ISTO É BOSSA NOVA. ISTO É MUITO NATURAL

Para comemorar os 60 anos da Bossa Nova, escrevi um texto que foi dividido em várias partes para publicação aqui na coluna. 

Hoje, junto cada pedaço e disponibilizo o texto integral. 

A Bossa Nova completa 60 anos agora em 2018.

Há quem defenda o argumento de que seria em 2019, no sexagésimo aniversário do lançamento do LP Chega de Saudade, de João Gilberto.

Fiquemos, no entanto, com 2018 porque foi em 1958 que Elizeth Cardoso lançou Canção do Amor Demais, disco dedicado à parceria de Antônio Carlos Jobim com Vinícius de Moraes.

Neste disco, está registrada pela primeira vez a batida da bossa ao violão: seu criador, João Gilberto, acompanha Elizeth em Chega de Saudade e Outra Vez.

Um pouco depois, em julho de 1958, o próprio João fez o seu registro de Chega de Saudade num 78 rpm da Odeon.

A gravação seria uma espécie de manifesto do movimento que mudou a música popular do Brasil e efetivamente lhe deu dimensão internacional.

Além de ter fornecido inúmeras razões para que nos orgulhássemos dela.

Um cantor e seu violão.

Um compositor quer quis ser arquiteto e estudou piano clássico.

Um poeta que resolveu fazer letra de música popular.

João Gilberto.

Antônio Carlos Jobim.

Vinícius de Moraes.

Há outros. Mas, se quisermos eleger apenas três nomes, são estes os que melhor representam a Bossa Nova.

E há um ano crucial, antes das gravações que servem de referência para que se comemorem as seis décadas do movimento: 1956, o ano de Orfeu da Conceição.

O espetáculo que transportava o mito grego de Orfeu para os morros do Rio promoveu o encontro de Tom e Vinícius e fez nascer uma das grandes parcerias da nossa música popular.

Sem ela e sem os sambas que João cantava acompanhado ao violão, não haveria Bossa Nova, apesar dos outros cantores, compositores e instrumentistas também inseridos no ambiente que permitiu o seu surgimento.

INFLUÊNCIA DO JAZZ

Os críticos da Bossa Nova, muito por causa do sucesso obtido nos Estados Unidos, costumam apontar a influência do jazz como um dos defeitos da bossa.

Alguns identificam nas canções de Tom Jobim características que remetem a compositores eruditos da Europa (de Chopin a Debussy) e as consideram negativas.

Há também os que a rejeitam porque ela teria nascido em reuniões nos apartamentos da Zona Sul do Rio de Janeiro e, por esta razão, seria uma música fútil e distante da realidade brasileira.

Uma série de teses que atentam contra o bom senso, mas que exibem uma impressionante capacidade de sobrevivência num país em que é mais fácil reconhecer os méritos de Garrincha do que os de Pelé.

60 anos já se passaram, e elas continuam vivas. E é a elas que comumente recorrem os que querem detratar algo que figura entre o que o Brasil produziu de melhor.

Pixinguinha, cuja brasilidade ninguém mais questiona, era criticado na década de 1920 por ser jazzista. Antes de ganhar a letra de Braguinha, o tema instrumental Carinhoso foi considerado jazzístico.

No caso da Bossa Nova, existe, sim, influência da música dos negros americanos, menos em Jobim e em João Gilberto do que nos grupos que difundiram entre nós o chamado samba-jazz. Mas é necessário lembrar que a inserção da bossa nos Estados Unidos foi tão marcante que não há como negar que esta também influenciou o jazz.

A presença dos eruditos europeus na obra de Tom é verdadeira, mas não é maior do que a de Villa-Lobos e seu imenso amor pelas coisas do brasil.

A Bossa Nova não pode ser diminuída pela influência do jazz, nem pelos eruditos que Jobim estudou ao piano. Muito menos pelos encontros nos apartamentos da Zona Sul.

