidos. Aí aconteceu uma coisa engraçada. Em 1946, fui para Fernando de Noronha, onde existia ainda um contingente americano. Fizemos algumas apresentações e notei que um soldadinho ficava sempre me observando. Pois quando foi na hora de tirar aqui o meu visto de entrada nos Estados Unidos, o cônsul me chamou e disse: “Mr. Sivuca, vou lhe dar aqui o visto permanente porque o que o senhor fez por mim lá em Fernando de Noronha matou muito a saudade da boa música. O senhor vai sair daqui com o visto permanente em agradecimento pelo o que fez por nós lá em Fernando de Noronha”.  

ESTADOS UNIDOS

Eu cheguei nos Estados Unidos em 1964. Ia passar uns seis meses lá, mas fui ficando porque tinha um visto permanente. Conheci Miriam Makeba, com quem comecei a trabalhar, e de repente assumi a direção musical dela. Trabalhei quatro anos e meio, depois fui contratado por Harry Belafonte, com quem trabalhei seis anos, mas eu cheguei à conclusão de que, apesar de tudo, lá eu era um forasteiro, sem poder exercer aquilo que sabia fazer, que era tocar a minha música. Ainda consegui organizar um grupo, todos porto-riquenhos e alguns americanos. Fiz dois shows magníficos no Village Gate, um dos quais foi gravado ao vivo. Mas, sabe de uma coisa, eu disse: prefiro ser músico onde posso tocar a minha música. Lá, a proteção musical é um fato. Não é como aqui. Aqui, chega um gringo, faz o que quer, depois vai embora. Lá não é assim. Eu quis levar dois músicos brasileiros para uma excursão com Belafonte, e o sindicato não deixou. Tudo isso você vê que faz diferença.

FEIRA DE MANGAIO

Eu, graças a Deus, conheci Glorinha e, pronto, foi um relacionamento magnífico. E foi Glorinha que me trouxe de volta para o Brasil, materialmente e espiritualmente, porque aqui a gente trabalhou junto. Tive a sorte de lançar logo dois grandes sucessos. Inclusive o que eu reputo um dos mais importantes, que, aliás, a música, Glorinha me deu de bandeja, “Feira de Mangaio”. A primeira gravação é nossa, foi naquele disco do Seis e Meia. Quando Clara Nunes ouviu a música, ela disse: “Sivuca eu quero gravar”. Eu disse que a música já tinha sido gravada, mas ela disse que não importava. Aí Clara explodiu “Feira de Mangaio”.

MÚSICO URBANO

Eu defendo os valores, que continuem e que o músico não esqueça que existem. Mas isso não pode impedir o músico de sair tocando e criando de acordo com suas próprias convicções musicais. Ora, sou um músico urbano, se me convidam para improvisar num festival de jazz, vou improvisar tranquilamente, sem nenhum preconceito. Agora, dou umas pinceladas de temas nordestinos, que é para mostrar a minha origem.

A SANFONA

A sanfona foi um instrumento inventado na Europa para matar a solidão dos fazendeiros. Lá, como aqui, você ainda hoje vai ao interior da Europa, em toda fazenda tem um acordeon, eles tocam à noite aquelas rancheiras. Pra mim, eu entendi que era um instrumento como outro qualquer e aí resolvi estudá-lo a ferro. Quer dizer, pegar o instrumento, ler partitura e adaptar algumas músicas que eram consideradas quase impossíveis. Eu comecei com o “Vôo do Besouro”, de Rimsky-Korsakov, isso ainda na década de 1940. Foi um dos sucessos que eu tocava. Eu era, na época, o único a tocar com orquestra essa música. Independente disso, tocava música com influência jazzística, improvisava, mas só que à minha maneira. Depois, quando fui para o exterior, eu levava a sanfona como contra-peso, porque sou registrado na União dos Músicos de Nova York como guitarrista.

MILES DAVIS

O acordeon é um instrumento altamente detestado pelos americanos. Fiz uma música incidental para a NBC, quando morava em Nova York, e recebi um telegrama de Miles Davis que dizia o seguinte: “Finalmente, encontrei alguém que me fizesse as pazes com este maldito instrumento, o acordeon”. 