SÓ DANÇO SAMBA

O samba tem muitas facetas. Há o samba de roda da Bahia, o samba-enredo das escolas do Rio de Janeiro, o samba-choro, o samba-canção, o samba de breque, o samba-exaltação, o samba paulistano de Adoniran Barbosa. Eles são diferentes, têm características próprias, mas não deixam de ser samba.

A Bossa Nova, antes de qualquer outra coisa, é samba. E de beira de praia, como diz Chico Buarque.

Se tomarmos como parâmetro os três primeiros discos de João Gilberto para a Odeon, o que vamos encontrar neles é o samba acrescido de outros elementos – harmônicos, rítmicos, poéticos. Uma batida absolutamente original ao violão (e isto até José Ramos Tinhorão, crítico rigoroso do movimento, reconheceu), arranjos de orquestra que não eram comuns antes da Bossa, um jeito intimista de cantar.

Dados que se incorporaram ao samba e o redimensionaram, fazendo nascer, então, o samba Bossa Nova.

Os bossanovistas produziram uma versão refinadíssima do samba, o mais popular dos nossos gêneros musicais. A Bossa Nova revelou em João Gilberto um intérprete perfeccionista, que influenciou cantores e violonistas no mundo inteiro e consolidou a carreira de Tom Jobim, que, sem qualquer favor, é frequentemente citado como um dos maiores compositores populares do século XX. Já Vinícius de Moraes escreveu letras que o colocam entre os grandes do nosso cancioneiro.

E há uma extensa lista de figuras que se notabilizaram a partir da Bossa. Ou apareceram depois, fazendo um tipo de trabalho que só foi possível por causa da invenção contida em dois sambas de Tom: Chega de Saudade e Desafinado.

UM CANTINHO, UM VIOLÃO

No Brasil, são muitos os artistas que falam do impacto produzido pela primeira audição de Chega de Saudade e Desafinado. De Chico Buarque a Gilberto Gil. De Edu Lobo a Caetano Veloso. De Milton Nascimento a Roberto Carlos.

Todos devem alguma coisa às canções de Jobim, à voz e ao violão de João Gilberto, à sonoridade daquelas gravações. A verdade é que, em algum momento, todos quiseram fazer Bossa Nova. E, mesmo nos que se distanciaram tanto dela, como é o caso de Roberto Carlos, não será difícil identificar lições da bossa, seja no intimismo que há no seu canto, seja no perfeccionismo que o acompanha pelos palcos e estúdios.

Caetano Veloso não faz segredo da sua verdadeira devoção a João Gilberto e escolhe Chega de Saudade como a música que mais o influenciou. Enquanto Chico Buarque diz que deve quase tudo a Jobim, a quem um dia chamou de maestro soberano.

Fora do Brasil, quem popularizou a Bossa Nova foi um disco do saxofonista Stan Getz com o guitarrista Charlie Byrd: Jazz Samba, de 1962. A versão deles para Desafinado conquistou as paradas.

No mesmo ano, o êxito do show coletivo que os brasileiros fizeram em Nova York confirmou que a Bossa Nova não ficaria limitada ao nosso mercado.

Em seguida, João Gilberto e Stan Getz gravaram o LP Getz/Gilberto, que difundiu internacionalmente Garota de Ipanema, e Tom Jobim pôde, afinal, ter um disco solo: The Composer of Desafinado Plays. A revista Down Beat disse que somente este LP justificaria a existência do movimento.

Ouvido hoje por quem não conhece a história, ele soa como uma coletânea porque suas faixas se tornaram muito conhecidas, clássicos populares. Mas The Composer não é uma compilação, um The Best. Apenas revela o talento de Tom Jobim de escrever músicas para a posteridade.

COISA MAIS LINDA

Vinícius de Moraes trocou Tom Jobim por outros parceiros: o inspirado melodista Carlos Lyra e Baden Powell, com quem gravou a série de afro-sambas.

Nara Leão, ao gravar seu primeiro disco, estabeleceu um diálogo com os sambistas tradicionais, como Zé Keti, Cartola e Nelson Cavaquinho.

Sérgio Mendes, antes de produzir, nos Estados Unidos, uma versão ultracomercial da bossa, montou o sexteto Bossa Rio.

Por trás do grupo, em seu extraordinário disco de estreia (Você ainda não ouviu nada!), estão os arranjos de Jobim e do maestro Moacir Santos.

Quando entraram em cena, um pouco mais na frente, os jovens Edu Lobo e Chico Buarque traziam em suas músicas as sugestões que estavam lá atrás – em Tom, João, Vinícius, Lyra, Menescal, Baden.

A Bossa Nova, como movimento, já havia passado, mas a sua influência se faria sentir, nas décadas seguintes, mesmo onde não parece existir qualquer sinal dela.

CANÇÕES E NOMES

Na longa lista das músicas que marcaram a Bossa Nova, estão na frente as de Antônio Carlos Jobim, escritas em parceria com Vinícius de Moraes, Newton Mendonça ou sem parceiros:

Chega de Saudade

Desafinado

Samba de uma Nota Só

Corcovado

Insensatez

Garota de Ipanema

Samba do Avião

O Morro Não Tem Vez

Água de Beber

Só Danço Samba

Meditação

O Amor em Paz

Há as de Carlos Lyra (Coisa Mais Linda, Se É Tarde me Perdoa, Saudade Fez um Samba, Você e Eu, Lobo Bobo, Influência do Jazz), as de Roberto Menescal (O Barquinho, Você), as de Johnny Alf (Rapaz de Bem, Ilusão à Toa), as de Marcos Valle (Samba de Verão, Eu Preciso Aprender a Ser Só).

E muitas outras, dezenas e dezenas que poderíamos mencionar, além dos grandes temas instrumentais e dos desdobramentos da bossa.

Tom Jobim, João Gilberto e Vinícius de Moraes abrem a lista dos nomes da Bossa Nova.

E nela estão: Carlos Lyra, Roberto Menescal, Johnny Alf, Ronaldo Bôscoli, João Donato, Marcos e Paulo Sérgio Valle, Sérgio Mendes, Eumir Deodato, Baden Powell, Astrud Gilberto, Nara Leão, Sílvia Telles, Maysa, Agostinho dos Santos, Oscar Castro Neves, Luiz Bonfá, Dick Farney, Zimbo Trio, Tamba Trio, Aloysio de Oliveira.

No Brasil, depois nos Estados Unidos, mais tarde na Europa e no Japão, eles espalharam os sons da Bossa Nova pelo planeta, as melodias que representam o Brasil internacionalmente e que são ouvidas até hoje, passadas seis décadas desde que João Gilberto gravou Chega de Saudade.

É PROMESSA DE VIDA NO TEU CORAÇÃO

Nos anos 1950, Ella Fitzgerald gravou os songbooks dos grandes compositores americanos do século XX. Naqueles discos, está uma parte significativa do melhor cancioneiro popular do mundo.

No início da década de 1980, como se algo estivesse incompleto, a dama do jazz fez o songbook de Antônio Carlos Jobim. Ella Abraça Jobim.

Antes, na segunda metade dos anos 1960, Tom dividira um disco com Frank Sinatra, o maior cantor popular do século passado. Francis Albert Sinatra & Antônio Carlos Jobim.

Os dois discos – o de Ella e o de Sinatra – podem ser tomados como síntese da dimensão internacional da Bossa Nova.

Em 2000, quando se apresentou em Londres, João Gilberto foi visto por Eric Clapton. O guitarrista, um dia chamado de “Deus”, ficou tão impressionado que resolveu compor uma bossa (Reptile). Fez mais: na sua turnê mundial do ano seguinte, abria o show num banquinho, tocando um blues e seu samba Bossa Nova.

A despeito do êxito internacional, a Bossa Nova está identificada com um projeto de Brasil, independente do que pensam seus críticos e até mesmo à revelia de muitos dos seus protagonistas.

Não é por acaso que o destino do Brasil e dos brasileiros está presente de forma tão nítida na obra a um só tempo exuberante e profunda de Antônio Carlos Jobim.

Tom foi um grande brasileiro, e o movimento do qual participou como fundador fala do que somos capazes com o nosso talento e as nossas singularidades.