A IMPROVISAÇÃO

O jazz está nos Estados Unidos em 4/4. O Brasil é o único país onde sua música popular é toda em cima do 2/4. As improvisações que nós fazemos no Brasil são em 2/4. O americano tem a tendência de fazer um 4/4 como se fosse 12/8. Essa é a diferença. O brasileiro, quando toca em 2/4, ele arredonda. Isso se deve ao choro. A improvisação do brasileiro é tão boa quanto a improvisão do músico americano, vamos dizer assim.

O ROCK

De todo movimento musical, sempre sai alguma coisa aproveitável. Pra mim, o rock foi uma abominação, mas, negar a competência de um John Lennon como compositor, seria burrice. Do movimento rock pintou coisa boa como aquelas músicas modais que os Beatles cantaram, um tipo de música que eles fizeram bem. Eu só não gosto definitivamente é do rock de Elvis Presley. É a anti-música, eles fizeram aquilo pra chocar. A partir do momento que você usa a música como trejeito, ela perdeu o valor pra mim. Ele usou aquela fórmula do blues o tempo todo. Como profissional, pegou a estrada e fez sucesso, mas sucesso, nos Estados Unidos, nem sempre corresponde ao verdadeiro valor.

HOMENAGEM À VELHA GUARDA

Eu tinha 25 anos, em 1955, quando sonhei com uma música. Aí despertei, peguei um pedaço de papel e escrevi os primeiros compassos. Dois meses depois, estava gravando “Homenagem à Velha Guarda” e, provavelmente, foi a primeira vez que se gravou choro com coral, o Coral de Joab. A gravação ficou linda. E “Homenagem” ganhou as rodas de choro e hoje é um clássico. Aquilo era uma homenagem que fiz a Pixinguinha. Numa noite, na casa dele, eu disse que fiz uma homenagem a ele e toquei. Ele disse: “Meu filho, não faça isso com o coração do velho, o coração do velho não aguenta, o seu choro é muito bonito mesmo e eu agradeço de coração ser homenageado com uma melodia como essa”.

PIXINGUINHA

Olha, Pixinguinha era um dos melhores melodistas que nós conhecemos, mas, infelizmente, não teve o trato merecido. Como arranjador, ele era muito chegado a arranjo de banda de música. Tanto que ele dizia: “Meu filho, eu faço música para vocês harmonizarem”. Ele não conseguiu estudar o que a mente dele sabia. Mas considero Pixinguinha uma espécie de Duke Ellington do Brasil. Sou fã incondicional das melodias de Pixinguinha. Acho que ele criou um estilo, deu conotação definitiva ao choro.

OS DISCOS DE SIVUCA

Esse “Seis e Meia” foi uma surpresa pra mim porque foi um disco quase feito de improviso e foi considerado um dos cem grandes do século passado. Um disco não chega a um ponto desse à toa. “Forró e Frevo” foi ótimo. Fiz um disco sofisticado chamado “Cabelo de Milho”. Quando terminei, o dono da gravadora pediu um disco mais popular. Me veio logo à cabeça “Forró e Frevo”. A gente aprontou em quatro dias e foi o disco da casa que mais vendeu. “Pau Doido” já foi da nova série da Kuarup. Ficou bom. É um disco feito para uma viagem à Europa. “Enfim Solo” não saiu como eu gostaria, mas tem, por exemplo, uma música chamada “Canção que se Imaginara”, que foi a última que cantei que eu gosto. “Cada um Belisca um Pouco” foi a brincadeira minha, do Dominguinhos e do Osvaldinho com a música do Gonzagão. Foi uma festa. 

Sivuca 90 anos/Última entrevista é retrato do artista perto do fim

Se estivesse vivo, Sivuca faria 90 anos nesta terça-feira (26).

Ele morreu aos 76, em dezembro de 2006.

Fiz a última grande entrevista de Sivuca, poucos dias antes da sua morte, e conto como foi.

*****

João Pessoa, novembro de 2006.

32 anos se passaram entre a primeira vez em que vi Sivuca ao vivo e a última em que estive perto dele. Não mais como espectador, sentado na poltrona de um teatro, a alguns metros do palco, mas na sala do seu apartamento, no bairro de Manaíra, com a missão de entrevistá-lo.

Dias antes, recebi o convite num telefonema que fiz a Glorinha para parabenizar o casal pelo lançamento do DVD O Poeta do Som.

Na conversa, ela disse que alguém precisava fazer uma longa entrevista com Sivuca.