Fecho com um texto do jornalista Luiz Fernando Vianna:

A Bossa Nova espelha um Brasil ideal. Nacional e cosmopolita, silencioso e capaz de mexer no som do mundo. Leve e profundo. Temos ou devíamos ter a Bossa Nova como um espelho do que devíamos ser. 

 

BOSSA NOVA 60: É promessa de vida no teu coração

Nos anos 1950, Ella Fitzgerald gravou os songbooks dos grandes compositores americanos do século XX. Naqueles discos, está uma parte significativa do melhor cancioneiro popular do mundo.

No início da década de 1980, como se algo estivesse incompleto, a dama do jazz fez o songbook de Antônio Carlos Jobim. Ella Abraça Jobim.

Antes, na segunda metade dos anos 1960, Tom dividira um disco com Frank Sinatra, o maior cantor popular do século passado. Francis Albert Sinatra & Antônio Carlos Jobim.

Os dois discos – o de Ella e o de Sinatra – podem ser tomados como síntese da dimensão internacional da Bossa Nova.

Em 2000, quando se apresentou em Londres, João Gilberto foi visto por Eric Clapton. O guitarrista, um dia chamado de “Deus”, ficou tão impressionado que resolveu compor uma bossa (Reptile). Fez mais: na sua turnê mundial do ano seguinte, abria o show num banquinho, tocando um blues e seu samba Bossa Nova.

A despeito do êxito internacional, a Bossa Nova está identificada com um projeto de Brasil, independente do que pensam seus críticos e até mesmo à revelia de muitos dos seus protagonistas.

Não é por acaso que o destino do Brasil e dos brasileiros está presente de forma tão nítida na obra a um só tempo exuberante e profunda de Antônio Carlos Jobim.

Tom foi um grande brasileiro, e o movimento do qual participou como fundador fala do que somos capazes com o nosso talento e as nossas singularidades.

Fecho com um texto do jornalista Luiz Fernando Vianna:

A Bossa Nova espelha um Brasil ideal. Nacional e cosmopolita, silencioso e capaz de mexer no som do mundo. Leve e profundo. Temos ou devíamos ter a Bossa Nova como um espelho do que devíamos ser. 

ESTE TEXTO ENCERRA UMA SÉRIE SOBRE OS 60 ANOS DA BOSSA NOVA. 

BOSSA NOVA 60: Canções e nomes

Na longa lista das músicas que marcaram a Bossa Nova, estão na frente as de Antônio Carlos Jobim, escritas em parceria com Vinícius de Moraes, Newton Mendonça ou sem parceiros:

Chega de Saudade

Desafinado

Samba de uma Nota Só

Corcovado

Insensatez

Garota de Ipanema

Samba do Avião

O Morro Não Tem Vez

Água de Beber

Só Danço Samba

Meditação

O Amor em Paz

Há as de Carlos Lyra (Coisa Mais Linda, Se É Tarde me Perdoa, Saudade Fez um Samba, Você e Eu, Lobo Bobo, Influência do Jazz), as de Roberto Menescal (O Barquinho, Você), as de Johnny Alf (Rapaz de Bem, Ilusão à Toa), as de Marcos Valle (Samba de Verão, Eu Preciso Aprender a Ser Só).

E muitas outras, dezenas e dezenas que poderíamos mencionar, além dos grandes temas instrumentais e dos desdobramentos da bossa.

Tom Jobim, João Gilberto e Vinícius de Moraes abrem a lista dos nomes da Bossa Nova.

E nela estão: Carlos Lyra, Roberto Menescal, Johnny Alf, Ronaldo Bôscoli, João Donato, Marcos e Paulo Sérgio Valle, Sérgio Mendes, Eumir Deodato, Baden Powell, Astrud Gilberto, Nara Leão, Sílvia Telles, Maysa, Agostinho dos Santos, Oscar Castro Neves, Luiz Bonfá, Dick Farney, Zimbo Trio, Tamba Trio, Aloysio de Oliveira.

No Brasil, depois nos Estados Unidos, mais tarde na Europa e no Japão, eles espalharam os sons da Bossa Nova pelo planeta, as melodias que representam o Brasil internacionalmente e que são ouvidas até hoje, passadas seis décadas desde que João Gilberto gravou Chega de Saudade.

ESTE TEXTO FAZ PARTE DE UMA SÉRIE SOBRE OS 60 ANOS DA BOSSA NOVA. 

BOSSA NOVA 60: Coisa mais linda

Vinícius de Moraes trocou Tom Jobim por outros parceiros: o inspirado melodista Carlos Lyra e Baden Powell, com quem gravou a série de afro-sambas.

Nara Leão, ao gravar seu primeiro disco, estabeleceu um diálogo com os sambistas tradicionais, como Zé Keti, Cartola e Nelson Cavaquinho.

Sérgio Mendes, antes de produzir, nos Estados Unidos, uma versão ultracomercial da bossa, montou o sexteto Bossa Rio.

Por trás do grupo, em seu extraordinário disco de estreia (Você ainda não ouviu nada!), estão os arranjos de Jobim e do maestro Moacir Santos.

Quando entraram em cena, um pouco mais na frente, os jovens Edu Lobo e Chico Buarque traziam em suas músicas as sugestões que estavam lá atrás – em Tom, João, Vinícius, Lyra, Menescal, Baden.

A Bossa Nova, como movimento, já havia passado, mas a sua influência se faria sentir, nas décadas seguintes, mesmo onde não parece existir qualquer sinal dela.

ESTE TEXTO FAZ PARTE DE UMA SÉRIE SOBRE OS 60 ANOS DA BOSSA NOVA. 

BOSSA NOVA 60: Um cantinho, um violão

No Brasil, são muitos os artistas que falam do impacto produzido pela primeira audição de Chega de Saudade e Desafinado. De Chico Buarque a Gilberto Gil. De Edu Lobo a Caetano Veloso. De Milton Nascimento a Roberto Carlos.

Todos devem alguma coisa às canções de Jobim, à voz e ao violão de João Gilberto, à sonoridade daquelas gravações. A verdade é que, em algum momento, todos quiseram fazer Bossa Nova. E, mesmo nos que se distanciaram tanto dela, como é o caso de Roberto Carlos, não será difícil identificar lições da bossa, seja no intimismo que há no seu canto, seja no perfeccionismo que o acompanha pelos palcos e estúdios.

Caetano Veloso não faz segredo da sua verdadeira devoção a João Gilberto e escolhe Chega de Saudade como a música que mais o influenciou. Enquanto Chico Buarque diz que deve quase tudo a Jobim, a quem um dia chamou de maestro soberano.

Fora do Brasil, quem popularizou a Bossa Nova foi um disco do saxofonista Stan Getz com o guitarrista Charlie Byrd: Jazz Samba, de 1962. A versão deles para Desafinado conquistou as paradas.

No mesmo ano, o êxito do show coletivo que os brasileiros fizeram em Nova York confirmou que a Bossa Nova não ficaria limitada ao nosso mercado.

Em seguida, João Gilberto e Stan Getz gravaram o LP Getz/Gilberto, que difundiu internacionalmente Garota de Ipanema, e Tom Jobim pôde, afinal, ter um disco solo: The Composer of Desafinado Plays. A revista Down Beat disse que somente este LP justificaria a existência do movimento.

Ouvido hoje por quem não conhece a história, ele soa como uma coletânea porque suas faixas se tornaram muito conhecidas, clássicos populares. Mas The Composer não é uma compilação, um The Best. Apenas revela o talento de Tom Jobim de escrever músicas para a posteridade.

ESTE TEXTO FAZ PARTE DE UMA SÉRIE SOBRE OS 60 ANOS DA BOSSA NOVA. 

BOSSA NOVA 60: Só danço samba

O samba tem muitas facetas. Há o samba de roda da Bahia, o samba-enredo das escolas do Rio de Janeiro, o samba-choro, o samba-canção, o samba de breque, o samba-exaltação, o samba paulistano de Adoniran Barbosa. Eles são diferentes, têm características próprias, mas não deixam de ser samba.