Ele estava no fim (todos sabiam), e Glorinha tinha o desejo de que contasse histórias para a posteridade. De que desse uma extensa entrevista. Certamente, a última.

Cheguei ao apartamento no final da tarde de uma terça-feira, dois dias antes do concerto em que Sivuca se despediria da Orquestra Sinfônica da Paraíba.

Sivuca estava abatido, cansado, quase vencido pela doença que o consumiu durante mais de três décadas.

Tinha um fio de voz, perdera muito peso.

Vestia calças jeans e uma camisa xadrez, azul e branca.

Conversamos durante duas horas sobre temas que levei anotados num papel.

Uma conversa com pouca improvisação e, para poupar o entrevistado, menos extensa do que eu desejava.

Sivuca em suas próprias palavras – foi o conceito que me guiou quando fiz a pauta. Era esse o resultado desejado.

Já era noite quando a entrevista terminou.

Ainda falamos rapidamente sobre a homenagem que ele receberia, dois dias depois, da Orquestra Sinfônica da Paraíba.

Seria sua última performance ao vivo, numa breve apresentação no Espaço Cultural José Lins do Rego.

Voltei para casa dividido. Profissionalmente feliz com a sensação de que tinha feito uma boa entrevista. Triste pela confirmação de que Sivuca estava no fim.

Esgotavam-se todas as alternativas da luta contra o câncer, iniciada em 1974, quando Glorinha o conheceu, apresentados um ao outro pelo amigo comum José Bezerra Filho. Na época em que, vindo do Zaire, reencontrara seus conterrâneos naquela noite inesquecível, no palco do Teatro Santa Roza.

Três semanas se passaram até que, no final da noite de 14 de dezembro de 2006, Sivuca morreu no Hospital Memorial São Francisco, no bairro da Torre, em João Pessoa.

A última entrevista de Sivuca foi publicada no jornal O Norte na edição de 24 de dezembro de 2006.

Sivuca 90 anos/Aquela noite no Santa Roza confirmava a lenda

Se estivesse vivo, Sivuca faria 90 anos nesta terça-feira (26).

Ele morreu aos 76, em dezembro de 2006.

Conto hoje uma história que já contei outras vezes: a noite em que vi Sivuca ao vivo pela primeira vez.

***** 

João Pessoa, outubro de 1974.

A placa (como um pequeno outdoor), colocada no jardim do Teatro Santa Roza, anunciava a quem passava pela Praça Pedro Américo: Domingo, Sivuca.

Radicado em Nova York há uma década, Sivuca vinha de um show no Zaire, integrando a banda de Miriam Makeba na programação musical montada para coincidir com a luta entre Muhammad Ali e George Foreman.

De passagem pela Paraíba, receberia uma homenagem do governo do Estado no palco do velho teatro. Também tocaria para seus conterrâneos.

Tinha apenas 44 anos e já era uma figura lendária.

Severino Dias de Oliveira – sanfoneiro, violonista, pianista, compositor, arranjador.

Um músico completo que chamara a atenção de todos, ouvintes e colegas de ofício, por onde passara. Dentro e fora do Brasil. Desde que, aos 15 anos, saíra da sua pequena Itabaiana para tentar a sorte no Recife.

No domingo, o Santa Roza estava lotado. Poltronas, camarotes, corredores.

Sivuca chegou ao teatro num fusca branco dirigido por Glória Gadelha, estudante concluinte de medicina, compositora, que viria a ser sua mulher por mais de três décadas.

Ovacionado pela plateia, o homenageado recebeu uma placa da Secretaria da Educação e Cultura e depois tocou.

Nada ajudava. O som precário, o calor, o excesso de público. Mas a música se sobreporia a todos os obstáculos.

Sanfona, violão, voz, temas instrumentais, canções, histórias.

A versão multinacional do frevo Vassourinhas; o standard Moonlight Serenade, da orquestra de Glenn Miller; a já clássica Adeus, Maria Fulô, da parceria com Humberto Teixeira; a novíssima Reunião de Tristeza, letra e melodia escritas em Nova York por um homem com saudade de casa – estava tudo no set list daquele recital.

Um Sivuca solo raro de se ver.

Uma noite inesquecível que confirmava a lenda.

Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Sivuca

LUIZ GONZAGA

Um gigante. Um artista autêntico, verdadeiro em sua simplicidade e sua força intuitiva. Gonzaga, seus trajes de Rei do Baião, sua sanfona, suas músicas belas e impregnadas de melancolia. O melhor pop nordestino produzido para atravessar o tempo e inserir-se na memória afetiva de milhares de pessoas, rurais ou urbanas, que cresceram ouvindo aquelas canções em casa e nas nossas festas juninas.

Uma vez, fui convocado a enumerar as músicas que prefiro no extenso repertório de Luiz Gonzaga. Légua Tirana é uma delas. Estrada de Canindé e A Morte do Vaqueiro também estão entre as prediletas. Adoro Noites Brasileiras e Olha pro Céu, uma marchinha junina comovente. O Xote das Meninas é uma delícia. Da parceria com Zé Dantas. Tema universal tratado com olhar regional. Vozes da Seca é precursora da canção de protesto. Assum Preto é Asa Branca em tom menor. A lista não tem fim.

SIVUCA

Acordeon, concertina, sanfona. Um instrumento muito popular no Brasil, não só entre os nordestinos que, a partir do final dos anos 1940, incorporaram as canções de Luiz Gonzaga ao seu repertório. Houve um tempo em que as garotas estudavam acordeon e com ele exibiam seus dotes musicais, tocando e cantando nas reuniões familiares. Artistas que depois ficaram conhecidos com o violão começaram pelo acordeon. É o caso de Gilberto Gil e Milton Nascimento, que só aderiram ao violão depois da Bossa Nova, sob a inspiração da batida criada por João Gilberto. Sivuca também fez a adesão quando morava nos Estados Unidos.

Mas foi com a sanfona que entrou para a história da nossa música popular. E para a história mundial do instrumento. Os sons que produzia eram inconfundíveis. Tinham a sua marca, o seu estilo. Diferente de Gonzaga, fundador, mas rudimentar. Ou de Dominguinhos, virtuoso, mas intuitivo. Era o “modo Sivuca” de tocar, iniciado naquele dia de Santo Antônio de 1939, quando o pai trouxe para casa o fole de dois baixos. Até a sua morte, em dezembro de 2006, foram 67 anos de convivência com o instrumento. Um longo percurso, que começou com o menino procurando as notas da marcha “A Jardineira” e terminou no encontro da sua Scandalli Super VI com a complexidade de uma orquestra sinfônica.

DOMINGUINHOS

Dominguinhos deu a Gil o xote Só Quero um Xodó. Foi parceiro de Chico Buarque em Tantas Palavras. Colocou notas e acordes de grande melancolia em Cajuína, de Caetano Veloso. Escreveu (com Manduka) e cantou lindamente a toada Quem me Levará Sou Eu. Compôs (com Nando Cordel) De Volta pro Aconchego, para Elba Ramalho imortalizar. Dividiu com Sivuca e Oswaldinho um disco (Cada um Belisca um Pouco) em que os três sanfoneiros prestam tributo a Luiz Gonzaga. Este costumava atribuir ao afilhado a urbanização do forró. E um compromisso muito sério com o Nordeste. Gonzaga estava certíssimo. Sabia que Dominguinhos seria um dos seus herdeiros. Talvez o principal. O que faria mais justiça ao seu legado. O mais fiel na interpretação do seu cancioneiro.

“Dominguinhos não sabe uma nota, mas harmoniza tão bem ou melhor do que nós todos. É pura intuição, mas uma intuição privilegiada. Para mim, é o melhor de nós todos. E ninguém toca forró nordestino melhor do que ele” – me disse Sivuca pouco antes de morrer. E ele não foi generoso com o colega. Apenas verdadeiro.

Sexta de Música: Sivuca e as versões multinacionais de Vassourinhas

Como seria o frevo Vassourinhas tocado por um chinês?

Por um árabe?

Por um russo?

Por um argentino?

Por um escocês?

Quem responde é Sivuca.

Ouçam na coluna Sexta de Música, que faço semanalmente na CBN João Pessoa.

Mônica Salmaso e Quinteto da Paraíba em bela canção de Sivuca

E a lua estava presente

À reunião de tristeza

Reunião de Tristeza.

Bela e melancólica canção do mestre Sivuca. Composta em Nova York por um homem com saudade de Itabaiana.

Ouvi pela primeira vez em 1974.