A Bossa Nova, antes de qualquer outra coisa, é samba. E de beira de praia, como diz Chico Buarque.

Se tomarmos como parâmetro os três primeiros discos de João Gilberto para a Odeon, o que vamos encontrar neles é o samba acrescido de outros elementos – harmônicos, rítmicos, poéticos. Uma batida absolutamente original ao violão (e isto até José Ramos Tinhorão, crítico rigoroso do movimento, reconheceu), arranjos de orquestra que não eram comuns antes da Bossa, um jeito intimista de cantar.

Dados que se incorporaram ao samba e o redimensionaram, fazendo nascer, então, o samba Bossa Nova.

Os bossanovistas produziram uma versão refinadíssima do samba, o mais popular dos nossos gêneros musicais. A Bossa Nova revelou em João Gilberto um intérprete perfeccionista, que influenciou cantores e violonistas no mundo inteiro e consolidou a carreira de Tom Jobim, que, sem qualquer favor, é frequentemente citado como um dos maiores compositores populares do século XX. Já Vinícius de Moraes escreveu letras que o colocam entre os grandes do nosso cancioneiro.

E há uma extensa lista de figuras que se notabilizaram a partir da Bossa. Ou apareceram depois, fazendo um tipo de trabalho que só foi possível por causa da invenção contida em dois sambas de Tom: Chega de Saudade e Desafinado.

ESTE TEXTO FAZ PARTE DE UMA SÉRIE SOBRE OS 60 ANOS DA BOSSA NOVA. 

Morreu Dona Ivone Lara. Era uma rainha do samba

Dona Ivone Lara morreu na noite desta segunda-feira (16), no Rio de Janeiro.

A sambista tinha 97 anos.

Dona Ivone Lara nasceu no samba.

O pai tocava. A mãe cantava.

Mas o Brasil tardou a conhecê-la.

Ela era de 1921, e o samba que a projetou nacionalmente foi sucesso no carnaval de 1965.

Os Cinco Bailes da História do Rio.

Silas de Oliveira, Bacalhau e Dona Ivone Lara assinaram o samba-enredo da Império Serrano.

Um dos mais belos do gênero. Absolutamente antológico.

E quebrou uma regra: mulher não podia fazer samba-enredo.

Dona Ivone fez!

Dona Ivone Lara era enfermeira. Só se dedicou totalmente à música a partir de 1977, quando já estava aposentada.

Em 1979, Maria Bethânia e Gal Costa gravaram Sonho Meu, provavelmente, sua música mais popular.

Dona Ivone demorou a ser reconhecida como grande compositora de sambas. Mas a vida longa permitiu que ela desfrutasse o reconhecimento.

Dona Ivone Lara era uma rainha do samba!

Teresa Cristina, uma verdadeira princesa do samba, faz 50 anos

Teresa Cristina é uma princesa do samba.

Creio que foi Caetano Veloso que a chamou assim.

Nesta quarta-feira (28), ela faz 50 anos.

Teresa Cristina surgiu na cena musical do Rio de Janeiro no fim da década de 1990. Ela e o Grupo Semente, o nome retirado do bar onde se apresentavam.

No início dos anos 2000, começou a se projetar nacionalmente com um CD duplo dedicado a Paulinho da Viola.

Ela e Paulinho, dois portelenses. Ela, oferecendo delicadas regravações dos sambas dele.

Teresa Cristina é uma cantora de samba que se permite caminhar para fora do universo do samba.

O título e o conteúdo de Melhor Assim já indicavam.

A confirmação mesmo veio no CD Teresa Cristina + Os Outros = Roberto Carlos.

Uma sambista e um grupo da cena indie relendo o repertório do Rei num disco de rock.

Teresa gosta de rock pesado e black music e, nela, convivem uma extraordinária reverência ao samba e uma notável liberdade para gravar outras coisas.

No CD/DVD ao vivo dedicado a Cartola, voltou às matrizes. Um compositor da Mangueira, uma cantora da Portela, o grande violão de Carlinhos 7 Cordas. Um encontro guiado pela música que representa o Rio e todos nós, brasileiros.