Sivuca estava de passagem por João Pessoa e se apresentou no Teatro Santa Roza. Neste número, voz, violão e um comentário do autor sobre as circunstâncias em que a música foi escrita. Um homem só, a janela de um apartamento e uma lua no céu de Manhattan.

Mais tarde, veio o registro no Seis e Meia, LP antológico dividido com Rosinha de Valença.

Muitos anos depois, sugeri a Xangai que ele incluísse Reunião de Tristeza no disco que faria com o Quinteto da Paraíba, todo dedicado a autores paraibanos.

Em dezembro do ano passado, Mônica Salmaso e o Quinteto da Paraíba trouxeram a canção de Sivuca para o repertório do primoroso concerto que fizeram em João Pessoa, dentro do projeto Quinteto Convida.

Vejam o registro em vídeo que recebi ontem do contrabaixista Xisto Medeiros.

O dia em que Sivuca tocou com Paul Simon

A reaudição de um disco de Paul Simon de meados da década de 1970 me faz pensar em Sivuca. Não só por causa da presença do músico paraibano numa das faixas, mas, principalmente, porque o solo que ouvimos ali remete à origem de uma fusão que diferenciou a sanfona dele das outras sanfonas. E talvez a tenha feito mais ouvida dentro e fora do Brasil por sua absoluta originalidade.

O disco de Simon: Still Crazy After All These Years. A canção: I Do It For Your Love. A fusão: da voz do nosso sanfoneiro com o seu instrumento. O encontro dos dois elementos – a voz e a sanfona – geraria um terceiro, uma sonoridade única que se transformaria numa espécie de assinatura.

Sivuca faz um breve solo no meio da canção de Paul Simon. Melodia que, por nunca ter esquecido, solfejava com facilidade. Uma lembrança que esteve presente duas ou três vezes em nossas conversas e que a ele, se não estou equivocado, não parecia importante. Quero, contudo, retomá-la pelo que há de elucidativo nela em relação à origem da fusão entre voz e sanfona.

O que temos no disco de Simon é um solo em que, misturada à sua voz, a sanfona de Sivuca, numa melodia que lembra uma toada nordestina, soa como se fosse um sax. Mais do que em outros registros, em I Do It For Your Love, Sivuca desliza os dedos pelas teclas do instrumento como se estivesse soprando num saxofone.

Toda esta conversa, que começa com a reaudição de um disco de Paul Simon e desemboca no casamento entre a voz e a sanfona de Sivuca e na sua semelhança com o sax, tem a ver com o que o músico me disse na última grande entrevista que deu, duas semanas antes de morrer.

Eis a transcrição:

Meu sonho começou quando escutei a Orquestra Tabajara pela primeira vez, em 1943, 1944, nos bailes que Severino Araújo fazia no Itabaiana Clube. Verifiquei que aquele tipo de arranjo era diferente do que eu escutava nas bandas, e aquilo era o que eu queria fazer. Tanto que a minha sanfona soava diferente das outras porque eu tocava o instrumento como se estivesse tocando um saxofone.

A explicação é do próprio Sivuca. A sonoridade da sua sanfona vem dos saxofones da Orquestra Tabajara tal como ele a ouviu em Itabaiana, antes de Severino Araújo levar a big band para o Rio de Janeiro. Ao tomar a Tabajara como parâmetro e ao buscar em um dos seus naipes o som da sua sanfona, Sivuca parecia antecipar a sua compreensão da música como algo do mundo e não como uma manifestação circunscrita à sua pequena Itabaiana.

O caminho que ele seguiu, da Paraíba para Pernambuco (onde estudou com o maestro Guerra Peixe) e de Pernambuco para o mundo, só confirma a universalidade dos sons que produziu a partir daquele encontro da sanfona com os saxes da Tabajara.

Claro que não é preciso ouvir Paul Simon para desvendar Sivuca. O que acontece é que em I Do It For Your Love a sanfona está tão explicitamente parecida com um sax que o que ele me disse pouco antes de morrer fica ainda mais evidente.

Sivuca estava deixando Nova York para voltar a viver no Brasil quando participou do disco de Simon. Mais ou menos na época em que o vi ao vivo pela primeira vez, num memorável concerto no Teatro Santa Roza. Ali, a execução de Moonlight Serenade também nos levava a identificar um sax na fusão da voz com a sanfona.

Em seus últimos anos, quase sem voz, Sivuca foi privado de produzir esta sonoridade que sempre reencontro nesse belo disco de Paul Simon.