Depois, uma turnê internacional com Caetano Veloso, que é seu fã.

Agora, Teresa Cristina chega aos 50 com um disco produzido por Caetano.

Dessa vez, o escolhido é Noel Rosa.

Salve Teresa Cristina!

Viva o samba!

No Dia da Consciência Negra, nomes!

 

B.B. King, Bob Marley, Chuck Berry, James Brown, Jimi Hendrix, Michael Jackson, Muddy Waters, Ray Charles, Robert Johnson, Stevie Wonder.   

Alberta Hunter, Aretha Franklin, Bessie Smith, Billie Holiday, Dinah Washington, Ella Fitzgerald, Etta James, Mahalia Jackson, Nina Simone, Sarah Vaughan. 

Charles Mingus, Charlie Parker, Count Basie, Dizzy Gillespie, Duke Ellington, John Coltrane, Louis Armstrong, Miles Davis, Quincy Jones, Thelonious Monk.   

Baden Powell, Cartola, Clementina de Jesus, Djavan, Dorival Caymmi, Elizeth Cardoso, Elza Soares, Gilberto Gil, Jackson do Pandeiro, Jamelão, Johnny Alf, Jorge Ben, Luiz Melodia, Milton Nascimento, Moacir Santos, Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola, Pixinguinha, Tim Maia, Wilson Simonal.  

Dedé Aureliano era o amor recifense de Paulinho da Viola

A razão porque mando um sorriso
E não corro
É que andei levando a vida
Quase morto
Quero fechar a ferida
Quero estancar o sangue
E sepultar bem longe
O que restou da camisa
Colorida que cobria minha dor
Meu amor eu não esqueço
Não se esqueça por favor
Que voltarei depressa
Tão logo a noite acabe
Tão logo este tempo passe
Para beijar você

Paulinho da Viola está fazendo 75 anos neste domingo (12).

Aproveito para contar uma história que muitos não conhecem.

Em janeiro de 1986, no camarote de um show de Gilberto Gil, no Recife, Jomard Muniz de Britto, apontando para uma senhora que estava ao meu lado, me disse:

Venha conhecer Dedé Aureliano!

Fiquei emocionado e, antes de conversarmos um pouco, beijei a mão dela e falei:

Puxa, que honra!

Era a professora para quem Paulinho da Viola compôs Para um Amor no Recife.

Dedé Aureliano era uma mulher à frente do seu tempo, asseguram os que conviveram com ela.

Independente, feminista, de esquerda. Trabalhou com Dom Hélder Câmara.

Uma mulher empoderada, diríamos na linguagem de hoje.

Paulinho da Viola a conheceu no início da carreira, quando foi ao Recife fazer show. O Recife de tantas tradições culturais, de muitas lutas políticas. Foi e ficou um pouco mais.

Foi hóspede dela. Construíram uma amizade que se estendeu até à morte de Dedé.

Dedé Aureliano, uma vez, pediu à mãe de Paulinho permissão para chamá-lo de filho. E obteve.

Essa é uma bela história de amor e amizade, registrada nas cartas que ela escreveu para ele e que o músico guarda até hoje.

Eternizada numa das músicas mais bonitas e delicadas do repertório de Paulinho.

Para um Amor no Recife parece exclusivamente uma canção de amor. Mas vai além disso. Tem uma letra de cunho político que a insere entre as grandes canções compostas contra a ditadura militar.

A referência, na letra, à noite brasileira iniciada com o golpe de 64 é tão sutil quanto o próprio engajamento de Paulinho da Viola.

A elegância que vemos permanentemente em Paulinho – na obra, na fala mansa, no vestir, na postura no palco – se estendeu também ao modo como ele se posicionou politicamente durante a ditadura.

Suas músicas têm muitas referências ao momento histórico que o Brasil vivia, remetem à sua discreta militância, mas nada é explícito, tudo combina com a nobreza desse príncipe do samba.

Fecho com Para um Amor no Recife.

Vamos ouvir?

Salve Paulinho da Viola!