Memória: Tom, Roberto, Vandré, Caetano e Milton segundo Sivuca

Em novembro de 2006, fiz uma longa entrevista com Sivuca, pouco antes dele morrer.

(A foto é de André Cananéa)

Durante a conversa, gravada no apartamento em que ele morava em João Pessoa, quis ouvir sua opinião sobre Tom Jobim, Roberto Carlos, Geraldo Vandré, Caetano Veloso e Milton Nascimento. Esses jogos rápidos que a gente faz nas entrevistas.

É memória. Um grande músico falando sobre seus colegas de ofício.

Transcrevo:

A Bossa Nova e Antônio Carlos Jobim

Jobim suplantava qualquer rótulo de Bossa Nova. Jobim é um músico sutil. As frases musicais, os arranjos, as harmonias, o que ele fizesse era intocável. Jobim era um dos melhores harmonistas que nós tivemos. Estava entre os primeiros. Sou um admirador incondicional da obra orquestral de Jobim. 

 

A Jovem Guarda e Roberto Carlos

Aquilo foi mais um movimento. Do ponto de vista musical, tenho sérias restrições. Agora, teve o seu valor. Dizer que Roberto Carlos não tem valor é no mínimo uma burrice, porque ele é um excelente profissional. A música dele, eu gostar ou não gostar, é irrelevante, mas o admiro como excelente profissional que ele é. 

 

Os festivais e Geraldo Vandré

Vandré fez o trabalho dele muito bem. Acho que Vandré foi mais um que continuou a fazer música nordestina. Eu me lembro que um dia encontrei Humberto Teixeira e ele disse: “Sivuca, tem um menino aí chamado Geraldo Vandré que está fazendo coisas muito boas, até melhor do que nós”. Aquilo marcou.

 

O Tropicalismo e Caetano Veloso

Caetano é bom, Caetano é matreiro, é inteligente, é tudo. O Tropicalismo é rótulo que rendeu. Teve a sua fase. Inclusive, trouxe muita gente boa de volta, como Gonzagão e Jackson. De todos esses movimentos vem coisa boa, e Caetano, que é um compositor inteligente, nos legou muitas pérolas musicais maravilhosas. 

 

O Clube da Esquina e Milton Nascimento

Milton Nascimento é bom. Outro grande harmonista, gosto dele. Um homem que faz Travessia não pode fazer coisa ruim. O movimento mineiro só não foi mais adiante porque é um pouco sofisticado demais, mas Milton, eu considero um dos grandes compositores do Brasil.

Sivuca morreu há dez anos, e memorial dele não sai do papel!

Nesta quarta-feira (14), faz dez anos da morte de Sivuca. Aos 76 anos, depois de uma longa luta contra o câncer.

Uma década se passou, e a Paraíba não tornou concreto o projeto do Memorial Sivuca. O acervo do grande músico está com a viúva dele, a compositora Glorinha Gadelha.

A ideia do memorial esteve com o governo Maranhão, em 2009 e 2010. A derrota de José Maranhão, na eleição de 2010, inviabilizou o projeto, que chegou a tramitar pelo Ministério da Cultura.

A UFPb foi colocada no circuito. Não sei em que pé as coisas estão.

Só sei que a Paraíba tem essa dívida com Sivuca.

Nos dez anos sem ele, selecionei seis discos para nossas reaudições.

Sivuca. Gravado nos Estados Unidos. Na ordem dos músicos de lá, ele foi registrado como guitarrista e não como sanfoneiro. Daí a foto da capa.

Sivuca & Rosinha de Valença ao Vivo. Grande registro da temporada no projeto Seis e Meia. A sanfona de Sivuca, em números inacreditáveis, encontra o violão de Rosinha. Soberbo!

Forró e Frevo. Fusão do forró com o frevo. Sivuca nos apresenta aos frevos sanfonados. Este é o primeiro volume de uma série dedicada a essa mistura.

Pau Doido. Forró, Bossa Nova, jazz. Disco de temas instrumentais gravado especialmente para uma temporada na Europa.

Cada um Belisca um Pouco. Uma jam session cheia de virtuosismo com três mestres da sanfona. Tudo em homenagem a Luiz Gonzaga.

Terra Esperança. Último disco de Sivuca. Gravado em João Pessoa com músicos da Paraíba. Ótimos temas instrumentais.